Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

15 de fev de 2015

Tormenta - Capítulo 41

Seus lábios secos e rachados se abrem com lentidão, como se esse movimento fosse muito doloroso.

"A praga."
   - Ela sussurra com a voz morta.

"A praga." - Ela repete. Eu concordo com a cabeça. - "Vá."

Permaneço imóvel.

"Vá!" - Melanie insiste.

Então, depois de um último olhar para suas feridas, eu me levanto e corro.
    Não me importo em saber para que direção estou correndo, e quase tropeço nos escombros. Eu cambaleio uma vez ou outra, tonta com a descoberta, enquanto minha mente fervilha com o fato de Melanie Jaswant ter sido usada como cobaia para o projeto. Foi esse o seu castigo; deixar que ela pensasse que tudo estava bem e abaixar a guarda para depois entregá-la ao governo de Calanma. Evan e seus superiores com certeza já sabiam sobre as bombas biológicas. Evan sabia que eles precisavam de uma cobaia. Então, só para castigar um traidor, ela preferiu contribuir para o projeto e entregar Melanie nas mãos deles.
Vai além de tudo o que achei que a Central fosse capaz de fazer.
   Me choco com força contra algo ou alguém, e uma mão grande e cheia de calos impede a minha queda. Quando olho para cima, White está lá, com o cenho franzido e o olhar preocupado.

"Redfort, o que há com você?!"
   - Ele pergunta e eu me lembro da pergunta de Eric quando tive aquele colapso, momentos antes dos bombardeios. Eu não sei se White estava no momento, mas se estava, com certeza acha que estou passando pela mesma coisa agora. Talvez eu realmente esteja.

Tento achar alguma desculpa, mas nada me vem a mente, então fico calada.

"Daphne?!"
   - Ele exclama, chamando meu nome pela primeira vez. Penso em fingir um desmaio.
"O que aconteceu?! Fala alguma coisa!"

"Não aconteceu nada." - Solto. O rosto dele se suaviza um pouco pela resposta, mas sei que ainda não está convencido. - "Eu só... posso voltar para o acampamento?"

Ele me observa por uns instantes, cético.

"Certo."
   - Ele concorda, afinal.
"Você está mesmo precisando de descanso. Não quer que eu te leve?"

Nego veemente com a cabeça e ele folga o aperto.
Eu escapo de suas mãos e caminho a passos largos em direção ao acampamento, tentando parecer o mais tranquila possível, apesar de haver uma tempestade dentro de mim. O fato é que eu quero e preciso ajudar Melanie, mas não há nada que eu possa fazer. Não posso levá-la para a ala hospitalar, porque ela contaminaria todos nós. Também não posso contar a ninguém, porque ninguém sabe sobre a praga e isso só causaria um caos ainda maior. Não posso nem sequer contar a Eric, mesmo se ele estivesse aqui, porque ele tentaria salvar Melanie e nós não podemos fazer nada por ela agora. Deixá-la sozinha, em meio aos escombros, ignorando sua existência e seu atual estado é um golpe a minha consciência, mas estou de mãos atadas.
     Tento não ser notada pelos soldados no abrigo e me movo com discrição, evitando olhar para as pessoas. Observo as cortinas da ala hospitalar, pensando numa forma de me manter longe daquele lugar por mais tempo possível. Krigger vai estar lá, costurando feridas e me encarando com uma interrogação nos olhos. Provavelmente me fará perguntas que eu sou incapaz de responder.
Não sei como vai ser minha relação com Eric quando ele voltar, com esse segredo criando um peso imenso entre nós dois. Eu não quero esconder coisas, mas é necessário.
Deito-me num colchão de espuma no canto do acampamento. Ele fede a mofo e suor, mas esse é o menor dos meus problemas.
Preciso omitir isso. É melhor para todo mundo.
Repito silenciosamente essa frase várias vezes para que, de alguma forma, ela se transforme numa verdade absoluta. As enevoadas vozes dos soldados é a última coisa que ouço antes de adormecer.

*
Uma grande mão se pressiona contra a minha boca.
O odor metálico que invade minhas narinas é familiar, mas eu sinto falta do cheiro de desodorante masculino que normalmente vêm acompanhado dele; o que o substitui, na verdade, é um cheiro fraco e sem graça de sabonete neutro.
Meu primeiro impulso é gritar, mas quando olho para cima, os olhos escuros de Eric me advertem que essa não é a coisa mais sensata a fazer. Ele encosta o dedo indicador nos lábios, me pedindo silêncio, e tira a mão da minha boca gradativamente.

"O que está fazendo?"
   - Sussurro. Suas roupas pretas se misturam a escuridão do acampamento, e o local está silencioso demais para o meu gosto.
Sua mão agarra a minha com urgência e ele apenas diz:

"Venha comigo."

    Ele me arrasta e eu apenas me preocupo em desviar-me dos soldados deitados sobre coisas como lençóis, pedaços de papelão ou espuma. Tropeço algumas vezes, correndo atrás dele com os olhos arregalados em direção a saída do abrigo. Sua mão só solta a minha bem perto da porta, e ele saca uma pistola, apontando-a para frente e para os lados, antes de fazer sinal para que eu saia.
Só quando estou fora que percebo que Eric não veste o uniforme militar. Ele está com uma calça jeans surrada, camisa e um capote de moletom com capuz.

"Tenho roupas para você também."
    - Ele afirma, sinalizando para sua mochila, assim que percebe meu olhar confuso. Eric vira a cabeça instintivamente para os lados e acrescenta:
"Mas agora temos que ir, e rápido."

"Por que?!"

Ele olha para mim com ar de desaprovação, e eu cruzo os braços como resposta.
Eric detesta que eu o encha de perguntas quando está com pressa, mas eu não posso simplesmente fugir sem saber porque, e ele tem que entender isso.
Assim, ele solta um suspiro exasperado, passa as mãos no cabelo nervosamente e solta...

"Porque o acampamento vai explodir."