Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

26 de dez de 2014

Tormenta - Capítulo 32

O PAV7 é o último andar subterrâneo da Central.
Ele é diferente de todos os outros, com apenas uma plataforma em relevo e uma pista de onde vão parar os carros que nos levarão para a guerra. Eu estou do lado de Adeline, observando o movimento dos soldados que vão para lá e para cá, conversando e checando coisas. Adeline, por sua vez, parece tão habituada a esse espaço que apenas foca seu olhar para frente, com indiferença.

"Você não é a única que foi descartada pela Central."
    - Adeline diz de repente e eu a encaro, surpresa pelo modo despreocupado com que ela fala. Ela me olha de volta, encolhe os ombros e continua...
"Contrabando. Eu vendia armas daqui lá fora. Quando descobriram tentaram me prender, mas eu ameacei contar para todo mundo que a Central também fazia isso, daí me mandaram pra cá."

Fico calada, pensando sobre o que acabei de ouvir.
Mais um crime relacionado a Central.
Por incrível que pareça, não estou nem um pouco surpresa.

"A gente tenta lucrar o quanto pode, né?"
   - Ela continua.
"A Central tem uma verdadeira frota só com arma ilegal. Tanques de guerra, munições, até naves; muita gente perde dinheiro numa guerra, mas tem como ganhar também. É um negócio que rende bem. Eles pagam o triplo por uma arma contrabandeada."

"E não tentaram sumir com você?" - Pergunto.

"Não, não..." - Ela responde. - "Não podem me dar um sumiço. Eu tenho um pessoal. Se fizessem isso, além do escândalo de contrabando vazar, ainda iriam vingar minha morte. Eu vou sobreviver aqui e a Central manterá seu orgulho achando que me deu algum tipo de punição. Depois eu volto a fazer tudo de novo, simples assim."

Analiso, por um segundo, a postura indiferente de Adeline.
Ela está tão segura de seu próprio êxito que me faz pensar que já passou por coisa parecida, não uma, nem duas, mas várias vezes. E ela se safou de todas, então ser mandada para o exército não lhe oferece risco algum. Fico imaginando na fortuna que Furnan deve ter feito com o contrabando; dinheiro suficiente para pagar capangas, fazer alianças, comprar propriedades e ter todo o tipo de influência que uma pessoa como ela precisa para sobreviver no negócio.


Então eu olho para o lado, em direção ao grupo de soldados que passam pelas largas portas do PAV7. Um rosto familiar se destaca entre os demais. Eric.
Sinto uma espécie de alívio ao vê-lo.

"Ele também foi enxotado?" - Adeline pergunta, seguindo o meu olhar. Eu respondo com um sinal afirmativo de cabeça.

   Observo o modo como a camisa de manga curta acentua os bíceps dele enquanto se move em minha direção. Os olhos dele se deslocam por todo o pavilhão e algo parecido com um sorriso surge em seu rosto quando ele me vê. Eric não fala comigo, no entanto. Ele apenas para a poucos metros de mim e foca seu olhar para frente, exatamente como Adeline.
Checo os números em sua braçadeira e uma outra onda de alívio me toma quando descubro que ele também faz parte da minha tropa.
   O ronco dos carros captura a minha atenção. As conversas cessam abruptamente e as pessoas se organizam em filas rapidamente. Duas pessoas se aproximam de mim, uma, a minha frente, e a outra atrás. Mantenho as costas eretas e fixo meu olhar na pista.
Apenas três carros estão no meu campo de visão, mas eu sei que existem mais.
Todos eles possuem o emblema de Illies gravado, em tamanho grande, no grosso ferro da carroceria. A porta lateral de um dos carros se abre e um homem com uma enorme tatuagem no braço e expressão severa caminha até o centro da plataforma. Ele é pequeno, porém assustadoramente forte, e eu observo as veias alteradas em seu pescoço, braços e mãos. Seus passos pesados ecoam por todo o andar. Ele usa as mesmas roupas que nós, exceto pela boina e o colete a prova de balas com três insígnias de ouro que parecem broches, com uma estrela gravada no meio. Suas armas são um pouco maiores, também.

   A porta de outro carro se abre e um homem de aparência mais polida do que ele caminha até a plataforma. Ele usa ombreiras discretas, está desarmado, e seu uniforme - um paletó azul escuro, calças grossas e botas - está impecavelmente passado, com as mesmas insígnias no peito, porém ao invés de três, são cinco. Seu cabelo preto é grisalho perto das têmporas e há algumas rugas no canto de seus olhos; as linhas de sua testa são um pouco marcadas e eu odeio seus olhos cinza, porque apesar de serem muito bonitos, são incrivelmente parecidos com os de Prudence Helvet.
Sua aparência cansada não lhe tira a beleza, pelo contrário, dá um certo charme a ela.

"Bem vindos, recrutas."
    - Ele diz calmamente.
"Eu sou o Comandante Bresler e este é o Tenente Silva, responsável pelo treinamento dos senhores. Os senhores passarão quatro dias na base militar, em Fishley, onde serão avaliados cuidadosamente por mim e outros membros da equipe, até que suas tropas sejam encaminhadas para as determinadas áreas de conflito."

Vasculho minha mente em busca de informações sobre Fishley.
Trata-se de um subdistrito de Sukvinder, nossa capital. Um lugar muito pequeno, onde provavelmente só existam bases militares por lá. Sukvinder é o lugar mais seguro de Illies, altamente monitorado e guarnecido, com todas as medidas de segurança ao seu alcance. Por mais que a Central esteja louca para se livrar de mim e Eric, eles ainda precisam seguir o regulamento.

"Os senhores serão divididos em grupos de 4 pessoas, e assim que seus nomes forem chamados, irão se dirigir imediatamente até o carro correspondente ao número de sua braçadeira."
   - O homem tatuado, que agora descobri que é o Tenente Silva, diz, puxando um rolo atado a uma fita. Ele o abre com rapidez e começa a citar os nomes, que vão fazendo exatamente o que ele manda. Checo os carros. O terceiro é o correspondente ao meu número. Os outros dois carros partem assim que o seu número de integrantes é completado.

"Soldado Conner."
    - É o primeiro nome que ele chama quando os dois carros vão embora. Um homem jovem, da altura de Eric, sai da fila e se dirige até o meu carro. Seus cabelos são pretos, como os do Comandante Bresler, que observa atentamente a situação, e ele tem algo como um orgulho ingênuo nos olhos; com certeza não está aqui pela mesma razão que nós estamos.

"Soldado Ross." - O tenente chama e eu reconheço o sobrenome de Eric. Ele sai de sua fila com um ar confiante e entra no carro.

"Soldado Furnan." - Adeline sai do meu lado com a mesma confiança de Eric, porém, diferente dele, ela sustenta um ar de escárnio e o canto dos lábios curvado para cima.

E por fim, ele chama...

"Soldado Redfort."

Há algo como um leve burburinho quando meu nome é chamado e eu sinto os olhos do comandante em cima de mim. O tenente, por sua vez, lança um olhar severo na direção do som e os murmúrios cessam.
Eu ainda sou a garota que matou Richard Helvet.

   A porta é fechada atrás de mim e eu olho para Eric, sentado no chão da cabine, sem tirar os olhos de mim. Eu sei que ele está tentando parecer o mais confiante possível para me tranquilizar, mas eu não posso deixar de pensar no que vem pela frente, por maior que sejam seus esforços.
No entanto, eu aproveito o embalo e o som do carro saindo da plataforma para espantar o medo.