Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

26 de nov de 2014

Tormenta - Capítulo 24

Checo seu pulso. Ela está viva.
Fico presa a uma espécie de transe, olhando fixamente para seu rosto enquanto penso no que fazer agora.

"Daphne?"
    - Eric chama.
"Tudo bem aí embaixo? Devo descer?"

"Deve."
   - Respondo tão baixo que posso ter certeza de que ele não ouviu. É mais como um murmúrio para mim mesma.

Me forço a levantar e ir até a escada.
Ele está me olhando com a mesma expressão preocupada...

"Eu vou subir e você desce." - Digo. Me surpreendo com a firmeza na minha voz. Pelo seu gesto, percebo que ele está pensando o mesmo que eu. Ele sabe que Tiffany está aqui embaixo, e viva, o problema agora é tirá-la daqui.

Espero apreensiva, com a arma em punho e o olho na porta do quarto, porém, minha atenção está completamente voltada para o porão.
Eric sobe as escadas com Tiffany no colo; a cabeça dela pende para trás e ele toma cuidado para que não bata na entrada do porão. Ele a pousa na cama e começa a examinar as feridas e hematomas espalhados pelo seu corpo.

"Lhe deram algum tipo de sonífero."
     - Eric afirma, apontando as picadas de agulha.
"Deve estar no banheiro. Só pode ser isso. A respiração dela está regular e ela não acordou até agora..."

Faço um movimento afirmativo com a cabeça.
Conferir o banheiro é só um pretexto meu para sair do quarto. O fato é que eu alimentava uma esperança inconsciente de que Eric estivesse errado. Eu sei que isso poderia ser péssimo para ele, principalmente se a Central descobrisse, mas seria melhor para o resto de nós, inclusive para Tiffany. Se Eric estivesse errado eu não teria que desconfiar de Evan, ou do meu próprio país. Tiffany estaria bem e a salvo. Eu voltaria para casa e essa história se encerraria de uma vez por todas.
O problema é que Eric está certo.
Esta é a casa que Evan mantém com autorização da Central, que com certeza, deve fornecer tudo para que a residência continue intacta e secreta. Tiffany não está sendo protegida. E eu acabei de me tornar uma inimiga da instituição que rege minha vida.
É como se eu estivesse em Calanma de novo, caminhando sob um campo minado, correndo o risco de ser descoberta e morta a qualquer momento.


Não é muito difícil encontrar os soníferos que foram enjetados em Tiffany.
Acho os pequenos frascos de vidro cheios de um líquido transparente no armário do banheiro. É claro que Evan não se importaria em escondê-los, já que, tecnicamente, ninguém sabe da existência desse lugar.
O que me surpreende não são os soníferos e sim, um outro estoque de frascos num compartimento um pouco abaixo. Vejo que o líquido é diferente pela cor, que agora é de um azul claríssimo. O rótulo também é diferente. Pego dois frascos, um de cada tipo, e fecho o armário.

Quando volto para o quarto, Eric está com uma seringa embalada, de frente para o criado-mudo. Ele me chama com um movimento na cabeça e eu vejo, dentro de uma gaveta aberta, várias outras embalagens com seringas, agulhas e luvas. Estendo o frasco com o líquido azul para ele.

"Achei no banheiro, junto com o sonífero."
    - Digo. Ele vira o minúsculo vidro para os lados, imerso nas letras impressas no rótulo.
"Não sei o que isso é, mas com certeza faz parte das drogas que Evan dá pra ela."

"Neurotransmissores."
    - Ele diz.
"Isso aqui é acetilcolina pura. Contrai os músculos e aumenta os batimentos do coração."

Eric olha para Tiffany e depois para mim. Eu permaneço calada...

"Evan dá o sonífero a Tiffany quando está fora e usa isso para acordá-la depois. Ela deve acordar tão agitada com essas doses que chega a ser uma forma de tortura."

Observo apreensiva enquanto Eric coloca as luvas e arranca a embalagem, preparando a seringa com o neurotransmissor.

"Eric, tem certeza?" - Pergunto.

"Precisamos de Tiffany acordada e o sonífero é tão forte que ela não acordaria nem se a casa desabasse."
   - Ele responde, agarra meu braço e me puxa:
"Escute. Você vai sentar ali, na cama, preparada para tapar a boca dela quando eu aplicar a injeção. É bem capaz que ela grite."

Assinto com a cabeça e corro para a cama.
Eric segura o braço de Tiffany com uma das mãos, e com a outra, enjeta a agulha, pressionando o embolo com o líquido azulado que flui por suas veias. Não demora nada para que Tiffany desperte, sobressaltada.
Eu seguro fortemente sua cabeça com as mãos enquanto Eric pressiona seus braços contra o colchão. Minha mão vai para sua boca quando ela acorda, seus olhos tão arregalados que parecem estar saindo das órbitas. Ela se debate várias vezes e eu sussurro que está tudo bem, que ninguém vai lhe fazer mal. Então Tiffany se acalma, gradativamente, e eu retiro minha mão da sua boca quando tenho certeza de que ela não vai gritar. Mesmo assim, ela continua nos encarando, assustada.

"Tiffany, sou eu..."
   - Murmuro. Ela olha para mim, para Eric e depois para mim de novo.
"Lembra? Sou eu, tá tudo bem.."

"Terri?"
    - Tiffany pergunta com a voz trêmula. Eu tinha esquecido que Daphne ainda é um nome estranho para ela...
"Ai meu Deus, Terri! Você... você.. precisa me tirar daqui, eu..."

"Calma, calma.."
   - Digo.
"Uma coisa de cada vez. Me diga quem te trouxe aqui."

"Aquela mulher... aquela... aquela que estava com a gente, você lembra? Lembra? Ela é horrivel, ela me bate e fala um monte de coisas sobre os meus pais e diz que os meus pais faz armas e que o meu pai faz... sei lá... armas biológicas... eu não sei de nada, já disse, você sabe que eu não sei, mas ela não acredita, ela..."

"Espera."
   - Digo. Tiffany se cala, apreensiva. Eu e Eric nos entreolhamos. Ela ofega e ainda está muito agitada com a dose do neurotransmissor, mas o que realmente me interessa agora são suas palavras...
"Como assim, armas biológicas?"

"Ela fala disso o tempo todo, diz que o meu pai tá envolvido nisso, toda vez que eu digo que não sei de nada e que o papai não seria capaz de fazer isso ela..."
    - Sua voz fica some e ela começa a chorar. Eu não sei muito bem como reagir a isso, e apesar de saber que não é culpa dela, fico irritada; eu não quero as lágrimas de Tiffany Anshelf, quero as informações dela.

Eric se mostra um pouco mais flexível e passa seus braços ao redor dela, aninhando-a em seu peito enquanto ela soluça.
As imagens do compartimento em Helvet House voltam a minha mente e eu começo a juntar as peças. De início, acreditei que o material que estava naqueles potes metálicos era algo químico. Os potes vinham com um aviso que dizia que o contéudo era extremamente perigoso. Richard Helvet estava lá, e sabia de tudo. Os Anshelf são os principais fornecedores de armas de todos os tipos para a guerra. Rifles, pistolas, submetralhadoras, metralhadoras, bombas, tanques de guerra e todo tipo de munição é fabricado pelos Anshelf. É claro que Vikram Anshelf estaria envolvido em algo relacionado a isso. Principalmente se o projeto em questão era a criação de armas biológicas...
Olho para Eric e vejo em seus olhos que ele também juntou as peças...
Uma epidemia de uma doença completamente desconhecida, de fácil contágio e sem cura seria pior, muito pior do que o pior dos bombardeios.
Illies corre um risco muito maior do que imaginam.