Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

16 de out de 2014

Tormenta - Capítulo 8

Uma mulher alta, quase tão alta quanto "Andrew", me espera bem em frente ao elevador.
Ela usa uma pantalona jeans que deixa suas pernas ainda mais longas e finas, uma camisa social branca arregaçada até o cotovelo e os cabelos escuros presos num rabo de cavalo meio apertado, meio frouxo, acentuando ainda mais os ossos salientes em seu rosto.
Ela tem uma expressão felina, uma beleza meio exótica, e eu lembro rapidamente de um leopardo quando seus olhos esverdeados se fixam em mim.

"Você é Terri Jawanda, não é?"
    - Ela pergunta, e sua voz soa artificial e ensaiada como uma secretária eletrônica.

"Sim."
   - Respondo automaticamente. Minha boca seca quando lembro o que vim fazer aqui. A forma irritante do meu "mentor" de agir me fez esquecer por um instante que eu era Daphne Redfort, a inimiga infiltrada para matar o presidente.

"Siga-me."
 
   Eu ando com rapidez, tentando me ajustar aos longos passos da mulher desconhecida ao meu lado. Ela parece não se dar conta da própria altura e eu resmungo internamente o quão bom seria se eu fosse, pelos menos, um pouco mais alta. Minha estatura sempre fez com que eu parecesse frágil, algum bichinho indefeso que precisava que alguém o acolhesse. Eu gostaria de ser alta e intimidante como ela.
      Há uma longa fileira de corredores que se extende por todos os lados do andar, com sensores em todas as entradas. O design dos prédios de New Roman é completamente diferente dos famosos tetos de vidro presentes em quase todos os prédios de Pumi, Alanka, Sukvinder e outras cidades de Illies. Lá dentro, podíamos ver o mundo lá fora, e ele não era como aqui. Tudo aqui lembra máquinas, como se a cidade inteira fosse uma imensa lataria ambulante. É um pouco difícil ver coisas orgânicas como madeira, barro e palha aqui; até a grama baixa que decora a entrada da DGJURC parece artificial.
   No extremo leste do andar, enormes portas de metal tomam praticamente toda a parede. Assim como em quase todos os lugares, a porta também possui um sensor acoplado. Fico me perguntando se há sensores nos banheiros também.
    Sou levada até a quarta fileira do lado direito do andar. Um raio azul florescente percorre nosso corpo, até que uma porta de vidro enegrecida se desloca, nos dando passagem. Um corredor com suaves luzes embutidas nos leva até uma porta metálica. Sarah encosta o pulso nela por uns segundos e ouço o clic da trava.



"Pode entrar."
   - Ela diz finalmente.
Passo um rápido olhar para ela antes de entrar.

    O escritório de Richard Helvet é tão claro que sinto um leve incômodo ao entrar nele. É também muito maior do que eu conseguia imaginar. Paredes branquíssimas e um imenso janelão de vidro que toma praticamente toda a parede ao norte é responsável pela iluminação. Lindos e caros tapetes decoram o local, assim como quadros, sofás e rústicos vasinhos quadriláteros sem flores. Tudo aqui é em tom de marrom, preto e branco, e o vermelho vivo da bandeira de Calanma se destaca, pousada na larga mesa do futuro presidente.
É uma sala bonita e muito bem decorada, mas há um ar pesado aqui e eu me sinto num campo minado. Mesmo receosa, meus pés avançam, percorrendo a sala, meus olhos tentando captar o máximo de detalhes que conseguir.

"Estavam certos quando me disseram que era bela."
   - Uma voz masculina e firme soa poucos metros atrás de mim. Eu gelo.
"Mas não me disseram nada sobre o quanto é curiosa."

   Viro-me para o som e o que encontro é um homem alto, de cabelos castanho-escuros e olhos âmbar, que me estudam com diversão. Richard parece ter um pouco mais de trinta anos, e rugas se formam no canto de seus olhos quando ele sorri. Ele está impecável num terno negro com apenas o primeiro botão abotoado, sem gravata, exibindo uma camisa branca muito bem passada. O broche com a águia cor de ônix de Calanma pousa no lado esquerdo de seu blazer.

"Então, Terri Jawanda, por favor, sente-se."
   - Ele diz, se sentando na bonita poltrona de couro atrás da mesa. Eu me sento numa cadeira acochoada em frente a ele. Richard entrelaça os dedos em cima da mesa, assumindo uma expressão "negócios".
"Eu recebi indicações quanto a você de importantes pessoas, homens de minha confiança. Eu acredito na palavra deles em relação a sua competência e já vi seu histórico, portanto estou te chamando aqui apenas para esclarecer algumas coisas."

Eu faço um movimento afirmativo com a cabeça.
Fico pensando em quem cuidou de forjar um histórico para mim; Evan ou Andrew.

"Em pouco tempo eu me tornarei presidente de Calanma." - Ele diz. - "Minha família é uma das famílias mais tradicionais do país, minha linhagem composta por vários e vários presidentes, sendo assim, tenho uma imensa responsabilidade pela frente, não apenas de governar meu país, mas também de manter a imagem dos meus. Pode compreender isso, não pode?"

"Claro, senhor." - Murmuro. O fato de ter que chamá-lo de senhor, como uma subordinada, uma súdita, deixa um gosto amargo na minha boca.

"Vou lidar com assuntos importantes, muitas vezes, confidenciais, que vão passar pelas suas mãos. Preciso saber se quem está comigo é de confiança."
    - Seus olhos se fixam nos meus, analisando, buscando alguma falha, alguma hesitação.
"Então, Terri Jawanda, está realmente disposta a tudo isso?"