Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

6 de nov de 2014

Tormenta - Capítulo 21

A sombra de Melanie surge entre as árvores, movendo-se tranquilamente em nossa direção.
A fraca luz proveniente das torres que se erguem ao longo da avenida Clain faz um cortorno do corpo dela na penumbra. Clain é uma avenida no lado norte, mais próxima a Dustfire, onde a vegetação cresce livremente, apesar de apática, e as únicas contruções vísiveis são as torres em formato de prego gigante.
   Illies é um país ligeiramente maior que Calanma em extensão, mas aqui não é tão urbanizado quanto lá. A impressão que eu tenho é, desde a mais pobre das construções à mais moderna, o cidadão menos instruído ao melhor erudito, absolutamente tudo aqui foi criado e programado para a guerra. A urbanização está concentrada no centro do território, em cidades como Sukvinder, enquanto as áreas adjacentes ficaram quase desabitadas, um vasto campo repleto de armadilhas feitas para aqueles que ousarem penetrar nossas barreiras.
Eric me garantiu que a maioria dessas torres de vigia estão desativadas e as que ainda permanecem funcionando estão longe demais para nos rastrear. Eu arqueio uma sobrancelha ao ver a mochila velha pendendo dos ombros de Melanie Jaswant.

"Não sabia que ela fazia parte do plano."
    - Comento com Eric, séria.

Eu e Eric tivemos uma longa conversa depois que ele me despertou para o desaparecimento de Tiffany Anshelf. Pelo visto, ele já desconfiava de ações obscuras por parte da Central há algum tempo, tempo suficiente para ter formulado um plano.



A minha afirmação é dita alta o suficiente para chegar aos ouvidos de Melanie, que me lança um olhar de desdém.

"Acha mesmo que eu iria ficar de fora dessa?" - Ela dispara.

"Melanie é confiável." - Eric afirma. Sua voz é cortante como uma navalha. - "Além disso, ela é importante para a missão."

Nos últimos dias, eu tenho detestado ouvir a palavra "missão".
Dita por Eric, nesse tom, a essas circunstâncias, se torna ainda pior.
Eu ignoro o desconforto que as palavras dele me causam e me foco no que realmente importa.

"Eu tenho um cara que administra a biblioteca restrita da Central."
      - Melanie diz.
"Ele facilitou a minha entrada e eu procurei por documentos que possam nos ajudar, documentos que ninguém tem acesso sem autorização, como esse."

Ela puxa um papel grosso e amarelado, com rasgos nas bordas, de dentro da mochila.
Os dedos de Eric se movem com rapidez no papel, revelando um mapa completamente diferente de todos aqueles que já vi na escola.
Os mapas que eu estava acostumada a ver mostravam apenas Illies ou Calanma, ou os dois, porém esse é muito maior. Esse mostra o mundo inteiro.

"Ele é meio antigo, mas foi o melhor que consegui." - Ela continua. Eu toco no mapa, esfregando a ponta do dedo nas áreas que eu acredito que sejam pertencentes a Illies. Na verdade esse mapa é muito mais físico do que político; nenhum país está demarcado e não há nomes, apenas de mares, penínsulas e lagos, porções de terra e água sem nome nem dono. Melanie segue meu olhar fascinado e murmura: -
"Isso é como ficou nosso mundo depois do cataclisma."

  A voz da minha professora do ensino básico falando sobre o cataclisma volta a minha mente. Tudo começou quando uma série de vulcões debaixo d'água entraram em erupção de uma vez só, alguns desses vulcões até então desconhecidos pela humanidade. A grande erupção gerou um avalanche de catástrofes; derretimento de várias placas tectônicas, tsunamis, poderosos terremotos... Muitas cidades foram completamente engolidas pela água e deixaram de existir. A lava vulcânica gerou uma imensa nuvem carregada de material tóxico que voltou à Terra em tempestades ácidas. Venenosas névoas avançavam pelo litoral de vários países e muitas pessoas foram contaminadas. A chuva corroía tudo e os sistemas de saúde ficaram sobrecarregados de gente intoxicada. As pessoas entraram em pânico e se voltaram contra seus próprios governantes. Movimentos anarquistas ganharam força e guerras civis eclodiram em todo o mundo. Lembro de ter pensado por horas nisso; como deve ser deitar a cabeça no travesseiro, seguro do amanhã, e no dia seguinte acordar e ver que o mundo virou de cabeça para baixo? O desespero, o medo de morrer, de perder tudo, de uma punição divina, se propagou por toda a humanidade que começou uma guerra irracional, selvagem e sangrenta. Quando todos se cansaram de matar uns aos outros, nossos antepassados decidiram que estava na hora de arrumar as coisas. Então o nosso país surgiu. Eu sempre tive a curiosidade de saber se o resto do planeta conseguiu se reerguer também.

"Eu imaginei que isso seria importante para uma rota de fuga, já que depois de tudo não vamos poder ficar aqui, muito menos voltar a Calanma."
    - Melanie completa. A perspectiva de sair da minha redoma de vidro e ir para lugares desconhecidos me enche de empolgação e ao mesmo tempo, angústia.

"Onde Illies está nesse mapa?" - Eric pergunta. O formato do território está bem nítido na minha cabeça, e quando Melanie aponta para uma faixa de terra no papel, percebo que eu estava certa quanto a localização.

Enquanto Melanie faz pontos no mapa com caneta vermelha, apontando onde fica cidades como Dustfire, Pumi, Sukvinder e Ohtagua, a cidade de Calanma mais próxima a nós, bem na fronteira, uma outra questão passa pela minha cabeça...
Será que resistiríamos a mais um cataclisma?

"Bem, a prioridade agora é encontrar o paradeiro de Tiffany."
     - Eric diz, dobrando o mapa.
"Só depois de fazer isso podemos pensar numa possível rota de fuga."

"Nós temos que ter um alvo." - Melanie afirma. - "Alguém que com certeza sabe onde ela está."

"Eu sei quem pode saber disso."
    - Digo. Os olhos de Eric e Melanie se fixam em mim, ávidos por um nome. A cena da minha volta à Illies, do desconforto de Tiffany e de como fomos recebidas passa por minha mente quando eu falo...
"Evan Muller."