Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

16 de out de 2014

Tormenta - Capítulo 6

Quando volto a Illies, descubro que a invasão foi um sucesso.
Ninguém tentou parar a transferência e as imagens do incêndio de Dustfire e outros ataques ainda mais violentos encheram as telas de toda Calanma, seja nos imensos painéis que antes estavam repletos de propagandas ou nas TVs de tamanho médio das casas. O choque da descoberta, a confusão mental que o sangue, a mutilação e os tiros causam em uma sociedade completamente desacostumada com violência foi tão grande que gerou um torpor por todo o país. As conversas e os risos cessaram, numa tentativa de entender tudo aquilo que acontecia diante dos seus olhos.
Já em Illies, do outro lado, a reação era completamente diferente.
As pessoas vibraram e aplaudiram quando Evan Muller apareceu nos telões de Pumi comunicando o triunfo da missão. Eu fui parabenizada diversas vezes desde que cheguei aqui e há um brilho de admiração nos olhos das pessoas, como se eu os tivesse salvado de um perigo eminente.
O problema é que todos foram contagiados por essa alegria histérica, exceto eu.
    Invadir a transmissão de Calanma nunca pareceu algo tão letal quanto parece agora. A promessa de Evan sobre a minha família, o sentimento geral de patriotismo e a pressão de Benedict me cegaram de tal forma que não consegui raciocinar o impacto que aquelas imagens causariam em pessoas que não viam um mínimo indicio de brutalidade há décadas. Crianças viram aquilo. E as crianças de Calanma não são como as nossas crianças.

"Eu sei, eu sei, toda essa atenção está mexendo com você."
    - Benedict me diz, dando tapinhas nos meus ombros, como se realmente entendesse como eu me sinto. Eu tenho vontade de gritar que pouco me importa a atenção e sim o caos que eu ajudei a causar, mas é melhor que ele pense assim.
"Você vai se acostumar com isso, e além do mais, não precisa se preocupar com um contra-ataque de Calanma. Eles estão perdidos."

Tento desfazer a careta de incredulidade que tomou conta do meu rosto.
Benedict realmente acha que estou com medo de uma revanche? Acha mesmo que estou incomodada com isso?
Eu engulo todas as respostas ácidas que eu poderia dar enquanto a campainha toca.
E quando a porta se abre, mais risos, mais histeria.

"E aí, garota?! Fiquei sabendo que você andou hackeando umas contas aí...."
    - A mulher de cabelo cor de cereja bem curtinho diz para mim, soltando uma piscadela. Kira é o retrato mais genuíno do ingênuo cidadão de Illies. Feliz, radiante, como se a guerra estivesse vencida com esse simples movimento. Uma outra mulher e um homem a acompanham, com o mesmo sorriso divertido, e se espamarram nos sofás a minha frente. Cumprimento todo mundo com um sorriso no rosto, que apesar de parecer muito artificial, não deixa com que eles desconfiem da minha atual situação.
Então, Benedict começa a conversar animadamente com eles e eu encosto minha cabeça no sofá.
Fecho os olhos, tentando desfazer a tensão dos meus músculos e a primeira imagem que me vem a cabeça, como um flash, são os olhos enigmáticos daquele homem que me tirou do NMC.



   Abro meus olhos num sobressalto; as conversas cessaram e todo mundo está olhando fixamente para mim como se eu fosse um E.T. Por um instante, fico com medo de que eles tenham lido meus pensamentos e me pegassem no flagra pensando naquele desconhecido. Censuro a mim mesma por essa bobagem. Ninguém lê pensamentos.

"Estão falando com você, Daf." - Benedict diz suavemente.

"O quê?" - Solto, e então explico: - "Ah, desculpa, é que eu to meio cansada."

"A gente só quer saber como foi a viagem."
   - Kira diz, como se estivesse ofendida pela minha falta de atenção.

"Ah..." - Balbucio. - "A viagem foi normal, normal..."

Benedict ergue uma sobrancelha para mim.

"Não acredito que pular de uma nave em movimento tenha sido normal." - A outra garota diz, com uma mistura de ceticismo e sarcasmo. - "Pelo menos, não pra mim."

"Ah, sobre o salto..."
    - Digo, praguejando internamente pelo meu comportamento.
"Então, foi perigoso, foi muito rápido para falar a verdade, mas foi bom."

"Doeu? Digo... quando você aterrizou?"
   - Kira pergunta.

"Não muito. Só tive uns arranhões."

E quando finalmente, eu estava preparada para uma enxurrada de perguntas, um silêncio incômodo cai sobre a sala.

"Então, gente, eu acho melhor deixar a Daf descansar."
     - O homem com um lado da cabeça, raspada, diz, se levantando do sofá. Eu agradeço internamente pelas suas palavras e eles se despedem, não tão calorosos quanto antes.

Então, poucos minutos depois de sua ida, meu celular vibra.
E no final das contas, eu não descanso.
É claro que não me deixariam descansar.

*
A Central está diferente desde a última vez que vim aqui.
Antigamente, tudo era silencioso, com suas paredes brancas e tetos de vidro, o som tranquilo e remoto dos sapatos batendo no piso polido. Hoje, as vozes tomam conta do lugar; a histeria geral conseguiu, de certa forma, invadir as paredes impermeáveis da Central de Illies.
      Ninguém sabe como exatamente isso funciona. Todos falam na Central como um símbolo de força e poder, um porto seguro, algo que luta por nós, dia e noite, mas ninguém diz até onde vai sua soberania. Toco minhas têmporas, sentindo-as latejar, e minha cabeça dói um pouco.
Tudo está excessivamente barulhento hoje, mas quando entro na sala de Evan quase sorrio com o silêncio familiar do lugar.
   Evan permanece com sua expressão neutra, completamente inerte a histeria geral, e o som suave dos seus sapatos sobre o piso polido me relaxam. Tudo mudou, mas a mulher a minha frente continua a mesma.

"Você parece tensa, Daphne." - Ela diz com sua voz aveludada. - "Provavelmente não dormiu desde que voltou, e eu sinto muito em chamá-la justamente agora, quando precisa de um tempo sozinha."

"Tá tudo bem."
    - Digo.
"Eu até gosto daqui, é bem quieto."

Ela abre um sorriso ao ouvir meu comentário.

"Então, o primeiro cônser¹ de Calanma irá dar um comunicado para todo o país daqui a alguns minutos. O pronunciamento é provavelmente sobre a invasão de ontem."

"O que houve com o presidente?" - Pergunto.

"Teve outro infarto." - Ela diz. - "Passou por uma cirurgia complicada e está completamente incapaz de fazer algo. As chances de que ele se recupere dessa são mínimas."

Um calafrio percorre meu corpo.
Troca de presidentes.
Isso não é nada bom num momento delicado como esse.

"Eles possuem um substituto?"

"Chegou ao ponto, srta Redfort."
   - Evan afirma.
"Como é tradição de Calanma, a presidência é hereditária. A família que controla Calanma e se mantém na presidência até hoje são os Helvet. E eles possuem um candidato... Richard Helvet."

E a partir de então, Evan começa a citar o que seria a ficha dele.
Richard é o mais velho dos três irmãos Helvet que estão mais próximos a linha de sucessão na presidência. Eles são netos do atual presidente, seus pais morreram num avalanche e Richard, por trabalhar desde adolescente para o governo, - e pelo sobrenome também - possui importantes contatos e bastante apoio. Seus outros dois irmãos, Jon e Prudence, também possuem cargos ligados ao governo. Richard é noivo e irá se casar em pouco tempo com a herdeira de uma das maiores fortunas do país; ele já conquistou tudo o que um presidente precisa ter, só está esperando o momento certo para assumir o cargo.

"Por que está me contando tudo isso?"
    - Pergunto finalmente.

"Porque você, Daphne, vai precisar dessas informações para sua próxima missão."
    - Ela afirma. Então, Evan faz uma breve pausa, analisando meu rosto, antes de declarar:
"Você voltará a Calanma para matar o novo presidente."

¹CÔNSER: Assim é chamado todo membro do conselho presidencial. O conselho presidencial é responsável por criar as leis que só poderão entrar em vigor com a ordem do presidente - e em casos menores, do primeiro cônser. O primeiro cônser, líder do conselho, é considerado um dos cargos mais poderosos de Calanma, abaixo apenas do próprio presidente.