Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

7 de dez de 2014

Tormenta - Capítulo 29

Eu fico imóvel, como se não sentisse meu próprio corpo.
Meu sangue parece ter virado água e eu sinto os olhos de Melanie e Eric, interrogativos, em cima de mim, enquanto minha mente grita, negando a veracidade da informação.
Eu sei que Vikram está sorrindo, mesmo estando de costas para ele.
Minhas mãos estão no capô do carro, e eu pressiono meus dedos com tanta força na superfície que as pontas perdem a cor. Eu quase posso ver seu rosto iluminado pela satisfação, assistindo ao turbilhão de sentimentos que tomam conta de mim.
Então, aos poucos, qualquer outro sentimento dentro de mim é sugado até não significar nada, até só me restar uma coisa: raiva.
Eu o golpeio na mandíbula com o primeiro objeto que aparece na minha frente.

"É mentira!"
    - Grito, histérica.
"Você é um porco mentiroso! Eu nunca seria sua filha! Eu tenho nojo de você!"

Sinto os braços de Eric me rodeando, puxando-me para longe de Vikram enquanto vocifero ofensas a ele. Eric sussurra palavras calmas para mim, palavras essas que não sei distinguir, tamanha a minha raiva.
Vikram responde, tão inabalável quanto antes...

"Eu adoraria que tudo isso fosse mesmo mentira, não tenho o mínimo interesse em..."

O som do disparo, acompanhado de um grito esganiçado, interrompe sua fala.
A bala veio da pistola de Melanie, com destino ao pé de Vikram. Ele se contorce de dor e seu rosto fica rubro.

"Já chega."
   - Melanie diz. Sua voz perdeu todo o cinismo de antes e ela assume um tom de voz ameaçador.
"Agora que já provocou uma cena, acho que podemos ir ao que interessa, não é?!"

Ele ofega, ainda se recuperando da dor lascinante causada pelo tiro.

"Você, Vikram, vai me dizer agora mesmo tudo o que sabe sobre as armas biológicas."
     - Melanie sibila.

"Pergunta pra Joanna!"
    - Ele solta para mim. A menção do nome da minha mãe adotiva faz com que a recém adquirida certeza de que aquele era um blefe vá embora, deixando no lugar a dúvida. Vikram continua falando rapidamente, como se aquela fosse sua última chance:
"Pergunta pra ela se isso tudo não é verdade, se eu sou ou não sou seu pai, vai..."

Outro tiro. Outro grito.
A bala abriu uma ferida feia e sangrenta em sua coxa direita.

"Eu te fiz uma pergunta."
    - Melanie diz.



Os olhos de Vikram voam para mim e depois para Eric, que tenta me acalmar.

"Nunca pensei que Bordoni fosse demonstrar afeto por alguém..."
    - Vikram afirma. Seu tom cínico volta se formar.
"Mas pelo visto, eu estava errado."

O som do tiro não vem, mas o grito sim.
Melanie mantém uma faca suja em sua mão esquerda, e quando ela se afasta para o lado, vejo um corte profundo que atravessa a bochecha de Vikram e para em seu lábio superior. Sangue escorre pelo seu pescoço.

"Não vou gastar minhas balas com você, mas posso fazer algo muito pior que isso."
     - Melanie sibila, agachando-se o suficiente para poder olhá-lo nos olhos.

"Você perguntou à pessoa errada."
    - Ele afirma, encarando-a de volta.

"Garanto que não."
    - Ela responde.
"Uma de suas amantes, Emma Mitchel, é uma das cientistas do projeto e ela com certeza deve ter contado algumas coisinhas a você."

"Você não sabe o quanto Emma é fechada..."

Melanie crava a faca na coxa de Vikram. Seu grito se torna ainda mais agudo, e ela empurra a lâmina, mexendo-a de um lado para o outro, estraçalhando ainda mais a ferida.

"Tá bom!"
    - Ele grita. Melanie tira a faca. Ele ofega e diz:
"Eu vou contar, mas não a você."

"O quê?!"

"Vou contar a Daphne."
    - Ele diz, antes que ela o golpeie novamente.
"Pode me torturar o quanto quiser, não vou soltar uma palavra se não puder falar com Daphne."

"Mas é um..."
    - Melanie começa, indignada.

"Melanie."
    - Digo. Fico aliviada em minha voz ter saído firme o suficiente para ela me dar ouvidos.
"Deixa. Eu falo com ele."

"Daphne..."
   - Eric começa.

"Não. Eu vou conversar com ele."
    - Afirmo.
"Temos algumas coisas para resolver, de qualquer forma."

Eric e Melanie se entreolham.

"Saiam."
    - Ordeno. Meus olhos agora estão em Vikram.

"A gente vai estar aqui por perto."
    - Eric avisa.

Espero o som de seus passos se esvair para me aproximar de Vikram.
Talvez seja verdade, eu tenho quase certeza de que é.
Só a suposição de Vikram Anshelf ser meu pai legítimo me dá nauseas, mas eu me foco no que realmente importa.
Arrasto um caixote de madeira e me sento, de frente para ele.

"Eu sei que você não se importa com Tiffany, muito menos comigo, mas também sei que você gosta de sua esposa, apesar de tudo."
   - Começo. Essa é a primeira vez que o vejo sério.
"Eu tenho informações que você quer e você tem informações que eu quero, então eu acho que um acordo seria bom, para ambas as partes."

Ele permanece sério, considerando minhas palavras.
Então eu solto uma pergunta que nunca pensei a fazer a ninguém, muito menos a Vikram Anshelf...

"A minha mãe já sabia sobre as armas biológicas?"

"Sim."
   - Ele responde.
"O projeto ainda estava em fase inicial quando ela descobriu."

"Foi por isso que ela morreu, não foi?"

"Foi." - Ele concorda. Suas palavras são como murros ao meu estômago, mas eu ignoro o aperto. Eu mereço saber disso. Foi para isso que eu me meti nessa confusão toda. - "Doris era inteligente, como você. O erro dela foi ter confiado em pessoas erradas."

"Como você."
   - Acuso.

"Como eu."
   - Concorda. Então ele solta um riso nervoso, que vai embora tão repentinamente quanto veio, e conta:
"Parece que está tudo se repetindo na minha frente, anos depois da morte dela. O governo preocupado com o vazamento de informações com relação ao projeto, agentes de Illies infiltrados... Enfim, o fantasma de Doris Orsati parece não ir embora nunca."

Orsati.
Passei a vida inteira carregando o Redfort, quando meu sobrenome verdadeiro era escondido a sete chaves. Orsati não é apenas um palavra, é um nome que carrega uma história inteira com ele.

"Creio que o projeto está em fase final agora."
    - Digo, empurrando a minha mãe para fora dos meus pensamentos.

"Sim. Aqueles recipientes que você viu em Helvet House já tinham a bactéria implantada em seus hospedeiros intermediários. Se você abrisse aquilo, seria infectada imediatamente."
 
"E quem são esses hospedeiros?"

"Estou pensando em não soltar essa informação, só para frustrá-la."
     - Ele diz.

"Estou pensando em gravar um vídeo espancando sua filha até a morte e mandá-lo para a Clarice, só para que ela se suicide."
    - Rebato.

"Baratas."
   - Ele afirma. Demoro um tempinho para perceber que ele voltou ao assunto original.
"Sútil e fácil contágio. Ninguém imagina que uma baratinha vai te matar em uma semana."

"Quanto tempo até que cheguem até aqui?"

"Um pouco mais que uma semana. E mais outras duas para metade da população ser dizimada. "

Um calafrio percorre minha espinha.
A ideia de uma quantidade enorme de pessoas definhando com essa bactéria, pessoas essas em que minha mãe e meu irmão adotivos podem estar incluídos, me enche de horror.

"Há um antídoto, não há?"

"Claro." - Ele diz. - "Ninguém seria idiota de criar um monstro sem saber como destruí-lo depois."

"E onde está?"

"Eu não sei."
   - Vikram alega. Eu levanto uma sobrancelha, com ceticismo.
"Estou falando a verdade. Depois de todos esses ataques, o antídoto virou segredo de Estado. Acho que ninguém que não tenha Helvet no nome sabe disso."

"Emma Mitchel talvez saiba."

"Emma não participou dessa etapa."
    - Ele afirma.
"Somente três cientistas foram responsáveis pela criação do antídoto, e todos eles foram assassinados quando o remédio ficou pronto."

"E há alguém que saiba?"

"Eu só tenho certeza de uma pessoa que com certeza sabia. Richard Helvet, que vocês fizeram o favor de matar. Não sei mais quem pode saber disso."

 Um silêncio incômodo se instala, enquanto considero as informações que acabei de receber.
 Vikram então solta um riso rouco e seu lábio superior volta a sangrar quando a pele se estica.

"Calanma vai me condenar por traição depois de tudo o que contei..." - Ele fala.

"Não tem porque se preocupar."
    - Respondo, me levantando do caixote. A visão de Vikram Anshelf é repulsiva o bastante para que todos os meus sentidos implorem por distância. Eu me afasto, exausta com tudo isso, lhe lançando uma última frase com desprezo, evitando seu olhar, porque tenho a impressão de que olhar novamente para ele vai me causar um acesso de vômito...
"Illies já vai se encarregar da sua sentença."