Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

25 de out de 2014

Tormenta - Capítulo 18

"Declaro a toda população de Illies que o presidente de Calanma, Richard Helvet, está oficialmente morto."
   - A voz de Evan surge da TV presa na parede da sala. Eu tinha acabado de acordar, com o cabelo desgrenhado e roupas de dormir, quando Benedict me falou sobre o comunicado de Evan Muller. Ele está esparramado no sofá, vestido apenas com um short velho, e me cutuca quando meu nome é citado por ela...
"A grande responsável pela missão, Daphne Redfort, já voltou em segurança para nosso país. Gostaria de agradecer não somente a ela, mas também a todos os integrantes da operação que executaram um trabalho com seriedade e competência. Toda Illies é eternamente grata aos nossos heróis."

Ben olha para mim com um sorriso enviesado no rosto.
Apesar dos elogios e agradecimentos, eu permaneço carrancuda, olhando fixamente para a estúpida televisão.

"Você não parece muito com uma heroína."
    - Ben provoca com um risinho. Eu apenas lhe lanço um olhar fulminante. Ele se endireita no sofá.
"Qual é, você sempre volta como se estivesse zangada, o que está acontecendo, hein?"

"Eu só estou preocupada com Tiffany." - Confesso.

"A mulher do difunto?"

"É." - Respondo. - "Eu não sei como ela está reagindo a tudo isso."

"Eu não sei porque você se preocupa tanto com essa gente."
    - Ele rebate.
"A missão foi um sucesso. Você voltou para casa viva e cheia de moral, e de quebra sua amiguinha ainda está protegida pelo governo. O que mais você quer?"

"Tiffany não é minha amiguinha."
    - Respondo com acidez.
"É só que... ela não é uma pessoa ruim, sabe? Ela está num lugar onde as pessoas estão comemorando a morte do marido dela. Deve estar sendo horrível."

"Ela está isolada. Nem deve estar vendo a comemoração."
     - Ele diz.
"Sério, Daf, ela está bem. Não precisa se preocupar."

*

Melanie está sentada num batente, de frente para o hospital.
O Pumi Central Med é um prédio largo em tons de branco e azul claro, com dois pequenos canteiros de flores ao lado da entrada. Essa é a primeira vez em que eu saio sozinha, como uma cidadã normal, desde que cheguei aqui; nos últimos dois dias, passei praticamente o dia inteiro em casa, dormindo, mas quando olho para as olheiras profundas no rosto de Melanie, descubro que a volta dela foi um pouco diferente.

"Hey."
   - Digo, me sentando ao seu lado. Ela, que até então manteve a cabeça meio abaixada, me encara e diz suavemente...

"Hey."

"Você não parece muito descansada." - Comento.

"Eu estive aqui desde que cheguei." - Ela diz. Eu olho para Melanie com uma expressão interrogativa e ela completa, amarga: - "É pelo George... que morreu, no final das contas."

"Eu sinto muito."
    - Murmuro. Benedict tinha me dito algo sobre ele; George Towen, o cara que estava na maca, era um agente de Painton que estava como um soldado no dia do resgate. Levou um tiro nas costas. Melanie me lança um sorriso azedo e afirma...

"Você mente muito mal."

E eu fico calada.

Nós duas ficamos um bom tempo sentadas, lado a lado, em silêncio, observando o movimento fraco nas ruas e sentindo aquele aroma da manhã. Tudo parece repentinamente monótono e eu ainda sinto uma fadiga, como se estivesse de ressaca. Estar em casa é aconchegante, mas ao mesmo tempo tedioso. Melanie pode estar certa; eu talvez sinta, mas não muito.

"Ainda não me conformo com a Evan ter deixado o Eric lá."
    - Melanie diz, e seu rosto forma uma careta de rancor. Ela realmente se importa, ao passo de que só agora me dei conta de que ele não voltou.
"No meio daquela gente, depois de tudo o que aconteceu..."

Eu permaneço quieta.
Melanie ainda está falando, mas não é como se ela falasse para mim, e sim como uma reclamação, um desabafo entre ela mesma que não quero interromper.

"Nós, agentes, fomos ensinados a nos tratar como irmãos, mesmo não tendo parentesco."
    - Ela continua e sua voz vai aumentando gradativamente.
"Porque é isso que nós somos. Pertencemos a um mesmo país, um mesmo povo, lutando por uma mesma causa. Eu estou aqui nesse maldito hospital porque a Evan nos ensinou que não podemos abandonar um irmão, só que é isso que ela está fazendo agora!"

Ela abaixa a cabeça abruptamente e eu tenho a impressão de que ela vai chorar.
Porém, quando ela se levanta novamente e me encara, não há uma lágrima em seus olhos.
Só raiva. Uma raiva muito mal contida, prestes a explodir.

"Ela nem sequer quer me ouvir falar nisso, aquela... O Eric confiou nela e ainda está confiando, mesmo ela enfiando ele no olho do furacão, mesmo colocando a vida dele em perigo daquela forma!"

"Melanie."
   - Digo.
"Eu sinto muito por isso, de verdade. Eu não sabia, eu... eu vou dar um jeito."

E o que eu falo parece suficiente para ela.
Sua expressão se suaviza um pouco e eu lhe lanço um sorriso amigável antes de ir embora.
Benedict me mandou até o hospital entregar uma bolsa com produtos para a recepção, o que eu trato de fazer o mais rápido possível.
Quando eu disse que iria dar um jeito, eu não estava mentindo.