Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

9 de fev de 2015

Tormenta - Capítulo 40

O ferimento a bala lateja debaixo do meu curativo.
A agitação com a montagem do novo acampamento no lado sul de Painton é audível, mesmo estando muitos metros afastada da tropa. A cidade foi completamente dividida ao meio, e enquanto o sul está tomado de tropas ilienses, o norte está cheio de guarnições de Calanma.
Furnan.
A palavra paira nos meus lábios, mas me parece um esforço imenso dizê-la.
    Sua morte é algo que ainda não consegui digerir, e eu não sei se algum dia vou conseguir contá-la de forma simples, como se fosse um evento corriqueiro. Um dia ela afirmou, com toda a confiança, que não morreria, e eu acreditei nisso.
Ouço passos se aproximando de mim e eu sei que é ele.
Permaneço sentada no meio-fio, incapaz de virar a cabeça e dizer algo. A fadiga toma conta do meu corpo toda vez que tenho que mexer algum músculo, então eu só espero que ele me alcance. Talvez a companhia de Eric Ross vá tornar as coisas mais suaves.

"Oi."
   - Ele diz, sentando-se ao meu lado.



"Oi." - Respondo.

Nós ficamos em silêncio, e apesar de saber que ele está louco para que eu diga alguma coisa, eu continuo calada.
Eric então se cansa, solta um suspiro exasperado e confessa...

"Estive preocupado com você." - Eu o encaro. Já deveria estar acostumada com a intensidade do seu olhar, mas ele ainda me deixa atordoada. Eric acrescenta no segundo seguinte: - "E ainda estou."

"Ela foi para lá por pura teimosia."
    - Desabafo. Ele não parece surpreso pelo desvio repentino no assunto. Estava esperando por isso.
"Ela sabia que deveria ter ficado nas ruas adjacentes, que ir para o meio era suicídio, mas ela foi mesmo assim, não sei porque."

"Você também estava no meio, se não me engano."

"Eu não podia deixá-la lá!" - Exclamo, na defensiva. Então eu olho para ele novamente e seu olhar compreensivo me desarma. Suavizo a expressão. - "O problema é que ela estava segura demais. Tinha certeza de que não morreria e essa certeza a matou."

Eu deveria chorar agora, mas não choro.
Ao invés disso eu continuo encarando Eric e ele lê a mensagem nas entrelinhas. Furnan morreu porque subestimou a Central. Acontecerá o mesmo com nós dois se fizermos isso.
Ele estreita o espaço entre nós e eu deixo que ele me beije porque preciso de algo que me faça esquecer o quanto meus nervos estão em frangalhos. Seu beijo é muito mais inteso que o último, e quando ele me solta, vejo a despedida em seus olhos. Eric percebe a dúvida em meu rosto e sussurra, com o rosto tão perto do meu que nossos narizes se tocam, como se estivesse me contando um segredo...

"Cuide-se até eu voltar."

*
Abro as cortinas da ala hospitalar, e o fedor agudo de necrose ataca meu nariz.
O hospital do acampamento é na verdade uma pequena cabine abarrotada de pessoas que em sua maioria, estão mortas ou a beira da morte. Feridas abertas e infeccionadas se enchem de insetos e as pessoas gemem em suas macas, definhando aos poucos.
Eric não apareceu hoje, o que confirma sua despedida de ontem.
Como não faço a mínima ideia de para onde ele foi e o que está fazendo, eu prefiro empurrá-lo para fora da minha mente e ocupá-la com as tarefas de hoje.
Há apenas uma pessoa atendendo os doentes. É uma moça jovem, baixa e muito magra, que costura com rapidez a ferida na perna de um soldado desconhecido. Sua luva está suja com algo mais do que sangue e eu olho para seu precário kit de primeiros socorros; um rolo meio encardido de linha, uma seringa, um pouco de gaze enrolada num plástico transparente e uns dois frascos de antisséptico. Fico me perguntando como minha ferida no braço foi prontamente cuidada em meio a tantos feridos e tão poucos recursos.
Seu cabelo é de um ruivo escuro, meio desbotado, e a raiz preta se estende até quase toda sua franja, que cola em sua testa suada. Ela levanta o olhar para mim e fixa-o por uns instantes, me avaliando, para depois voltar a se concentrar em seu paciente.

"Você é nova por aqui."
  - Ela murmura; o soldado com a perna ferida geme alto, levantando o tronco da maca. A moça o encara e sussurra alguma coisa, e ele se deita novamente. Ela então volta a fazer os pontos e pergunta:
"Por que não está na patrulha?"

"Só me mandaram para cá."
   - Digo, encolhendo os ombros. Olho para seu distintivo.
 "Precisa de alguma coisa, Drª Krigger?"

"Não sou médica."
    - Ela solta, áspera. Arqueio uma sobrancelha.
"Se eu fosse, estaria num belo apartamento, num bom bairro de Sukvinder, bem longe daqui, como todos os outros."

Estranho o tom ressentido da sua voz, mas prefiro não dizer nada.

"Eles precisam de alguém pra fazer o trabalho, já que os médicos nunca chegam." - Ela acrescenta, encolhendo os ombros. - "Então, eu me voluntariei."

"Por quê?"
    - Solto, incapaz de conter a pergunta. Krigger me lança um olhar severo e eu me arrependo no mesmo instante.

Um longo silêncio paira entre nós duas.
Observo seu paciente; jovem, porém, aparentemente mais velho do que ela. Ele está com o rosto contorcido de dor, mas nos encara, curioso pelo rumo da conversa.
Passo os olhos pelo local, procurando algo para fazer, mas não há nada que melhore a situação das pessoas aqui.

"Não queria ficar na patrulha."
    - Ela responde, para minha surpresa. O soldado ferido a observa, implorando para que ela continue... ela também o observa, hesita, mas fala:
"Comecei a cuidar dos feridos antes da invasão de Ohtagua, no tempo que ainda lutávamos na fronteira. Eu deveria estar grata por ter sobrevivido todo esse tempo, mas não."

Ela se cala novamente.
Há dor em seus olhos e eu penso em mudar de assunto, só para que ela não tenha que falar sobre isso, mas o soldado deitado na maca entre nós duas sussurra, alisando seu braço com a ponta dos dedos...

"Continue, Krigger."

"Meu irmão." - Krigger solta. - "Eu o vi morrer nos meus braços. Não faço ideia do que aconteceu, só sei que ele correu para mim, cambaleando, com a garganta aberta. Fico aliviada em saber que as feridas no pescoço são quase sempre fatais, assim eles não são mandados para cá e eu não preciso viver isso de novo."

"Sinto muito."  - Sussurro.

Um novo silêncio se instala entre nós, mais incômodo que o último.
Ela deveria ser uma adolescente quando tudo aconteceu. Ficou traumatizada a ponto de se negar a lutar, mas não podia simplesmente voltar para casa.
Por mais que eu tente, é inevitável não se lembrar de Adeline Furnan.

"E você?" - Ela pergunta, repondo sua máscara de indiferença. - "Alguma história interessante sobre como veio parar aqui?"

Sorrio.

"Você não sabe o quanto."

Ela sorri de volta.

"Redfort?"
    - Uma voz masculina e desconhecida soa atrás de mim. Um soldado está na porta da ala hospitalar, com as mangas da camisa arregaçadas e respiração ofegante. Ele olha para Krigger e o soldado ferido, e depois para mim novamente...
"Um novo grupo de feridos está na margem. Quer ir com a gente buscar?"

Olho para Krigger. Ela apenas dá de ombros e murmura...

"Vai lá. Eu dou conta."

    A margem na verdade é uma rua cheia de barricadas que delimita onde termina nosso domínio e onde começa o domínio do exército inimigo. É a área com maior número de soldados e maior incidência de conflitos, o que significa que há sempre muitos feridos.
Observo, de relance, o Comandante Paylor gritando ordens para os soldados, que se espalham e tomam posições. Alguns deles apoiam seus rifles sobre o muro improvisado, prontos para abrir fogo a qualquer sinal de ameaça.

"Temos que nos apressar, o local é perigoso."
    - White, o soldado que me chamou na ala hospitalar, comenta para mim e as outras cinco pessoas que correm com a gente. Passo os olhos pelo local a procura dos feridos; há alguns que se movem com dificuldade, agonizando no chão, e outros completamente imóveis. White carrega um homem aparentemente desacordado e eu corro para o lado esquerdo da margem. Um dos outros corre em minha direção e eu aponto para um ferido que geme, com as costas encostadas no canto da barricada. Ele vai socorrê-lo e eu mudo de direção, me embrenhando entre os escombros.

   Ouço o baque surdo dos meus passos no chão empoeirado. Movo meus olhos por toda a extensão da rua, procurando por feridos, até fixá-los numa casa, do outro lado da rua. Metade da casa está demolida e os entulhos fumegam, mas o que realmente me chama a atenção é a parte da sala que está aberta. Apesar dos móveis queimados, sua aparência é inconfundível; a casa do bebê, onde menti para Edwards, dizendo que não havia mais ninguém vivo lá dentro.
Pulo sobre os grandes pedaços de concreto que se amontoam ao redor da sala destruída. O fogo deixou manchas escuras nas paredes que ainda estão de pé e os corpos dos supostos pais do bebê são apenas cinzas agora. Procuro por vestígios dos sapatinhos brancos que encontrei, mas a única coisa que encontro é um ponto preto que se movimenta atrás da parede, entre os escombros.
Corro até o lugar com o coração acelerado e uma ponta de esperança de que a criança esteja mesmo viva, mas quando afasto as pedras, percebo que é uma perna de adulto. Um gemido baixo e grave escapa, e eu continuo tirando as pedras, pensando em chamar alguém para me ajudar a pegar o soldado ferido.
Então eu olho para seu rosto e o primeiro impulso que tenho é me afastar.
Seu cabelo preto e ondulado é bastante familiar, assim como suas feições e seus olhos. O que não é nada comum são as manchas vermelhas que cobrem toda sua esclera e os calos de sangue que se espalham pelo seu rosto, pescoço e braços.
Minha boca se abre, mas nenhum som sai.
Seus olhos estão fixos em mim, brilhantes pelas lágrimas, pedintes, e eu sei que ela me reconhece tão bem quanto eu a reconheci.
Penso que a próxima coisa que farei é desmaiar, mas ao invés disso, minha garganta encontra a voz novamente e uma única palavra sai da minha boca...

"Melanie."