Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

9 de fev de 2015

Tormenta - Capítulo 39

A rua é um imenso emaranhado de corpos e soldados quando o apagão termina.
Praticamente todas as casas foram invadidas, tiveram seus sensores e TV's destruídos e seus moradores mortos. Eu desvio e salto sobre os corpos daqueles que tentaram fugir.
As braçadeiras dos guardas mortos, a pequena bandeira de Calanma foi cuspida e rasgada pelos homens de Illies; o silêncio soa tão estranho e fora de lugar no meio de toda essa bagunça, e nós cercamos o local, caminhando para cá e para lá, atentos a qualquer sinal de um contra-ataque.
De vez em quando vejo rostos conhecidos, como o de Eric, por exemplo.
    Ele caminha perto do cruzamento com a expressão neutra, enxugando o suor da testa com a manga comprida da camisa por baixo do colete. Seu rifle está apoiado com apenas uma mão e ele me encara, me examinando com o olhar por um tempo, antes de voltar sua atenção para frente. Eu não me aproximo dele porque isso significaria ter que puxar assunto, e esse não é um bom lugar para conversar.
Eu começo a estranhar a quietude.
Já faz mais de sete minutos que o sistema voltou ao normal e nada aconteceu. Nenhum sinal de carros ou soldados, naves ou tanques de guerra, nem sequer um grito de longe. A expressão interrogativa fica cada vez mais nítida no rosto das pessoas a cada instante e eu fixo meu olhar num soldado alguns metros a minha frente...
Então, acontece.



    Mesmo de longe eu possso enxergar suas próprias mãos agarrando sua garganta. Ele abre a boca como se estivesse sendo asfixiado e tenta gritar, mas sua voz é um gemido baixo e esganiçado. Suas pernas começam a tremer e sangue escorre de seu nariz. Eu vejo o pânico em seus olhos escuros, tão comuns entre os ilienses, e tento correr para ele, mas minhas pernas insistem em permanecer onde estão. O soldado desconhecido aperta os olhos, como se sentisse uma dor insuportável, e seus joelhos dobram. Só quando seu corpo desaba, inanimado, é que eu saio do transe.

"Ponham as máscaras!"

Consigo reconhecer a voz de Eric em meio ao caos que sua ordem gera. Todos a minha volta colocam máscaras no rosto, e eu sei que também deveria estar fazendo a mesma coisa, mas ao invés disso estou correndo em direção ao soldado morto. É um ato inconsequente e sem lógica, e minha mente grita para que eu volte e obedeça o comando de Eric. Estou a poucos metros do corpo, sem me importar com o gás venenoso que provavelmente o matou, quando um braço forte enlaça minha cintura, me impedindo de correr.
Eu sei que é ele. Posso sentir sua respiração na minha nuca.
Eric não diz nada e eu me debato incontrolavelmente, tentando me livrar de seu aperto. Eu não sei porque estou fazendo isso, e a única coisa que sinto é uma raiva intensa crescendo dentro de mim, por estar sendo forçada a ignorar mais uma morte. A mão de Eric puxa uma máscara de um compartimento embaixo do colete e põe no meu rosto com certa força; eu continuo me debatendo, sem entender a mim mesma. Devo estar a beira de um colapso quando ele me puxa bruscamente, virando-me para encará-lo.

"O que há de errado com você?!"
    - Ele vocifera. Aquele olhar severo que recebi quando o questionei, na primeira vez que o vi, no último andar do NMC, está lá de volta, mas há algo que não existia antes... um estranho misto de emoções instáveis; raiva e preocupação fazem parte delas.
De alguma forma, sua pergunta me traz de volta a realidade.
Eu pisco várias vezes e ele folga o aperto assim que tem certeza de que não vou fugir. Me desvencilho dos braços dele e vou embora, evitando seu olhar confuso, caminhando a passos largos para o outro lado da avenida, sem dizer uma palavra.
Ele não me questiona, por enquanto.

*
    A tática de Calanma foi muito simples; Nos envenenar, deixar-nos fracos e desorientados para atacar efetivamente em seguida. Eric e Edwards criaram uma nova estratégia de combate quando os primeiros sinais do contra-ataque chegaram. Não trouxeram naves nem tanques de guerra e sim, carros forte com o emblema de Calanma estampado, trazendo uma orda de novos soldados.
Seria inútil atacá-los enquanto permanecem em seus carros blindados, portanto nos escondemos atrás das casas, armando emboscadas. Observo os homens saindo, armados, conferindo os corpos e o estrago que nós causamos. Um deles faz sinal para os outros, que são de uma quantidade considerável, e eles se espalham, com seus rifles apontados, atentos a qualquer sinal de uma tropa iliense.
Posiciono minha arma, empurrando as lembranças do meu recente colapso para fora da minha mente. Eu sei que Eric vai me exigir uma explicação depois que tudo isso acabar, e eu não sei como lhe dar isso, até porque não faço ideia do que aconteceu comigo.
Um soldado se aproxima do beco em que estou escondida, e miro em sua cabeça. Ele parece estar muito atento, mas não o suficiente para evitar o tiro que acaba de matá-lo. Meu disparo desperta vários outros que surgem em seguida, transformando a avenida num verdadeiro palco de guerra.
Começo a correr em direção aos soldados inimigos, baleando os que se aproximam. Tiros surgem em minha direção e eu me agacho atrás de um muro, ouvindo as balas zunirem muito perto de mim. Atiro outras vezes e passo os olhos rapidamente pelo lugar, certificando-me de que Eric ainda esteja vivo. Um tiro quase me atinge e eu me protejo novamente, me esgueirando por becos adjacentes, saindo pela lateral esquerda. Pulo para o próximo corredor e um soldado corre em minha direção, mas eu o atingo antes que ele perceba minha presença. Corro novamente, atirando nos homens que estão próximos a entrada do beco. Uma bomba explode logo quando saio do estreito corredor, fazendo o chão tremer e meus ouvidos doerem com o barulho. A bomba faz um pequeno estrago, entretanto. Dois soldados nossos foram mortos com ela e metade de uma casa foi completamente a baixo. Outros soldados de Illies correm para me dar cobertura enquanto me movo pela avenida principal, e outros tiros são disparados. Um soldado ao meu lado cai com um tiro na perna e grita, enquanto outros vão ao socorro dele. Uma bala me atinge de raspão no braço, rasgando a manga da camisa. Ignoro a dor e salto sobre corpos e entulho. Disparo várias vezes contra os soldados que acabam de sair de uma das casas e outros atiram em minha direção como resposta; Me jogo atrás dos escombros de uma casa demolida e um dos pedaços de concreto magoa minha ferida. Solto um gemido de dor. Quando os tiros cessam momentaneamente, me forço a levantar e correr para mais perto da rua, onde posso ter uma visão melhor do que está acontecendo. A ardência incômoda no meu braço se torna maior e tento focar minha atenção no que interessa agora.
Então o rosto de Furnan surge na minha mente.
Tinha me esquecido completamente dela.
Volto a correr, parcialmente agachada, em direção a pista central. Eu sei que é perigoso e não vai ter nenhum lugar para servir de escudo, mas preciso achá-la. A última vez que a vi, Furnan estava com Eric, como Edwards havia pedido. Desde então, ela sumiu, talvez esteja até morta. Não. Eric daria algum sinal se isso acontecesse.
Como ela mesmo diz, Adeline Furnan não vai morrer tão cedo. Quase sorrio com a lembrança.
   
   Meus olhos se focam num ponto no céu que vai ficando cada vez maior e nítido. Minha recém-adquirida segurança se esvai quando percebo que se trata de uma nave inimiga. Naves traz bombas perigosas e de alto poder de destruição, traz mais mortes, e traz tanques de guerrra também. Pelo visto, Calanma não se importa que mais uma cidade seja destruída.
A nave diminui a velocidade e eu recuo para as ruas adjacentes, até ouvir o primeiro ataque. Duas bombas são lançadas de uma só vez na pista central. Dois imensos buracos são abertos na estrada e vejo um soldado morto cheio de estilhaços de asfalto no rosto. Começo a correr em direção a um dos becos que me levarão a rua onde vi Eric pela última vez, quando meu olhar se fixa em Furnan. Ela está correndo em direção a uma das ruas adjacentes, como o resto de nós. Abro a boca para chamá-la, mas minha voz morre com o que assisto no próximo segundo.
Uma série de gritos são audíveis antes da próxima bomba atingir a casa bem atrás de Adeline.
A casa explode e se despedaça com um imenso estrondo; os soldados são projetados para longe dos estilhaços e a última coisa que vejo são os olhos de Furnan abertos como pratos. Então eu deixo escapar um grito e corro para o outro lado da rua, sem me importar com as tropas inimigas ou naves e suas malditas bombas.
Algum soldado atira várias vezes na minha direção quando me precipito contra a pista central. Eu caio e rolo algumas vezes, me levanto e corro em direção ao local onde Furnan está. Quando finalmente a alcanço, ela não está morta, mas está muito perto disso.

"O que faz aqui, sua louca?"
   - Ela solta assim que me vê. Sua voz está fraca, como se dizer alguma coisa fosse um doloroso esforço. Minha mão agarra a sua e eu observo o sangue que sai em golfadas de sua boca e o corte enorme e profundo na lateral do seu pescoço. Eu não sei o que a atingiu, mas com certeza cortou uma artéria, porque ela perde sangue muito rapidamente. Ela aperta a minha mão, me pedindo para encará-la.
"Volte. Se não voltar, vai morrer."

"Eu não me importo."
    - Solto, piscando compulsivamente para afastar as lágrimas dos meus olhos.

"Se importa sim, louca." - Ela afirma. - "O seu cara ficaria arrasado se perdesse você."

A cada palavra dita, outra golfada de sangue sai de sua boca. Eu sei de quem ela está falando, quem é o "meu cara". Eu sei que ele ficaria arrasado se eu morresse, mas não tenho certeza que é pelas razões que Furnan acredita que sejam. Mesmo assim, prefiro não dizer nada, para evitar que ela diga alguma coisa. Eu não quero morrer. Mas também não quero deixá-la aqui.
Ficamos de mãos dadas por algum tempo, e eu me esqueço que há uma guerra a minha volta. Eu jamais poderia acreditaria que formaria uma amizade no recrutamento, mas então descubro que Furnan é importante para mim. Eu a admiro, mesmo com todos os seus erros.
Uma lágrima escapa dos meus olhos.
Ela franze o cenho, contrariada por me ver chorar e desobedecer sua ordem, mas quando penso que ela vai me dar uma bronca, sua boca deixa escapar um suspiro e a vida vai embora dos seus olhos.
Demoro um tempo para me dar conta.
Então, como uma despedida, eu beijo sua mão inerte e fecho seus olhos, antes de me afastar do corpo.