Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

7 de dez de 2014

Tormenta - Capítulo 26

Tori Rounden é uma das poucas bases em Calanma que restaram.
Ela não estava lá no dia do atentado, apesar de ter contribuído com a missão, e eu a observo através do imenso telão na sala de controle. O fato de Tori ser uma agente de Painton, o mesmo lugar de onde veio George Towen, me faz lembrar a fisionomia abatida de Melanie, de frente para o hospital.
    Pela conversa entre ela e sua monitora, Veronica Greenaway, chefe do setor, percebo que ela foi transferida para West Blues, já que Painton está tão perto de Ohtagua que acham que o agente de lá pode dar conta. As tropas de Illies estão avançando, afinal. Eu nunca consegui me referir ao exército como 'nosso' exército, mesmo sabendo que eles estão lutando por nós, ou pelo menos, na teoria. Imagino Benedict e sua tropa móvel. Eles não estão de fato no centro da guerra, são só auxiliares, indo e voltando, correndo para os lugares onde precisam de reforço. Ben está lutando por nós, e acreditando que a Central também faz isso.

"Conheço um cara muito próximo a família Anshelf."
    - Tori diz animada; seu rosto assimétrico forma rugas nos cantos de baixo das suas bochechas quando ela sorri. Ela é muito magra e sua pele negra é tão bem cuidada que descubro que ela é uma pessoa vaidosa. Fico me perguntando se sou também. Talvez não. Não tenho tempo para pensar em cremes ou tratamentos de beleza. Não sei como ela consegue, sendo uma agente e tudo.
"Para minha felicidade, ele não é muito fechado e gosta de falar. Disse que a relação Helvet/Anshelf se estabilizou, apesar do clima não estar nada bom entre Vikram e Prudence. Jaime foi nomeado presidente ontem, como você já deve saber, e a sua irmã não pareceu estar nada feliz com isso."

"Mas não foi ela que fez questão de acelerar a nomeação dele?"

"Claro, para manter a família no poder." - Tori afirma. - "Se ela decidisse tomar a presidência, passando por cima do irmão que está a frente dela na linhagem, poderia tornar a situação de insegurança ainda pior. Ah, Eric estava certo sobre Anthony Saint. Hoje de manhã foi noticiado que o primeiro cônser morreu. A imprensa diz que foi uma bomba nossa que o matou, quando ele estava indo para Ohtagua fazer sei lá o que."

"Já sabe quem vai substituí-lo?"

"Ainda não. Jaime está irredutível quanto às exigências de Prudence. Primeiro, ele a manteu fora dos assuntos que ele foi tratar em Andalus, e agora rejeita todas as sugestões da irmã para novo primeiro cônser. A desavença entre os dois é velha; parece que Jaime é a ovelha negra da família Helvet, sempre desprezando e sendo desprezado pelos outros irmãos. Prudence, manipuladora do jeito que é, deve estar se mordendo de raiva por ser obrigada a acatar as ordens do irmão."

"Há alguma notícia de Vikram Anshelf?"
    - Pergunto, e me arrependo no mesmo instante. Veronica olha para mim com a sobrancelha arqueada e Tori se cala por um momento. O silêncio dura tanto tempo que começo a imaginar que ela não vai responder minha pergunta...

"Bom..."
   - Tori começa, para minha surpresa.
"O que eu sei é que Vikram quase nunca está em Anshelf House, ocupado demais com seus négocios confidenciais. Ele anda fazendo muitas viagens ultimamente, mas é um pouco difícil saber o que ele faz exatamente, ele é tão reservado..."

"Foi bom ter perguntado isso, Daphne." - Veronica diz em seguida. - "Precisa dar um pouco mais de atenção a Vikram, Tori. Lembre-se de que ele está diretamente ligado aos movimentos do exército inimigo. Precisamos estar preparados para um possível ataque."

Um possível ataque biológico, penso.
Tori concorda com a cabeça, como se estivesse anotando um novo lembrete em sua mente. Seus olhos, porém, dizem a resposta que eu quero saber...
Eric já falou com ela.
E Vikram Anshelf se tornou a prioridade de Tori muito antes do aviso de sua mentora.

*

Eric está encostado numa lustrosa moto preta, displicentemente, em frente ao prédio de vidro da Central. O canto da sua boca se contorce num meio sorriso e eu arqueio a sobrancelha ao me dar conta de que ele estava aqui me esperando, e não a Melanie.
Até hoje não sei qual a real relação entre os dois. A história de amizade de infância e união entre os agentes simplesmente não me desce pela garganta quando se trata de Eric e Melanie. Há algo além disso. Tenho certeza.

"O que faz aqui?"
   - Pergunto logo ao me aproximar dele. O Eric rígido e carrancudo de dias atrás desaparece e eu ouço a conhecida nota de diversão em sua voz quando ele murmura...

"Tenho uma coisa para te mostrar."

   A curiosidade quase desesperada toma conta de mim enquanto Eric guia a moto pela estrada. Seja lá qual for o local para onde ele está me levando, com certeza é muito longe daqui, já que mesmo sem nenhum congestionamento, eu tenho a sensação de estar uma eternidade inteira nessa viagem. Conforme nos afastamos do centro, os prédios somem gradativamente e as casas surgem, até chegar em espaços onde as construções são escassas. As ruas são calmas e silenciosas, e eu fico pensando como tudo pode aparentar estar tão bem, quando, em cidades muito próximas a essa, uma guerra eclode.
Aos poucos, o aslfalto vai dando lugar ao barro, que por sua vez, dá lugar a areia.
E quando olho para o lado esquerdo, o mar se estende à minha frente.
Eric estaciona a moto e me estende a mão, arrastando-me para a praia.

"Essa aqui é a península."
    - Ele diz, observando o mar, então encolhe os ombros e completa:
"Eu sei que existem várias outras penínsulas, mas não sei o nome dessa, então..."

"Eu nunca tinha visto esse lugar." - Eu murmuro, mais como um sussurro para mim mesma. - "Eu nem sabia que ele existia."

"Eu também não, há alguns dias atrás." - Ele afirma. - "Graças ao mapa de Melanie que achei isso."

O mapa confidencial de Melanie.
Essa frase me deixa tonta porque me faz lembrar da Central e de tudo o que ela escondeu e está escondendo de todos nós. A Central me lembra essa guerra e a última coisa que eu quero pensar é sobre ela agora. Ao mesmo tempo que tento empurrar esses pensamentos para fora da minha mente, me surge um novo...

"O que será que existe do outro lado?"
    - A frase escapa de mim. Eric fica calado por um instante, refletindo minha pergunta, se perguntando a mesma coisa, até que ele solta, por fim...

"Eu espero um dia poder responder isso."

E nós nos calamos.
Eric se senta na areia e eu me sento ao seu lado, ambos observando o movimento das ondas.
Aqui é completamente deserto e silencioso e por um breve momento eu esqueço de Illies e Calanma, e me imagino viajando o mundo, sem me preocupar com guerras ou epidemias, ou salvar alguém como Tiffany Anshelf....
Então, o fantasma de Melanie Jaswant volta e eu solto a pergunta, incapaz de contê-la, mesmo sabendo que vai estragar tudo...

"Por que Melanie não fez a minha missão?"
 
Eric me encara.
Não há dureza em seu olhar, apenas desconforto.

"Quer mesmo saber?" - Ele pergunta.

"Quero." - Respondo prontamente. Ele suspira.

"Bom, Melanie e eu namoramos por algum tempo." - Ele começa. A frase me atinge mais do que eu gostaria, mas permaneço calada e deixo que ele explique: - "Ela nem sempre foi uma agente de West Blues. Na verdade, ela era de New Roman, como eu. Nós éramos muito jovens e muito próximos, enfim... eu sempre a admirei, e admiro até hoje, só que eu confundi as coisas. Então, quando me dei conta disso, nós terminamos."

"E então..." - Solto, estimulando-o a falar.

"Ela ficou abalada com o término e pediu para Evan transferí-la para outra cidade porque não aguentava ter que trabalhar comigo." - Ele diz. - "A Evan sempre quis que ela fizesse a sua missão, então quando a Melanie se negou, ela ficou muito chateada, principalmente comigo porque eu era a causa disso tudo. Daí Melanie foi transferida para West Blues e você surgiu."

Eric fala como se tudo fosse no passado, como se ambos tivessem superado essa história toda.
Porém, a forma áspera como Melanie me trata, o modo como me avalia e estuda só me diz uma coisa: Ela ainda não superou.
Ela ainda ama o Eric.

"Eu também tenho uma pergunta."
   - Eric diz, e eu volto a ver o humor em sua vez por um segundo, até que ele se ajeita, olha para mim e pergunta, sério:
"Por que entrou nisso tudo?"

Eu paro por um segundo, tentando elencar todos os motivos que me levaram a fazer isso, quando, na verdade, nenhum deles faz sentido.
Então eu decido abrir o jogo e dizer o que me move não só para a guerra, mas também para o jornalismo e para o resto das coisas e objetivos que tracei na vida...

"Meus pais."
   - Solto.
"Eu sabia que a minha mãe esteve em Calanma, e eu achava que lá eu poderia estar mais próxima a sua realidade, e talvez pudesse descobrir algo sobre ela. No dia em que fui chamada por Evan, ela me disse que a Central sabia quem era os meus pais e onde eles estavam e que poderia me contar sobre isso, só que no momento eu não achava que esse era o motivo que tinha me levado até aqui. Mas era. Esse era exatamente o motivo que me moveu a tudo isso."

Eu vejo a compreensão estampada em seu rosto e me sinto mais aliviada por não parecer tão confusa assim. Uma série de coisas tinham passado pela minha cabeça quando aceitei a proposta de Evan; patriotismo. Vingança. Descobertas. Justiça. Família. Paz. Guerra. Ódio. Amor... E então Eric não está me olhando como se eu fosse esse ser instável que eu penso que sou, ele me olha como se meus atos fossem compreensíveis, como se, de alguma forma, eu me parecesse com ele...

"E você acha que a Central vai lhe dizer algo sobre os seus pais agora?" - Eric pergunta, finalmente.

"Não." - Admito. - "Também não acho que eu queira saber disso. Pelo menos, não agora."

"Mas é a sua mãe..."

"Minha mãe está morta."
    - Afirmo, ignorando a pontada de dor que essa frase causa.
"Saber o que aconteceu não vai trazê-la de volta. São os vivos que precisam de nós."

Então Eric concorda com a cabeça e uma nova força começa a surgir dentro de mim, como se finalmente, minha estadia por aqui fizesse algum sentido. Eu estou aqui por nós. Pelos inocentes. Por Illies e por Calanma.
Eu estou aqui pela paz.
E quando Eric me leva de volta para a moto, horas depois, carrego uma certeza inexplicável e reconfortante de que minha mãe, um dia, também esteve lutando por isso.