Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

15 de fev de 2015

Tormenta - Capítulo 43

O contorno do corpo compacto de Joanna Redfort surge na penumbra.
Ela caminha ágil e silenciosa como uma gata, desviando-se de uns poucos arbustos que se instalam no caminho; sua pele está um pouco mais clara do que o normal, devido ao tempo morando em Sukvinder, uma cidade de clima mais ameno que o resto do país.
Joanna é loira como Benedict, e eu penso que há algum tempo atrás, seu cabelo já foi lindo e sedoso como de seu filho, mas agora, ele é apenas muito fino e ressecado, preso num rabo de cavalo baixo. A cor clara de sua pele e cabelos parece tão fora de lugar aqui, quando todos são morenos e tem a pele bronzeada que sua presença chama sempre a atenção.
Conforme ela se aproxima de mim, reparo na forma como o tempo também agiu sobre o seu rosto. Minha mãe adotiva ainda é muito bonita, mas há olheiras, rugas no canto dos olhos e linhas profundas marcando sua testa, lhe conferindo uma aparência cansada. Seus olhos são de um cinza pálido tão iguais aos de Ben que, por um momento, sinto uma pontada de saudade dele e de seu riso fácil.
Eric está de pé, ao meu lado, quieto e observador.



"Acho que devo agradecimentos a alguém por manter minha filha viva."
    - Ela diz calmamente, olhando Eric de soslaio, com um sorriso fraco nos lábios. Ele retribui o sorriso, mas não fala nada. O modo como Joanna me chama de filha é tão comum, mas mesmo assim, eu contenho uma exclamação emocionada. Tudo ficou muito delicado entre nós duas depois do que ouvi de Vikram.

"Temos que conversar." - Murmuro, tocando seu braço com a ponta dos dedos. Ela concorda com a cabeça e eu olho para Eric. Ele sustenta meu olhar por um tempo e coça a sobrancelha nervosamente.

"Eu vou estar por perto."
    - É a última coisa que ele diz antes de ir embora.

*
"Acredito que já pode me explicar o que aconteceu."
    - Ela afirma seriamente, cruzando as mãos sobre o colo, assim que o som dos passos de Eric some. Eu não queria excluir ele da nossa conversa, mas falar sobre as bombas biológicas na presença dele se tornou muito incômodo com o fantasma de Melanie Jaswant rondando sobre nós.
Eu solto um longo suspiro antes de começar...

"Eric descobriu que o acampamento iria explodir, de alguma forma."
    - Abro o jogo. Seu rosto permanece neutro.
"Nós fugimos de lá a tempo, mas você deve fazer todos acreditarem que eu estou morta."

"Por que?"

"Porque a Central quer que eu esteja morta."

   Um silêncio se instala depois dessa última frase. Ela não faz o mínimo esforço em perguntar nada, o que me faz pensar que ela está esperando que eu diga mais alguma coisa.

"Eu fiz algumas coisas que a Central não gostou." - Começo. - "Então, qualquer pessoa relacionada a mim ou a Eric corre um certo perigo. Você pode passar a ser monitorada quando descobrirem que eu escapei, e eles não podem desconfiar que você sabe de alguma coisa. Por favor, não me pergunte o que eu fiz ou deixei de fazer, porque isso não vem ao caso agora."

"E o que vem ao caso agora, Daphne?"

"Uma coisa muito mais importante." - Preparo. - "As bombas biológicas."

O rosto dela se endurece com minha última frase.
Não há surpresa, medo ou espanto em seus olhos, mas um sentimento confuso, que não consigo decifrar.
Ela fica imóvel, tensa, como se estivesse tentando controlar a respiração.

"Há muito tempo, o governo de Calanma trabalhou num projeto de criação de uma nova bactéria letal e de fácil contágio." - Explico. Ela continua dura como uma pedra. - "Enfim, em breve, muito em breve, a bactéria será lançada na população de Illies. Acredito que as cidades do norte serão as primeiras a serem infectadas, portanto, sugiro que vá para alguma área do sul o mais rápido possível, por precaução. A única forma de conter uma epidemia é lançar o antídoto que destrói a praga, antídoto que está, obviamente, bem guardado em alguma parte de Calanma."

Um longo e sepulcral silêncio é o que vem em seguida.
Seus olhos pálidos se desviam de mim e fixam em algum ponto ao longe, e eu tento entender porque ela está se comportando assim. Eu esperei desespero e lágrimas, mas ela está imóvel e calada, inatíngivel, com os olhos perdidos. Eu a observo por um bom tempo, até que ela desvia o olhar, abaixa a cabeça e solta, numa voz tão fraca que eu não ouviria se não estivesse prestando tanta atenção...

"Eu sabia que aconteceria..."
    - Então, ela finalmente levanta a cabeça e olhar para mim com determinação...
"Há algumas coisas que você precisa saber sobre mim, Daphne. Uma delas é que eu sempre soube sobre esse projeto."

Essa é minha vez de ficar tensa.

"Na verdade foi a sua mãe, Doris, que me contou." - Ela acrescenta. - "Nós eramos amigas. Começamos a trabalhar na Central ao mesmo tempo quando jovens, só que a Doris quis ser agente de campo e eu fiquei monitorando os passos dela dentro das salas de controle. Significa que todas as informações que ela colhia do governo vinham para minha mão, inclusive esta. Ela desconfiou que estava havendo um projeto onde envolviam muitos cientistas e me contou tudo."

"E o que você fez?"
    - Pergunto. O fato de Joanna falar sobre a minha mãe pela primeira vez me afeta tanto que prendo a respiração involuntariamente. Ela também não parece muito confortável.

"Nada. Esse é o problema."
   - Ela responde com um suspiro.
"Sua mãe tinha umas tendências a criar teorias da conspiração e na época eu achei que era mais uma de suas histórias. Eu não acreditei. Depois que ela morreu, fiquei me perguntando durante todos esses anos se aquilo era mesmo verdade. Agora eu sei que é."

   Eu penso em ficar com raiva, porque era isso que eu deveria estar sentindo. Querendo ou não, Joanna é uma responsável indireta pelo caos de hoje. Pela futura epidemia. Pelas mortes que ela vai causar. Eu penso em jogar isso na sua cara, mas o arrependimento está tão estampado nos seus olhos que seria cruel fazer isso. Ela já está se sentindo culpada demais para que eu mexa ainda mais na ferida.
Mas era minha mãe.
A lembrança dos relatos de Vikram e os atuais relatos de Joanna são a última coisa que restou dela. Eu tenho direito de ficar com raiva. Eu tenho direito de gritar e culpá-la pelo que está acontecendo. Minha mãe se arriscou, se aproximando de Vikram Anshelf para provar uma tese que sua amiga não acreditou. Se todos acreditassem, talvez ela estivesse viva. As coisas seriam tão diferentes...

   O som dos seus soluços empurra esses pensamentos para fora da minha mente. Seus ombros tremem e ela se encolhe. Eu tento dizer alguma coisa, mas continuo imóvel, observando-a enquanto chora. Eu deveria estar chorando. A dor emocional de repente se torna física e eu sinto como se garras espremessem meu peito. Respiro com dificuldade e tento me controlar, me afastando dela silenciosamente.

"A Doris sabia de tudo." - Johanna repete, entre soluços. - "Ela sabia sobre a praga, sobre a pesquisa, ela tentou me avisar, mas eu..."

Sua voz falha.
Os soluços se rompem violentamente em sua garganta. Eu deixo que ela chore tudo o que precisa chorar e não a interrompo, até que, depois de algum tempo, ela levanta a cabeça, seu rosto banhado em lágrimas.

"Me perdoa, Daf." - Ela sussurra. - "Eu deveria ter contado, eu..."

"Shhh." - Murmuro. - "Não tem que ficar se culpando, não agora."

"E o Benedict,"
   - Ela lamenta.
"Eu sempre disse a ele para não se meter nisso, era perigoso, mas ele não quis me ouvir, ele não me ouviu, eu não ouvi a Doris..."

"Escuta."
    - Digo, me aproximando de novo, segurando seu rosto entre minhas mãos. Eu sou tomada por uma determinação que até então não tinha antes...
"Eu não vou deixar que essa praga chegue até aqui."

"E se ela já chegou?"

"Não chegou." - Afirmo. - "E não vai chegar. Eu não vou deixar. Vou fazer tudo o que for preciso para acabar com essa maldita bactéria, eu juro."

"Daf..."
   - Ela começa.
"A sua mãe morreu por causa disso, você não pode..."

"Minha mãe morreu lutando por aquilo que é certo."
    - Digo, com a voz tão firme que mal posso reconhecer.
"E se eu tiver que morrer dessa forma, eu vou."

Ela se cala, observando meu rosto.
Em seus olhos, sentimentos diversos passam por eles; orgulho, medo, preocupação e no fundo, esperança. Esperança de eu esteja certa. Esperança de que um dia tudo isso irá acabar.

"Eu tenho que ir."
   - Digo, lembrando de que não tenho muito tempo.

"Para onde?"

"Não posso contar." - Murmuro, então abro um sorriso cansado antes de comentar, tentando colocar algum grau, por menor que seja, de diversão na minha voz... - "Eu vou sobreviver."

"Se cuida."
   - Volto a dizer, séria de novo. Então lhe dou um beijo na testa suada e murmuro a frase mais dolorosa que já disse...
"Tchau, mãe."

Meus passos no chão barrento é o único som na noite.
A sombra de Eric está a poucos metros de mim, seu corpo encostado na moto, seus olhos me estudando. Eu vou até ele e o abraço, sem dizer uma palavra, porque estou cansada demais, dolorida demais para dizer alguma coisa. Ele corresponde e o calor do corpo de Eric é tão aconchegante que tenho vontade de chorar, de novo.
Então eu me desgrudo dele e olho para cada centímetro do seu rosto, desde as linhas fracas em sua testa até a barba por fazer, tentando gravar a imagem do único rosto que vou ver durante os próximos dias e talvez, o último que verei em minha vida.