Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

16 de fev de 2015

Tormenta - Capítulo 44

Benedict mantém uma arma apontada para mim.
É uma ultraquick, uma arma comprida, retangular, com três saídas de onde saem balas tão rápidas e finas que podem atingir, a queima roupa, até sete pessoas enfileiradas, uma atrás da outra. Eu também tenho uma apontada para ele.
Eu estou tentando conter os soluços violentos que se rompem em minha garganta, mas ele continua neutro, impassível.

"Ben, sou eu, Daphne..."
   - Digo com a voz embargada. Meus olhos ardem com as lágrimas que ameaçam cair, mas ele não responde, não demonstra reação, e isso só me faz ficar ainda mais desesperada.
"Ben, por favor, não faz isso, abaixa essa arma."



Uma lágrima quente escorre em minha bochecha. Por mais desequilibrada que eu esteja, minhas mãos continuam firmes, apontando a arma em direção ao seu coração.
Ele continua tão inexpressivo quanto antes.

"Ben!" - Grito, na esperança de que ele saia da inércia. Minha voz causa ecos. - "Por favor, não me faça atirar em você!"

Vozes autoritárias soam na minha cabeça em unissono.
Atire.
Eu sussurro um "não" e elas respondem...
Atire, ou ele vai atirar em você.
Não posso atirar nele, é meu irmão.
Não é seu irmão, não tem o seu sangue.
O dedo de Benedict se move até o gatilho.
Atire agora!

"Ben..."
   - Sussurro, e minha voz possui vários significados; um adeus, um pedido de desculpas... Meu rosto agora está completamente molhado com as lágrimas que desisti de conter.

Então fecho os meus olhos, e o som agudo do disparo enche meus ouvidos.

Meus olhos se abrem num sobressalto.
Sinto a luz do sol bater diretamente contra meu rosto. Aos poucos recobro meus sentidos; o calor, minhas roupas encharcadas de suor, a areia fina embaixo de mim...
    Eu não grito durante meus pesadelos como a maioria das pessoas. Eric diz que eu me encolho toda e meu rosto se contrai em tensão, mas eu permaneço silenciosa, sem soltar um único gemido. Então eu acordo ofegante e meio desorientada, como agora.

"Você está bem?"
   - Ouço a voz tranquila de Eric. Ele está sentado ao meu lado, pacientemente, me observando com um brilho de compreensão nos olhos. Se ele também costuma ter pesadelos, eu não sei, porque ele não dá indícios disso.

"É, eu tô." - Respondo brevemente e então solto um suspiro exasperado. Estou tentando não pensar no meu irmão, mas ultimamente, ele tem sido o único personagem dos meus sonhos.

Não é seu irmão, não tem o seu sangue...

"Droga!"
   - Praguejo em voz alta, me levantando subitamente. Eric arqueia uma sobrancelha. Dou um sorriso amarelo e digo:
"Desculpa... resquícios do pesadelo."

     A península é uma depressão cheia de areia e um mar imenso que se estende até onde a vista alcança. Em volta, há uma estrada curva e deserta que dá para Yellowbloat, um território árido e sem dono ao leste de Illies. Uma montanha se ergue bem na curva da estrada, a primeira coisa que é vista depois de passar pela floresta.
    Depois da minha última conversa com Joanna, eu e Eric passamos o resto da viagem a pé, em silêncio. Ele não fez menção alguma sobre o que eu disse a ela ou porque ela estava chorando, ao que eu agradeci imensamente. O cansaço profundo que me impede de chorar ainda está aqui, junto com a pressão em meu peito. Sinto que se eu desabar agora, não vou conseguir levantar de novo.
Mesmo estando de costas para ele, sinto seus olhos em cima de mim.
Me aproximo da beira do mar, deixando que a água molhe meus pés enquanto tento clarear a mente. Já é quase meio-dia e nós não temos exatamente um lugar para ir. Com certeza deve haver algum lugar além da península, mas como chegaríamos lá?

"Deve haver alguma coisa em Yellowbloat."
    - Eric diz, como se estivesse lendo meus pensamentos.
"De qualquer forma, é o único lugar fora de Illies e Calanma que podemos ir no momento."

"E se a gente não achar nada?"

Ele parece refletir sobre a minha pergunta.

"Bom." - Ele murmura, tocando uma mecha do meu cabelo com a ponta dos dedos. - "Se não houver nada, vamos pôr algo lá, e depois achar alguma forma de atravessar a península."

Eu estou quase sorrindo quando o som de pneus cantando ecoa até nós.
Nossos olhos se fixam na estrada curva e de repente, carros vindos de Illies surgem, um atrás do outro, em nossa direção.
É claro que a Central chegaria até nós.
A península e Yellowbloat são os únicos lugares que alguém que não está em Calanma ou Illies pode ir. Eric agarra a metralhadora com rapidez e eu puxo a pistola para fora do coldre. Os carros param bem próximos a praia e nós começamos a correr, enquanto alguns deles saem dos carros, ordenando para ficarmos parados. Eric atira em dois deles e os outros voltam a entrar, movendo seus carros em nossa direção. A caixa preta com suas pequenas bombas surgem em minha mente e eu olho para a mochila que Eric carrega, calculando quanto tempo nós temos.
Eles não atiram em nós, entretanto.
Imagino o rosto de Evan grudado em uma das sala de controle enquanto ela exige que sejamos trazidos vivos até ela. Ela quer o prazer de nos torturar, tirar tudo o que sabemos e só depois de nos reduzir a farrapos, acabar com nossas vidas. Talvez ela consiga isso. Eu estou quase acreditando que ela venceu quando dois carros nos cercam.
Então, uma nova rajada de tiros surge de algum lugar da estrada.
Percebo, com alívio, que os carros não são blindados quando as balas perfuram a lataria e estilhaçam os vidros das janelas. O pneu de um dos carros é atingido e o carro gira, descontrolado, capota e cai em cima de um outro. Duas pessoas, um homem e uma mulher, surgem com fuzis nas mãos e sinalizam para abrirmos as portas dos carros. Quando Eric puxa a porta com força, descubro que há apenas dois homens vivos.

"Pra praia, agora!"
   - A mulher grita para os homens que são escoltados por nós, desarmados e com as mãos para cima; de repente, eu reconheço sua voz e olho fixamente para ela. Ela retribui o olhar e eu abro a boca, mas nenhum som sai.
Sua expressão se suaviza e ela me dá uma piscadela;
Desvio o olhar, petrificada com a descoberta...

     O homem que está com ela se aproxima de nós, ordenando que os homens capturados se ajoelhem. Seus cabelos possuem mais fios brancos do que negros e a pele do seu pescoço e rosto é flácida, mas ele ainda é bem forte. A água do mar molha as calças dos oficiais de Illies e um deles está chorando. Eu mal me mexo quando ouço o estampido da arma e os dois soldados desabam, com uma bala em suas nucas.

O rosto de Eric reflete a minha confusão quando a moça de rosto felino se aproxima de nós, com um sorriso enviesado no rosto. Ela é tão intimidante agora como era na sede da DGJURC, no setor 1 de New Roman. Porém, o sotaque artificial e eletrônico de sua voz some, quando ela murmura...

"Olá meninos. Pensei que nunca iriam sair daquela jaula."

"Sarah?!"
   - Pergunto, finalmente encontrando minha voz.

"Me chame de Estela."
    - Ela responde, encolhendo os ombros.
"Já que sei seu nome verdadeiro, Daphne, não há nada mais justo do que você saber o meu."