Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

26 de dez de 2014

Tormenta - Capítulo 30

Eu enxergo, de soslaio, a silhueta de Eric a poucos metros de mim.
Depois da minha conversa com Vikram, deixei que Melanie fizesse o resto do trabalho e vim para o carro; estou tirando lascas da minha unha com os dentes, numa tentativa de me distrair dos pensamentos que surgem na minha cabeça. Eu sei que deveria pensar sobre tudo o que eu ouvi, mas não quero, não agora.

"Então, como se sente?"
   - É a primeira coisa que Eric diz assim que se aproxima de mim. Eu evito seus olhos porque sei que vou encontrar compaixão neles, e se eu não suportar e começar a chorar, vou entrar numa espécie de colapso nervoso que vai durar um bom tempo.

"Não muito bem." - Respondo, por fim. A sensação é de que estou prestes a me quebrar em mil pedacinhos.
Eric faz um movimento afirmativo com a cabeça.
Nós ficamos um bom tempo em silêncio, até que eu decido falar...

"Ainda tô tentando digerir as informações dessa noite."

"Você acha que Vikram é mesmo seu pai?" - Ele pergunta.

"Ele não conheceria a Joanna se não fosse."
    - Digo. Então eu finalmente junto coragem para encarar Eric.
"Foi Joanna que encontrou a mim e a minha mãe morta. Ela me criou como se eu fosse filha dela e nunca quis tocar nesse assunto com ninguém, nem comigo. Como ele poderia saber sobre ela se essa história não fosse verdade?"

"Então quer dizer que você e Tiffany são irmãs..."

"Eu não considero Tiffany como minha irmã."
   - Interrompo.
"Assim como não considero Vikram como meu pai."

Repito para mim mesma que nada mudou, que Joanna continua sendo minha mãe e Benedict continua sendo meu irmão.
Mas a verdade é que eu jamais vou conseguir olhar qualquer Anshelf da mesma forma...

"Vikram me confessou que minha mãe morreu porque soube sobre as armas biológicas."
   - Começo. Eric me observa enquanto meu rosto se contorce pela indignação.
"Minha mãe era uma agente que com certeza deve ter informado aos seus superiores. Isso quer dizer que a Central ignorou o projeto durante todos esses anos, que Illies não fez absolutamente nada para interromper a criação da bactéria..."

"Quanto tempo falta para que a doença chegue até aqui?"
    - Eric pergunta. Eu sei que ele está incomodado por todas essas perguntas, mas é algo que ele não pode conter, um assunto que precisa ser descutido com urgência, independente dos nossos problemas pessoais.

"Pouco mais que duas semanas." - Suspiro. - "Vê a imensidão do problema? Não vamos conseguir conter a praga em tão pouco tempo! Nós não sabemos onde está o antídoto, não sabemos que tipo de bactéria e o que ela faz, só sabemos que é transmitida por baratas e mata em cerca de uma semana."

"Também não vamos ficar parados nos lamentando, não é?"
    - Ele solta. Eu fixo meus olhos nele e ele se aproxima mais, afagando meu rosto com as mãos. Seu olhar segue o meu com intensidade e insistência quando ele diz:
"Nós vamos tentar. Possa ser que não dê certo, mas não vamos desistir, certo?"

Eu fico calada.
Ele continua me encarando, exigente por uma resposta.
Então, por fim, eu solto um longo suspiro e murmuro...

"Certo."

*

Eu observo as gotas d'água que escorrem pela janela do carro.
Nós passamos pela floresta sem imprevistos, e agora Eric guia o veículo pela rodovia principal que vai nos levar até o centro de Pumi. O que eu tenho que fazer então, é voltar para casa e fingir que nada aconteceu. Agradeço internamente por Benedict fazer parte do exército e não poder estar em casa e notar os dias que passei fora.
Eric olha para mim pelo canto do olho, volta e meia, como se estivesse conferindo se eu estava bem e sem nenhuma lágrima no rosto. A minha antiga vontade de chorar passou, dando lugar a uma imensa fadiga que ocupa minha cabeça com planos que incluem um bom banho e muitas horas de sono. Espero não ter pesadelos. Estou rezando para que isso não aconteça.
Eu fecho os olhos e mergulho para o sono, gradativamente, quando Eric chama:

"Daphne." - Ele diz, me cutucando. - "Olhe o retrovisor."

Eu olho, sem entender, por uns instantes, até que a ficha cai.
Somos seguidos por cerca de cinco carros com o símbolo da Central estampado no capô - duas mãos entrelaçadas com as duas torres da bandeira de Illies no fundo. O símbolo, assim como a bandeira, possui tons de cinza e azul escuro. Tateio minha cintura e quando meus dedos se fecham em volta da pistola, Eric me detém.

"Não." - Murmura. - "Se reagirmos, vamos dar mais razão a eles."

Minha mente divaga com suposições que envolvem Melanie capturada e sendo torturada até contar todo o nosso plano. Tento controlar o tremor que ameaça tomar conta do meu corpo e respirar fundo. Apesar de parecer absolutamente tranquilo, os olhos de Eric denunciam todo o seu nervosismo, movendo-se agitadamente do retrovisor à estrada. Ele guia o carro, faz uma curva e entra numa rua menor e menos movimentada. Os carros nos acompanha e ele estaciona.
Dirijo um olhar interrogativo que é respondido com outro olhar que diz "eu sei o que estou fazendo!".
Fico tensa enquanto ele abaixa o vidro do carro, esperando pacientemente pelo soldado que chega até nós...

"Boa noite." - Eric murmura assim que vê, parcialmente, o rosto do soldado. A capa plástica que o protege da chuva esconde seu uniforme, mas deixa transparecer o escudo de Illies e as armas que carrega no coldre.

"Sai do carro." - O soldado responde, ríspido. Seu olhar se desloca para mim. - "Ela também."

E nós saímos.
A chuva está forte e venta muito; há vários soldados fora dos carros, com armas em punho e capas pretas molhadas. Aparentemente, todos são homens, porém, quando o último carro é aberto, um pé feminino de scarpin se sobressai. Ela caminha e se aproxima de nós, vestida formalmente e levando um guarda chuva sobre sua cabeça...
Me surpreendo em não ter pensado nisso antes.
Ela sorri para nós e eu tenho a clara certeza de que essa mulher é Evan Muller.

"Olá meninos."
   - Ela diz, sorridente, como se nada estivesse acontecendo e essa fosse apenas uma conversa casual.
"Perdão pelo modo como foram abordados, é que o assunto é importante e precisa ser tratado com urgência."

Eu ainda desconfio dela.
Começo a tremer, mas não de medo e sim de frio, já que as nossas roupas estão encharcadas pela chuva, mas ela finge não notar nossa situação.

"A Central costuma se comunicar com cartas sobre determinados assuntos, porque... bem, faz parte do processo." - Ela continua, nos entregando dois envelopes lacrados com o emblema da Central. - "É claro que alguns desses assuntos são confidenciais, então, decidi entregar essas cartas pessoalmente, por precaução."

Eu a encaro, cética.
Ela sorri novamente e murmura um "boa viagem", antes que mandar seus homens de volta para o carro e ir embora. Não, isso não foi procedimento de rotina e Evan não está preocupada com a seriedade dessa carta; entregá-la pessoalmente a nós foi uma decisão pessoal.
Fico pensando que ela já sabe, ou ao menos desconfia das nossas visitas a Tiffany, e portanto, está nos intimidando, exatamente como Prudence Helvet fez com Clarice Anshelf.
Dentro do carro, olho para Eric, que lê a carta com o cenho franzido e a expressão mais tensa que eu já vi. Seus músculos do braço estão estendidos e ele fecha a mão em punho com força, sobressaltando suas veias.
Eu decido abrir a carta de uma vez; meus dedos manuseiam o lacre agitadamente.
Meus olhos passam rapidamente pelas letras impressas com tinta preta, até finalmente se fixarem numa única e explicativa frase...
Não, não é como foi com Clarice.
O que Evan acaba de fazer conosco, Prudence jamais poderia fazer com um Anshelf.
As palavras "recrutada" e "exército" saltam para mim e eu leio o parágrafo inteiro, apenas para ter certeza de que estou certa.
É claro, isso só poderia significar uma coisa...
Eu vou para a guerra.