Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

9 de fev de 2015

Tormenta - Capítulo 36

Há apenas uma pessoa na academia. Eric.
Ele corre na esteira, aparentemente alheio ao mundo a sua volta, e as gotas de suor escorrem de seu pescoço até sua barriga. Ele está sem camisa, o que significa que, sim, eu vou admirá-lo, até porque ele é realmente bonito.
Existe algum tipo de força oculta dentro dele. Eric não tem muitos músculos, apesar do corpo definido, e não possui traços brutos, agressivos; entretanto, seu olhar gélido e a forma como age denuncia o quanto ele é forte e intimidante sem nem perceber. Eu o vi lutando com um homem que é um palmo maior que ele, com músculos enormes e um gancho poderoso, porém, Eric o venceu por uma única razão: estratégia. Wright lutava como um búfalo, e ele o atacava como uma serpente.

"Não deveria estar dormindo?"
    - Eric pergunta, sem tirar os olhos do painel da esteira. É como se ele tivesse notado minha presença o tempo inteiro sem eu me dar conta. Suspiro.

"E tem como dormir numa situação como essa?" - Respondo, cansada.

Amanhã a primeira tropa será designada para o campo de batalha.
E eu faço parte dela.
Eric sai da esteira e pega uma toalha, enxugando o suor enquanto se aproxima de mim.
Seus olhos seguem os meus, atentos, insistentes.



"A Central nos mandou aqui para a morte."
    - Ele diz, tocando meu queixo, forçando-me a encará-lo.
"Mas isso não significa que vamos, de fato, morrer."

"Mas você tem que concordar comigo quando eu digo que estamos em desvantagem."
     - Afirmo.

"Sempre estivemos em desvantagem."
    - Ele rebate, esboçando um sorriso.
"Nós já passamos por cima da Central uma vez, podemos fazer de novo."

Fico calada.
O fato é que estamos muito mais vulneráveis agora do que em qualquer cidade de Calanma, não importa o quais sejam os seus argumentos. O exército inteiro é movido e comandado pela Central, nenhum soldado de Illies aperta um gatilho sem as ordens dela.
Mesmo com tudo isso, Eric aspira uma confiança que eu não tenho e não sei se conseguirei ter.

"Está pensando em desistir?"
    - Eric pergunta.

"Não."

"Que ótimo."
    - Ele afirma.
"Porque eu, como seu mentor, não aceitaria isso de você. Jamais."

Passamos pouco tempo em silêncio, o suficiente para que eu note a proximidade que estou de Eric.
Eu posso ouvir a sua respiração, sentir o cheiro de metal e desodorante masculino que vem dele; eu só preciso mover minha mão poucos centímetros para tocá-lo.
O modo como a minha respiração acelera me deixa incomodada, porque ainda não suporto o efeito dele sobre mim. Eric é meu mentor, o agente que fazia parte das minhas missões, e a única coisa que temos em comum é o quanto estamos ferrados. Além disso, ele sempre estará muito mais ligado a Melanie Jaswant do que eu gostaria.
A distância entre nós diminui e eu tenho que olhar para cima para encará-lo, já que ele é bem mais alto que eu; quando eu faço isso, meu turbilhão de pensamentos se fundem em apenas um: ele vai me beijar.
E é exatamente isso que ele faz, em seguida.

   Era isso o que eu estava tentando evitar desde o início, mas quando acontece, eu já não consigo me conter. Eu deixo que ele enlace minha cintura, me pressionando contra o corpo dele, enquanto minha mente grita, ordena para que eu pare. Minhas mãos vão para seu cabelo escuro e macio, e eu estou contra a pilastra, numa espécie de armadilha que ele criou caso eu quisesse fugir. Beijar Eric é uma enorme besteira, mas ele beija tão bem que no mesmo instante, eu mando tudo para o raio-que-o-parta e me entrego. Minhas mãos percorrem os músculos de seu braço e peito, enquanto as suas mãos já estão debaixo da minha blusa; ele beija meu pescoço, e sua barba rala arranha a pele fina, me causando arrepios. Então eu abro os olhos e minha sanidade retorna.

"Eric." - Digo. Ele responde com um grunhido rouco. - "Pare."

Ele se afasta, me olhando com estranheza.
Eu desvio o olhar e caminho para longe da pilastra, ajeitando a blusa.

"Eu..."
   - Começo.
"Enfim, eu tenho que ir embora."

"Daphne..." - Eric começa, se aproximando novamente de mim. Eu o paro com a mão.

"Não, Eric, por favor."
   - Peço.

Ele se mantém onde está e eu aproveito o momento.
Caminho com rapidez de volta ao meu dormitório, com medo de que ele me alcance e eu perca o controle novamente.

*
O ar é tão seco que irrita as minhas narinas.
Chegamos no nosso destino ao meio dia, um acampamento militar iliense no leste de Ohtagua. A cidade está completamente tomada por soldados, carros-forte e tanques de guerra, e a poeira dos prédios destruídos pelos bombardeios tornam o ambiente ainda mais árido.
Semicerro os olhos, tentando me proteger do sol.
Nós fomos encaminhados para cá através de naves enviadas diretamente da Central. Nós usamos coletes a prova de balas e outras coisas que tecnicamente protege nossas articulações dos braços e pernas, mas na verdade só colocam mais peso no uniforme. O acampamento é um imenso armazém que um dia esteve ocupado com mantimentos destinados aos moradores da cidade, e hoje está cheio de pequenas tendas onde os soldados repousam, alguns deles exibindo feridas feias e infeccionadas.

"Será que não há um médico por aqui?"
    - Furnan pergunta, olhando com desprezo para o soldado que se contorce de dor ao nosso lado.

"Existem, mas são poucos, e só aparecem em caravanas."
    - Eric responde. Ele parece estar muito bem com o fedor de carne podre, urina e suor que toma conta do local, enquanto eu estou quase vomitando.
"Novos médicos vão aparecer aqui de novo só daqui a uma semana, ou pouco mais que isso."

"Para alguém que nunca passou por isso, você sabe de bastante coisa." - Furnan comenta. Ele encolhe os ombros e não diz nada.

Eric também age como se o beijo não tivesse acontecido, ao que eu agradeço, de certa forma.
Eu fiquei com receio de que ele ficasse chateado pela minha saída repentina; eu não falei com ele desde a noite de ontem e ele não está forçando a barra para manter contato. Na verdade ele parece bem, neutro, como se tudo estivesse normal.
Começo a ficar tonta com o fedor no acampamento e respiro pela boca, olhando com repulsa para a mistura de sangue e pus nas feridas expostas que aparecem na minha frente.

"Redfort, você está verde."
    - Furnan avisa, me cutucando com o indicador. Vômito sobe a minha garganta e eu engulo de volta.

"Eu vou lá fora." - Balbucio num tom de voz quase inaldível antes de me levantar e sair às pressas do armazém.

    A aridez do ar de fora não é, de fato, aconchegante, mas é muito melhor do que o fedor lá dentro. Uma baforada de ar quente bate no meu rosto e eu fico aliviada ao perceber que a náusea está passando, enquanto caminho até as garrafas de água que estão sendo distribuídas pelos soldados. Um deles me estende uma e eu bebo um bom gole, derramo um pouco no rosto e empapo um pano seco com o resto da água que sobrou. Joanna sempre me ensinou que eu deveria umedecer um pano e colocar no nariz quando o ar ficasse muito seco, assim eu evitaria crises de espirro. Inalar aquele pedaço de tecido molhado me enche de lembranças de casa.

"Então sua tropa já chegou, afinal."
    - Uma voz terrivelmente familiar soa atrás de mim. Eu prendo a respiração involuntariamente, virando-me aos poucos para encarar a última pessoa que eu queria ver agora. O tenente que me seguiu no PAV4 da Central e nos corredores em forma de labirinto da base militar agora também me rastreou até aqui. Minhas desconfianças quanto a ele aumentam a cada dia, e eu de repente me lembro da suposta descoberta de Furnan. Sua boca se abre num sorriso, exibindo seus belos dentes brancos...
"Estive procurando por você, soldado Redfort."