Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

25 de out de 2014

Tormenta - Capítulo 14

"Minha casa anda muito movimentada esses dias."
    - Comento com desdém ao ver Eric e a tal de Helena Jumper no meio da sala do meu apartamento. A noite está escura, sem estrelas, e eu demoro um pouco para me adaptar com a pouca luminosidade do cômodo. Por um momento, um leve e rápido momento, desconfiei da verdadeira identidade de Helena e agora, com ela em minha sala, a desconfiança virou certeza.

"Quantas vezes vou ter que dizer que essa não é sua casa?" - Eric solta, entediado. Eu ignoro seu comentário e digo, meu olhar direcionado a moça...

"Não sabia que era agente." - Digo.

"Isso significa que meu disfarce está ótimo."
    - Ela diz com um largo sorriso.
"Deixa eu me reapresentar, sou Melanie Jaswant."

"É claro que seu desfarce está ótimo, Melly, até porque fui que te ensinei a fazê-lo."
     - Eric declara com um sorriso presumido.

"Calado, Ross."
    - Ela ordena, divertida. É obvio o nível de proximidade entre os dois; provavelmente se conhecem há muito tempo e sabem muita coisa um do outro. Me sinto deslocada, como se não tivesse espaço para mim.

"É verdade que esteve em West Blues?" - Pergunto a ela.

"Nem tudo o que eu digo durante o disfarce é mentira."
    - Melanie afirma. Então ela aumenta a voz e lança uma provocação a Eric:
"Na verdade, eu estava me divertindo bastante por lá, até que tive que vir atrás desse imprestável."



   West Blues, diferente de Andalus, é uma cidade que sabe aproveitar bem suas praias. As pessoas riem mais e se divertem mais, está sempre ensolarado e tudo é muito menos formal do que em outros lugares, especialmente New Roman. Eu gostaria de ter sido enviada para lá.
Eu meio que ignoro as brincadeiras entre Eric e Melanie, e só me foco no que ela diz diretamente a mim...

"Eu vim pra cá com o pretexto de fazer a segurança do Helvet durante a cerimônia de posse."
     - Melanie diz. Então, ela levanta o braço e mostra o distintivo policial com seu nome falso, a tinta preta do SIMC se destacando na pele clara do pulso. Melanie abre um sorriso meio maléfico e fala, antes de soltar uma leve gargalhada:
"Imagina como eles vão ficar quando ver o presidente mortinho no chão?!"

"Melanie não foi a única transferida para New Roman para ter dar cobertura." - Eric diz. - "Outros agentes estão a caminho, sabe-se lá quantos."

   Então os dois me explicam que o governo illiense enviou agentes para lugares estratégicos de Calanma. As cidades escolhidas para sediar as chamadas "bases humanas" da Central foram Andalus, West Blues, Dincon, Ohtagua e claro, a capital, New Roman. Andalus e West Blues são cidades litorâneas ao leste, repleta de portos onde imensos navios despejam cargas e mais cargas de alimentos e matéria prima para as indústrias do país. Melanie e outros agentes trabalham há anos colhendo informações sobre a cidade para ajudar a Central numa possível invasão e tomada desses portos. Dincon faz fronteira com New Roman e é responsável por boa parte da produção de aeronaves de Calanma enquanto Ohtagua é perigosamente próxima à fronteira entre os inimigos, a chamada "linha de fogo", onde a maioria dos ataques acontecem. Acho que o projeto mais recente e o mais próximo de se realizar é a tomada de Ohtagua.

"Já que temos tantos agentes, porque me mandaram para essa missão?"
    - Solto. Um profundo e incômodo silêncio se instala após a minha pergunta.
"Não seria mais fácil mandar qualquer um de vocês, que estão há muito mais tempo aqui?"

Eric e Melanie se entreolham.
Ela volta o olhar para mim rapidamente, pensando em algo para dizer, enquanto Eric permanece lá, imperturbável, coçando a espessa sobrancelha.

"Será que tem alguma bebida aqui?" - Ela pergunta, mudando de assunto. Então, Melanie solta uma risada nervosa e completa, forçando descontração na voz... - "Faz tanto tempo que não bebo que já esqueci como é a sensação."

Eu permaneço calada, encarando-os atentamente.
Melanie lança um olhar suplicante para Eric, que responde com indiferença, e eu começo a cogitar o que aconteceu para que ela reagisse dessa forma.
Então, no instante seguinte, eu decido dar uma trégua a ela, não porque eu tenha nutrido alguma afeição por Melanie Jaswant, mas porque eu sei que ela não me revelaria o que está escondendo, pelo menos, não por vontade própria...

"Há uma garrafa de uísque no armário marrom, à sua esquerda."