Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

16 de out de 2014

Tormenta - Capítulo 5

"Daphne? Você está bem? Pode falar comigo?"
    - A voz formal de Evan Muller me lembra que além de estar com um quase microscópico comunicador no ouvido, estou em uma missão que não se trata de observar os setores da capital de Calanma. Me desperto da minha antiga situação e respondo:

"Estou aqui, Evan, e estou bem sim."

"Ótimo. Me avise se precisar de algo."

  Eu me levanto e caminho para o centro da pista, repassando em minha mente as instruções anteriormente oferecidas. Procuro o prédio com a haste da bandeira de Calanma erguida - uma águia preta num fundo vermelho sangue - como ordenado por Evan. É incrível como o vermelho vivo se destaca, mesmo em meio ao escuro. Fico de frente para o prédio supracitado e repasso novamente os comandos. Janela esquerda, lado leste. Dou passos na direção indicada e me coloco na beira, tentando localizar a janela; uma pessoa normal se sentiria tonta nessa situação, com o chão a mais de 40 metros abaixo, mas a altura não me amedronta, pelo contrário, eu gosto dela.
Você não tem muito tempo, Daphne. 
Algo como uma voz na minha cabeça soa como um lembrete, e eu procuro me posicionar para a escalada. Minhas mãos se agarram fortemente à base de concreto no topo do prédio, enquanto os meus pés, livres, procuram pelas letras em relevo da faixada. Essa talvez seja a parte mais arriscada; a superfície da faixada é extremamente lisa, sendo o meu único ponto de apoio até agora, as letras. Essas, por sua vez, também são um problema, já que, por não possuírem muita espessura, dificultam ainda mais o meu trabalho. Estabilizo meus pés sobre o relevo antes de me mover para os lados. Localizo a janela. Dou outros dois passos cautelosos em direção ao lado esquerdo. Solto uma longa expiração. Se eu errar esse movimento, vou perder o equilíbrio e cair. Calculo a distância em que o meu pé direito terá que se mover. Uma rajada de vento faz com que eu me pressione ainda mais contra o prédio. E então, depois que ela vai embora, movo meus pés e solto minhas mãos.

Na mínima sensação de desequilíbrio eu me agarro, desesperadamente, à base de concreto que forma a janela retangular. Ela é larga e estreita, mas eu consigo me posicionar ali, minha coxa direita colada com o vidro. A base de concreto que abriga o vidro escuro tem uns oito ou nove centímetros de espessura; tateio com a mão esquerda, procurando o pequeno compartimento no meu cinto. Puxo um chip metálico com um pequeno furo vermelho. O furo na verdade é um mini-botão, e esse é um dispositivo que, colado em superfícies de vidro, consegue rachar o material. Um pouco desajeitada, consigo colar o chip sobre o vidro da janela, apertando o botão logo em seguida. Ouço o leve barulho do vidro trincando e a superfície se racha em cinco grandes pedaços; removo cada pedaço com cuidado, atirando-o ao vento em seguida, sem olhar onde caiu. Apesar de largo, a janela é bem estreita, o que faz com que eu passe o corpo lentamente entre a abertura, a ameaça de um desequilíbrio e consequentemente, uma queda, volta com toda a força.
   Eu solto a respiração que prendia involutariamente quando entro no prédio. Aqui dentro é quente, diferente do frio lá fora, e eu quase relaxo, então me lembro que estou em Calanma, numa "missão de guerra". A única fonte de ilumimação do lugar vem de umas fracas luzes translúcidas do outro lado do departamento. Sigo o brilho azulado que clareia discretamente a sala...
Então, eu me dou de cara com um cômodo dentro de um cômodo; uma saleta arredondada repleta de telas gigantescas por todos os lados. É exatamente aqui onde todos os arquivos de mídia que passam na televisão são programados. Não há bancos ou mesas; apenas as telas e o piso de mármore branco que reflete a luz que sai delas.
Eu esqueci de sinalizar que há uma mulher, bem de costas para mim.
Ela toca na tela em sua frente, concentrada em seu trabalho, puxando blocos e arrastando-os de um lado para o outro com seus dedos longos e finos. A tela em sua frente, diferente das demais - que não param de passar imagens e videos de cores diversas - é azul e está vazia, exceto pelos tais blocos nomeados com séries de números.
Meus dedos tateiam pelos compartimentos embutidos no cinto, até achar um tubo cilíndrico de metal. Eu o puxo e tiro a tampa, silenciosamente, exibindo a agulha de uma seringa cheia de sonífero. O sonífero está aqui, ao invés de um veneno, porque todos os cidadãos de Calanma possuem chips conectados a um SIMC¹, um código tatuado no pulso que transmite informações pessoais às sedes, ou seja, se alguém morrer, seu SIMC sairá do ar, o que chamaria atenção.
Eu me aproximo lentamente, tomando cuidado a cada passo que eu dou, como se estivesse num campo minado.
Ela é mais alta do que eu, e mais magra também. Sua pele é escura e brilhante.
Meus dedos se apertam na seringa, enquanto meus olhos movem-se para um local onde eu possa inserir a injeção.
Então num movimento rápido, eu passo o braço esquerdo por seu pescoço e com a mão livre, injeto a agulha em seu lado direito, bem na curva da cintura. A moça solta um grito abafado e eu mantenho a mão pressionada em sua boca, até que, em segundos, ela dorme.

    Me aproximo da enorme tela, movendo meus olhos através das janelas e fileiras de códigos que aparecem, a fim de encontrar a mídia correspondente à transmissão em tempo real. O NMC monitora todo e qualquer tipo de aparelho de vídeo ou aúdio situado em qualquer local de New Roman e áreas adjacentes. Cidades mais afastadas da capital possuem suas próprias sedes NMC.  Aqui, as pessoas são vigiadas 24h por dia e as imagens de suas vidas aparecem aos montes em gigantescas telas de LED.
Aproximo o minúsculo chip de cobre na tela, em cima da janela 08jks523196400k, correspondente à tudo o que está passando nas TV's de todo o país. Aguardo pelo leitor de mídia e sussurro, pelo fone:

"Evan"
  - Chamo.
"Já pode transferir os dados."

 Em alguns segundos, o leitor começa a carregar a enxurrada de arquivos que são fornecidos pelo dispositivo. Eu aguardo ansiosamente, contando cada passo do carregamento... 2%, 4%, 7%, 15%...
Ouço um barulho muito fraco, quase imperceptível, movendo-se atrás de mim.
E quando as luzes da sala são acesas, eu estou preparada para o que me espera, com arma em punho e dedo no gatilho.
      Um homem corpulento de expressão severa, sobrancelhas grossas e veias alteradas ao longo dos braços e pescoço mantém uma pistola apontada para mim, sem dizer uma palavra. A sensação é que de que vou explodir em espasmos, mas meus membros continuam firmes como sempre estiveram. Seus olhos negros percorrem toda a sala e param na garota desacordada, no chão, a poucos metros de mim. Depois, eles voam para a tela, e para mim, e seu maxilar se contrai.

"Esses malditos..."
   - Ele pragueja, mas sua voz morre no final da frase.
"Como é mesmo que vocês, de Illies, se chamam?"

"Isso realmente importa?"

"Não."
  - Ele diz.
"O que realmente importa é que diabos você está fazendo aqui?!"

Eu fico calada e imóvel.

"Escuta, garota, faz o seguinte, você abaixa essa arma, e eu prometo não machucar você."
    - Ele negociam, com um sorriso sádico no rosto. Eu continuo impassível.
"Você não tem saída. A região vai ficar cercada de policiais em minutos."

"O que te faz pensar que estou sozinha aqui?"
   - Respondo desafiadoramente, tentando apagar qualquer vestígio de medo e dúvida da minha voz. Ele solta uma risada nervosa e diz:

"Continuamos sendo maioria."

  Então ouço um estampido súbito de tiro e o homem que há segundos sorria de forma malévola para mim está caindo no chão, em cima de uma imensa poça de sangue. Solto um grito esganiçado e um tremor passa pelo meu corpo; tento me recompor, enquanto um homem, de aparência menos hostil que a dele, ordena:

"Vem, rápido!"

  Minhas pernas obedecem ao comando, enquanto minha mente protesta. Tudo acontece muito rápido e eu esqueço Evan ou o chip, e corro ao lado do homem que não conheço, mas que, tecnicamente, salvou minha vida. Passamos por corredores, escadas e entradas subterrâneas, com o som das sirenes surgindo por todos os lados. Eu não faço a mínima ideia de em qual lugar de Calanma estou agora, e só a noção de estar completamente a mercê do estranho a meu lado me faz tremer. Até que ele para, de frente para uma escada que dá acesso à uma abertura no teto.

"Ok, eu só vou até aqui. Suba." - Ele ordena. Sua grossa voz ecoa por todo subsolo e eu pergunto, finalmente...

"Quem é você?"

"Não temos tempo para isso. Suba."

  Eu penso em rebater, mas quando minha boca se abre, ele me lança um olhar tão duro e gelado que me faz calar. Eu subo as escadas, degrau por degrau, e quando forço a abertura, uma enorme tampa se abre e o vento frio da noite chicoteia meu rosto. Eu lanço um último olhar ao homem que ainda está lá, me observando, com a expressão completamente neutra.

Eu ainda vou descobrir quem você é, penso.

Então, eu saio para a noite e os perigos que me acompanham.

¹SIMC: Sistema de Identificação por Micro-chip. Um código tatuado no pulso esquerdo ligado a um micro-chip é implantado em todos os cidadãos de Calanma. Com esse mecanismo, informações pessoais como nome, data de nascimento, família, escolaridade, saúde e vários dados são colhidos e monitorados o tempo inteiro.