Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

9 de fev de 2015

Tormenta - Capítulo 38

"Não eram soldados, eram rebeldes."
    - Lembro-me das palavras do Comandante Paylor, nosso novo chefe, enquanto o carro pula e sacode em meio a estrada de difícil acesso que nos leva a Painton, uma cidade vizinha de Ohtagua. Minha preocupação aumenta cada vez que analiso o discurso dele...
"Crianças mimadas e inconsequentes que acreditavam que podiam expulsar um exército inteiro de uma cidade já tomada. Pois bem, daremos uma resposta a altura. Mostraremos não somente a eles, mas a toda Calanma o quão somos fortes. Faremos com que pensem duas vezes antes de nos atacar novamente. Por todos os nossos guerreiros que morreram lutando por Illies, vamos invadir a cidade de Painton ainda hoje!"

    Eu posso ouvir, como se estivesse acontecendo agora, os gritos enfurecidos e desafiadores dos soldados. Os rostos de cada um refletia a sede de sangue e vingança tipicamente patriótica; anos de raiva e repúdio pela nação vizinha que traça uma guerra que derramou o sangue de gerações inteiras.



"A Central vai invadir o sistema do NMC nesta madrugada, deixando-o fora do ar por cerca de 20 minutos." - Um outro soldado, ao lado do jovem comandante, explicava, com uma voz muito mais calma e centrada que a do último... - "É o tempo que teremos para agir. Durante o apagão, os sensores, TVs, câmeras, alarmes e qualquer outro dispositivo controlado pelo orgão sairá do ar, até mesmo o SIMC das pessoas. A ordem é para matar todo mundo. Não importa quem seja, qualquer pessoa que tiver um código gravado no pulso dentro da cidade deve estar morto até o fim do apagão. O plano é tomar Painton nesse intervalo, e quando tudo acabar e as tropas inimigas vierem, não haverá mais solução."

Para os outros soldados, isso tudo não era mais que uma revanche pelo ataque de ontem.
Talvez fosse a mesma coisa para mim se eu não soubesse o que isso significa.
Incitar Calanma a um novo ataque é adiantar a liberação das bombas biológicas.
 
    Olho para Eric algumas vezes, e a minha preocupação se reflete em seus olhos. Fomos separados em grupos de cinco, Eric e Furnan fazem parte do meu grupo, mas estamos todos calados, enquanto nossos carros se movem silenciosamente até a cidade. Dessa vez não destruíremos o local, como fizeram com Ohtagua; a tática quer evitar o uso de bombas o quanto puder, que só serão de fato usadas, caso o governo de Calanma envie naves para nos atacar de volta. Vamos aproveitar que os sensores estarão desligados para invadir as casas e matar os moradores rapidamente. Pegaremos todos de surpresa e não haverá resistência.
As partes mais afastadas do centro de Painton são cheias de casas idênticas, de concreto, pintadas de um cinza sem graça. A placa de cobre do sensor de uma das casas reflete a lua cheia, criando um único ponto de luz na rua escura. Alguns dos carros param nessas ruas e outros seguem em frente, como o meu, e eu me pergunto a que horas vai acontecer o apagão. Está tudo muito silencioso aqui e começo a imaginar o prédio de vidro da Central fervilhando, barulhento com as vozes eufóricas das pessoas que estão prestes a ver um ataque.
    Conforme o carro se move para o miolo da cidade, percebo que praticamente todas as áreas adjacentes ao centro de Painton são residenciais, e as torres, bem presentes em quase todos os setores de New Roman, só começam a ficar visíveis agora. Eric troca um último olhar comigo antes do carro parar.

"Furnan e Ross vão cuidar dos guardas."
   - Sussurra rapidamente o soldado moreno de sobrenome Edwards, nos mantendo no carro por um tempo, mesmo com as portas abertas.
"Eu e os outros vamos invadir as casas."

Todos nós acenamos um sinal afirmativo com a cabeça.
Nossos passos se movem ágeis e silenciosos na noite, e de longe posso ver a braçadeira vermelha de um dos guardas. São poucos e desatentos nessa área da cidade. Em contrapartida, são tantas casas que não sei se vinte minutos são o suficiente para invadir todas.
Enquanto Furnan e Eric se movem para perto dos guardas, eu, Edwards e um outro soldado corremos para a primeira casa; o sensor brilha com uma luz amarela, pronto para ler um novo código, e eu o observo atentamente. Edwards passa os olhos pelo local, certificando-se que todos estejam na posição correta. Outros quatro carros param e descarregam soldados no local, indo embora sutilmente em seguida. Todos correm silenciosamente para suas posições.
Se passam vários minutos cheios de expectativas.
Começo a pensar no que faríamos se a invasão ao sistema falhasse.
Olho uma última vez para o sensor.
Meus olhos se fixam nele por mais tempo do que eu queria, me inundando de lembranças sobre Anshelf House, Tiffany e as palavras de Stuart.
Então, numa fração de segundo, a luz se apaga.

   Edwards dá o sinal e os tiros começam. Ninguém mais se importa com o barulho e o som das botas batendo contra o chão agora enche a noite. O soldado ao meu lado dá um forte chute na porta ao lado do sensor, que se amassa e abre rapidamente. Nós entramos com arma em punho e eu ouço os gritos de uma mulher com roupa de dormir e touca no cabelo. Edwards dispara algumas vezes e ela corre, desviando-se das balas e se trancando no banheiro. Balas atravessam a porta de madeira e apenas um único empurrão consegue abri-la. A mulher força desesperadamente uma janela de vidro para cima, se equilibrando em cima do vaso sanitário fechado, e após um grito agudo, Edwards dispara várias vezes em suas costas. Ela escorrega e cai de forma desengonçada no vaso, com os olhos abertos e opacos. A parede de azulejo branco, assim como sua roupa de dormir, agora exibem manchas enormes de sangue.

"Confiram os quartos!"
    - Edwards grita para nós. Me surpreendo com sua facilidade para matar. Ele acaba de balear uma mulher desarmada e age como se nada tivesse acontecido. Olho para o rosto da moça uma última vez antes de ir para outro cômodo.

O outro morador do apartamento, um jovem aparentemente com a mesma idade da moça morta, conseguiu sair da casa, correu alguns metros, mas foi atingido e morto por outro soldado. O corpo se estende nos fundos da casa, e por um breve momento, sinto uma pontada de compaixão por ele. Me forço a afastar-me do jovem e correr para perto do grupo.
    Edwards já havia matado um casal numa segunda casa quando eu entro. Seus corpos estão estirados no chão da sala decorada de forma simples. Eu estou quase saindo da casa, imaginando que os outros vão fazer o mesmo quando vejo, no canto da sala, empurrado desastradamente para debaixo do sofá, um sapatinho pequeno que parece pertencer a uma criança com menos de três anos. Fico doente só de imaginar que Edwards vai matar um bebê e digo, sem pensar muito:

"Não tem mais ninguém aqui!"

Os olhos dos dois soldados se fixam em mim. Um silêncio terrível se instala.

"Como pode saber?!" - Edwards exige.

"Bom, qualquer pessoa que pudesse estar aqui já teria dado sinais de sua presença, não acha?" - Olho para as portas e completo rapidamente: - "E há apenas um quarto."

"Vou conferi-lo mesmo assim."

"Não temos tempo, soldado Edwards."
    - Rebato.
"O apagão vai acabar daqui a pouco e vamos ter que nos preocupar com as tropas inimigas."

Ele reflete sobre meu último argumento.
Começo a torcer para que o bebê não faça barulho e eles não vejam o sapatinho.
A expressão do soldado ao lado de Edwards se suaviza e ele diz:

"Ela tem razão. Vamos sair daqui."

"E se tiver mais alguém?"

"A casa está vazia, Edwards." - Ele afirma. - "E de qualquer forma, qualquer um que tente fugir vai ser morto lá fora. Vamos."

Só respiro com mais facilidade quando nós saímos da casa.
Os gritos e tiros são ainda mais estridentes aqui fora, mas eu tenho vontade de sorrir.
Não sou a sádica que Clarice Anshelf acha que sou.