Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

9 de fev de 2015

Tormenta - Capítulo 35

Eu acordo logo quando o sol nasce.
Meus pés descalços tocam o chão frio e eu me levanto, lentamente, tomando cuidado para não provocar ruídos na cama. Não há uma ordem explícita que impeçam os soldados de levantar antes do horário de treinamento e mesmo se houvesse, eu estaria fazendo a mesma coisa. Não durmo bem há semanas. E manter meu corpo quieto enquanto uma tempestade toma conta da minha cabeça é demais para mim.
Observo o céu nublado através dos janelões nos corredores; a base é um prédio enorme, cinzento e largo, sem andares, com muitos corredores e salas, o que me dá a impressão de que estou caminhando em um labirinto. O silêncio é aconchegante e eu começo a analisar cada canto desse lugar, só para ocupar a mente.
  A cafeteria é um dos maiores compartimentos de toda a base. Uma sala imensa com um telão no centro da parede ao sul da cozinha. A cozinha, na outra extremidade, de frente para a porta, é delimitada por um balcão de granito preto com uma parede de vidro blindado que se expande até quase o teto. As bandeijas de comida passam por aberturas côncavas entre o balcão e o vidro e, um pouco atrás, portas automáticas dão para outro compartimento, restrito aos cozinheiros. O resto da sala é composto por mesas metálicas e compridas, algumas com capacidade para até dez pessoas. Tudo aqui é escuro e sem graça, como uma base militar deveria ser.
Olho para o telão novamente, agora desligado, e lembro da imagem de Vikram Anshelf estampada ali, um dia atrás.
Saio da cafeteria a passos largos, me embrenhando pelos idênticos corredores.
Estou desesperadamente a procura de uma distração, algo que vá ocupar essas horas livres, enquanto o treinamento não começa. Me recuso a pensar na minha mãe, ou no meu irmão, ou em qualquer pessoa que possa me deixar triste ou incomodada. Não posso me lamentar agora. Não tenho tempo ou disposição para isso.
As portas de vidro fornecem uma claridade melhor ao lugar.
Olho por elas e enxergo a grama baixa, imaginando o vento frio chicoteando meu rosto. Nossos superiores deixaram bem claro que é proíbida a saída de soldados da base sem autorização e as portas estão trancadas. Observo a fechadura, me lembrando de como Benedict me ensinou a destrancá-las com qualquer objeto. Isso seria inadimissível e eu com certeza seria punida. Mas eu precisava tanto de ar puro...



"Se está pensando em arrombar as portas, é melhor nem tentar."
    - Uma voz grave e masculina soa atrás de mim, me causando um susto. Eu me viro na direção da voz, com os olhos arregalados, e um homem negro, alto e fardado me olha com um misto de censura e diversão no rosto. Ele cruza os braços e meu espanto se torna ainda maior quando reconheço seu rosto.
Ele é o mesmo homem que me observava no treinamento de ontem.

"A base está cheia de alarmes." - Ele explica, se aproximando de mim. - "Não acha que iria conseguir fugir tão fácil assim, não é?"

"Não estava tentando fugir." - Respondo, na defensiva. Ele arqueia uma sobrancelha. Suspiro derrotada. - "Eu só quero tomar um ar."

Sua expressão se suaviza.

"Bom, se dependesse de mim eu até deixava."
   - Ele afirma.
"Mas como estou apenas seguindo as regras, sugiro que volte para o quarto, soldado Redfort."

Há algo de muito suspeito em seu olhar, como se ele estivesse armazenando informações sobre mim.
Minha conversa com Adeline surge na minha mente e eu decido não me mostrar tão desconfiada.
Suavizo a expressão e tento relaxar os músculos enquanto digo:

"Qual a sua patente?"

Ele parece surpreso com minha pergunta.

"Tenente." - Ele responde, entretanto. - "Por quê?"

"Nada, é só..."

Um som de bipe me interrompe, para meu alívio.
O tenente olha para o aparelho retangular em sua mão e uma ruga de preocupação se forma em sua testa.

"Eu tenho que ir."
    - Ele diz rapidamente, e antes que eu responda, ele já alguns metros longe de mim, caminhando a passos largos pelo corredor.

*
      Nós passamos praticamente o dia inteiro com o Tenente Silva, no centro de treinamento II; ele fez questão de saber como nos sairíamos com armas de pequeno, médio e grande porte, e eu fiquei feliz em saber que a minha mira é uma das melhores de toda a tropa. Na verdade, só perco para Furnan, que me dá a impressão de que pode atingir o centro do alvo mesmo estando de olhos vendados. Eric pragueja algumas vezes com a escopeta, mas se sai perfeitamente bem na pistola e na submetralhadora.

"Descobri sobre o seu cara."
   - Furnan sussurra para mim, se aproveitando do som dos disparos para despistar a conversa. Eu a encaro com ansiosa expectativa e ela torce a boca em desgosto quando diz:
"Não dá pra falar aqui. Te procuro mais tarde."

"Se não podia contar a história toda, por que começou?"

"Não resisti." - Ela diz, encolhendo os ombros. Eu semicerro os olhos.

"Obrigada por me deixar ansiosa, soldado Furnan." - Comento acidamente.

Ela abre um largo sorriso e responde, com escárnio...

"Por nada, soldado Redfort."

   O treinamento depois do almoço é bem mais pesado do que o primeiro. Nós somos levados até um vasto campo aberto, com uma trilha traçada e equipada. Há um muro de tamanho médio bem na frente do caminho, bonecos de borracha que parecem robôs, fios, cordas, caixas fechadas de madeira e no fim, uma superfície de acrílico, cilíndrica, com um botão vermelho em cima.

"Essa prova se assemelha mais com o que os senhores vão enfrentar no front."
   - O Tenente Silva diz, bem atrás de nós. Seus passos pesados são audíveis e ele caminha lentamente em direção à lateral da trilha.
"A prova consiste em passar por essa série de obstáculos sem ser atingido por qualquer coisa que se precipite contra vocês. Os bonecos simbolizam soldados inimigos, então, muito cuidado com eles. O tempo também será avaliado e eu irei cronometrar o tempo de cada um durante a prova; assim que os senhores apertarem o botão vermelho, no fim da trilha, a contagem será parada."

     Observo cada soldado sendo chamado e realizando a prova. Descubro que os bonecos disparam balas que, apesar de não fazer nenhum mal considerável, causam dor nos atingidos. As caixas são verdadeiras bombas-relógio que podem explodir a qualquer momento. Elas estão espalhadas na trilha e lançam uma série de estilhaços em volta, além da fumaça espessa e o barulho ensurdecedor. O Tenente dá uma pistola a cada um, que é a única coisa que temos para nos defender, e os soldados atiram no máximo de bonecos possíveis, que se posicionam e aparecem em lugares diferentes, conforme a troca de participantes.
Eric consegue terminar a prova em pouquíssimo tempo, gasta poucas balas e derruba todos os bonecos, mas foi atingido pelos estilhaços da caixa-bomba no braço; Adeline pula e se precipita no chão, tentando se afastar de uma caixa que explode. Ela atira na cabeça de um boneco por puro reflexo e algumas pessoas aplaudem quando ela termina a prova.
Então é a minha vez.
Sinto os olhos das pessoas em mim e o tenente me entrega a pistola sem dizer uma palavra. O silêncio é incômodo e meu corpo reage assim que ouço o som do apito.
Passo as pernas pelo muro e acabo caindo sentada, mas consigo atirar no primeiro boneco no lado esquerdo com relativa rapidez. Me levanto e corro, tentando me desviar das caixas, porém elas estão por todo o lado. Dois bonecos surgem de uma vez só e eu disparo várias vezes, atingindo os dois em áreas como abdômen e peito. A caixa perto de mim explode e eu fico desnorteada por um momento com a fumaça e o barulho, mas consigo voltar a correr. Duas outras caixas explodem de uma vez só e eu sinto o chão tremer. Me abaixo impulsivamente e adianto o passo, batento no botão vermelho com mais força do que deveria.

"Muito bem, soldado Redfort."
    - Eric sussurra para mim, e eu consigo enxergar seu sorriso enviesado, de soslaio. Sorrio de volta.

"Até que você não é nada mal..." - Furnan comenta, divertida. Ela também está sorrindo. Então, acrescenta, num sussurro: - "Eu até te chamaria para trabalhar comigo."

   Eu aproveito pouco tempo dessa relativa paz, porque o Comandante Bresler e a Major Alexander entram no campo, em seguida. A major está com um papel nas mãos e o comandante olha fixamente para mim por alguns instantes antes de chamar o Tenente Silva. Eric e Furnan também ficam sérios, assim como o resto das pessoas. Não é algo normal o comandante estar aqui, muito menos com esse comportamento.
Bresler cochica algo com o tenente que assente com a cabeça; o comandante e a major se dirigem para o centro do campo e ele diz...

"Lamento interromper o treinamento dos senhores, mas recebi uma ordem direta do governo de Illies que deve ser comunicada imediatamente."
    - Com o "governo de Illies", ele quis dizer, a Central, porque ela é a grande responsável por tudo isso.
"Como é de rotina, os recrutas são enviados para o front no quarto dia de confinamento, mas por motivos de força maior, metade da tropa será enviada para o front no terceiro dia, ou seja, amanhã. A Major Alexander está com a lista dos que serão encaminhados."

  A tensão se expande por todo o campo, e a cada nome dito pela major, uma onda de múrmurios se instala. Os rostos se contorcem em ansiedade e preocupação, e a mandíbula de Furnan está contorcida em algo além de medo: raiva. A Central fez o trabalho final de adiantar a nossa sentença.
Não demora nada para que ela mesma seja chamada. Adeline não move um músculo com a menção do seu nome.
Outros soldados desconhecidos são chamados.
Eu aguardo pelo meu nome, porque eu sei que ele está aí.
Eric é chamado.
Minha certeza aumenta a cada instante.
Finalmente, descubro que Conner, o soldado que fazia parte da minha tropa, se salva, porque o último nome da lista é o meu.
A presença de Evan é tão palpável que posso vê-la escrevendo a ficha.