Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

16 de out de 2014

Tormenta - Capítulo 12

Prudence Helvet é exatamente como dizem.
Seus cabelos são iguais aos de Richard; uma cascata castanha que cai em seus ombros, sedosa e brilhante. Essa talvez seja a única coisa que os dois irmãos têm em comum. Diferente dos divertidos e ágeis olhos âmbar de Richard, Prudence possui olhos acinzentados, calmos, analisadores. As minúsculas mãos se cruzam sobre o colo e o anel com uma grande pedra de safira chama atenção para seu dedo indicador.

"Richard está lá em cima, cuidando dos últimos detalhes."
    - Ela diz de um jeito formal que flui tão naturalmente, me fazendo pensar que ela sempre foi assim, tranquila e equilibrada. Não há calor em sua voz, não há calor em quase nada aqui e a sensação é de que as pessoas estão apenas sobrevivendo.

   Helvet House se parece bastante com a mansão presidencial, ambas as construções feitas pelas mesmas mãos, sendo consideradas "gêmeas" pela população. Prédios com design moderno, mais moderno que Anshelf House, com grandes blocos retangulares e um largo pátio com piso de um limpíssimo mármore branco. Segundo as famosas histórias sussurradas ao pé da cama, a semelhança entre as duas mansões é proposital; uma forma de mostrar que os Helvet estariam para sempre ligados ao governo, à liderança de seu país.

"Ele disse que partirá sozinho" - Prudence afirma. - "E me pediu para levá-la comigo, já que estou de saída."

"Tem certeza? Digo, é o casamento dele, um atraso seria..."

"Péssimo."
   - Ela completa, com um sorriso de compreensão.
"Meu irmão tem total consciência disso. Não precisa se preocupar, querida."

Começo a me lembrar de Tiffany enquanto a irmã mais nova de Richard me leva até o carro.
    Prudence soa mais perigosa do que entediante, e eu tento, sem sucesso, escapar de seus olhares avaliadores. A sensação é de que meu plano está por um fio, como se ela pudesse descobrir quem eu sou no minuto seguinte.

"Richard fala muito de você." - Ela diz. Eu a encaro de forma interrogativa e ela continua - "Diz que é uma profissional muito competente."

Eu permaneço calada.

"Soube que foi indicada pelos cônsers."
   - Prudence comenta.
"Seu histórico diz que você trabalhou em várias famílias importantes, mas o engraçado é que nunca ouvi falar sobre você."

"Os senhores não costumam conversar sobre seus empregados."
     - Afirmo. Ela me lança um sorriso gentil e fala...

"Temo ter que concordar, em parte. Porém, empregados como você são excessão."

     Eu me calo novamente e ela não me faz mais perguntas, ao que agradeço internamente. A viagem se passa sob um silêncio sepulcral e eu respiro aliviada ao ouvir as vozes animadas provenientes da mansão presidencial. A sensação de estar fora do alcance de Prudence é tão boa que eu quase fico feliz.
    O imenso e bem decorado salão é o palco do casamento mais aguardado do país. Os políticos são retratados como charmosas celebridades pela tendenciosa e inútil imprensa de Calanma. O que se passa nas TVs de todo o país não é nada sério e realmente importante, nada além das propagandas, horas e mais horas de uma mídia que tenta enfiar por debaixo das goelas alheias que Calanma é uma utopia concretizada e seus líderes são as melhores pessoas do mundo. Não é a toa que minhas imagens sobre a guerra tenham causado tanto choque.
Essa é a primeira vez que vejo Jaime Helvet.
Ele está no canto, se mantendo razoavelmente longe da aglomeração, com seu lindo e impecável uniforme militar. Ah, os militares também ganham um toque de glamour da mídia. Eles são vistos como heróis recém saídos dos contos de fada, como se todo mundo esquecesse a real utilidade deles.
Eu só descobri que se tratava de Jaime pela sua evidente semelhança com o irmão mais velho. Os dois são tão parecidos que assombra, como se fossem gêmeos, apesar de Jaime ser cinco anos mais novo. Entretanto, Jaime possui um ar completamente diferente, seus olhos âmbar não demonstram diversão e sim perspicácia, e eu vejo seu olhar em Prudence, já consciente quando o seu olhar voa para mim.

"Daphne?"
   - A voz de Evan surge como um zumbido no meu ouvido. Meu fone permaneceu tão calado desde que eu vim aqui que por vezes, esqueci que ele existia. Faço um imenso esforço para não tocar em meu ouvido e me dirijo até o local mais quieto da festa antes de responder...

"O que é?"

"Onde você está?"

"Na mansão presidencial, por quê?"

"Quero que vá até Helvet House." - Evan ordena. - "Agora."

"Não posso, a irmã dele me escoltou até aqui, parece que não quer ninguém por lá."

"Exatamente por isso que você deve ir."
    - Ela afirma.
"Creio que Eric já tenha lhe dito o porquê de tudo isso."



   Eu pedi ao motorista que me levasse à Helvet House no final da tarde, com o pedido de Eric em mente. O plano de estar sozinha e procurar informações tinha dado errado, visto que Prudence fez o "favor" de me fazer companhia desde que coloquei os pés na casa. Eu abri mão do plano facilmente, confesso, mas o perigo de uma jogada como essa, principalmente agora, com tantos Helvets juntos no mesmo lugar, é aterrorizante.
Respiro fundo e dou meia volta, disposta a falar, mesmo que por alguns segundos, com Eric.
É uma pena que eu sempre cumpra as tarefas que me são oferecidas.
   Não demora muito para que eu esteja com as chaves de Eric nas mãos. Ele praticamente leu a mensagem de Evan em meus olhos, sem que eu precisasse dizer muita coisa, e me cedeu seu silencioso e veloz carro. Pego um atalho que Eric me ensinou e dirijo até Helvet House, com o coração batendo violentamente contra o peito. Em menos de dez minutos estou nos fundos da mansão, agradecendo imensamente pela escuridão da noite que me oculta entre as pedras.
Meus pés descalços tocam delicadamente no chão frio enquanto me aproximo lentamente da construção. O carro agora é uma comprida e achatada sombra ao longe. O vento chicoteia minhas pernas nuas e um calafrio percorre pelo meu corpo. Um vulto entra no meu campo de visão logo a frente. Conforme ele se aproxima, vai ganhando a forma nítida de um homem engravatado, com uma maleta na mão.
Prendo a respiração involuntariamente.
Richard está em frente a Helvet House e recebe o homem com um formal aperto de mãos e um sorriso condescendente.
Então, no instante seguinte, ao invés de entrarem pela porta principal da mansão, como eu havia imaginado, os dois se dirigem até uma pequena porta lateral que, para minha surpresa, é de madeira e livre de sensores.
    O confronto entre Calanma e Illies vai além dos tiros e bombardeios nas linhas de fogo; ambos os países possuem uma frota de satélites de última geração, todos eles monitorados por salas de controle situadas nas principais metrópoles. Quando era mais nova, meu irmão Benedict me levou até um desses centros de controle, em Sukvinder. Várias e várias salas repletas de telas imensas e painéis, cientistas, engenheiros e técnicos em geral, hackers profissionais, toda essa gente unida para invadir os sistemas de satélite de Calanma e impedir que o seu sistema fosse invadido. Por essa razão, qualquer lugar onde haja um sensor, um scanner ou qualquer outro aparelho que necessite dos satélites para funcionar, corre risco de ser rastreado pelo inimigo. Isso significa que o local onde Richard entrou é realmente secreto, tão secreto que se abre mão de alta tecnologia só para manter o sigilo.
Abro o zíper lateral do meu vestido até a altura das coxas quando entro no compartimento.
Está tudo escuro, mesmo quando eu ainda mantinha a porta aberta, e eu tateio minha coxa até achar a faixa de tecido presa a ela. É um cinto grosso, relativamente parecido com o cinto que usei na invasão do NMC, com rasos bolsos acoplados na parte interna. Puxo o largo e fino objeto metálico e passo o dedo indicador sob a tela. Uma luz fraca e translúcida se acende e eu me preocupo em esconder a claridade. Eric deixou isso em meu apartamento alguns dias atrás, um aparelho multimídia, que ele me proibiu de ligar, a menos que o local onde eu estivesse fosse livre de sensores.
Desço as estreitas escadas com cautela, indo ao subsolo de Helvet House. Uma luz azul-gelo clareia o fim da escadaria, onde há uma curva que leva até sabe Deus aonde. Me escondo entre as sombras, apurando os ouvidos e tentando distinguir as vozes...

"É uma manobra arriscada, senhor Richard."
     - Uma voz masculina que, suponho, pertence ao homem que entrou com Richard na cabine subterrânea.

"Eu sei o que estou fazendo, Weedon."
    - Richard responde.
"Além do mais, esse é o local mais seguro em toda New Roman, não tem como ninguém achar as amostras aqui."

"Por favor, a única segurança do lugar é uma porta antiquada com uma fechadura fajuta."

"Exatamente."
   - Ele afirma e eu me lembro das palavras de Evan.
"Ninguém pode desconfiar que haja algo de importante num lugar tão aparentemente desprotegido."

"Mas..."

"Quer que eu ponha um scanner e aqueles malditos de Illies rastreiem a gente?!"
    - Richard estoura.
"Fora de cogitação, Weedon, o lugar vai ficar do jeito em que está. Agora, adiante logo com isso, ponha essa carga aqui."

O que se segue são leves barulhos estridentes de metal raspando no vidro.
Nenhum dos dois dizem uma palavra e em poucos instantes, o local fica silencioso.
Vou soltando a respiração aos poucos, ainda com medo de soltar qualquer som.
Mas quando finalmente saio das sombras, descubro que o local está vazio.

   A luz azul-gelo vem de lâmpadas florescentes embutidas no teto e nas paredes do compartimento. É um local resfriado por fortes ar condicionados que despejam baforadas de vento gelado em mim. Em todos os cantos, freezers com portas de vidro sustentam, em suas prateleiras, recipientes cilíndricos de metal com o símbolo da caveira, demonstrando que se trata de material altamente tóxico.
Ataque químico, é a única coisa que eu penso.
Eu não faço ideia de que tipo de composto está presente nesses potes, mas com certeza é algo letal, substâncias especialmente preparadas para dizimar uma boa parte da população de Illies.
Minhas mãos tremem enquanto sustento o aparelho multimídia, tirando as fotos que serão imediatamente enviadas para Pumi, para Evan.
Olho o relógio de relance.
Tenho pouquíssimo tempo para sair daqui e voltar para o casamento.

   Programo o aparelho no modo "sincronizar", enquanto saio do compartimento. O tal de Weedon acabou de sair de Helvet House e o carro de Richard está estacionado na frente da mansão, pronto para partir. Corro para o carro de Eric e dirigo o mais rápido que consigo, respirando aliviada por conta do motor silencioso. Pego o mesmo atalho de volta à mansão presidencial e recalço os sapatos, arrumando o cabelo e maquiagem antes de voltar para a festa.

"Terri!"
   - Ouço a voz de Sarah se elevando em meio as outras. Ela caminha até mim com seu longo vestido azul-escuro profundo com o cenho franzido em preocupação.
"Eu estava te procurando na festa inteira! Onde você estava?!"

"No toalete."
   - Minto.
"O senhor Helvet já chegou?"

"Ainda não." - Ela diz; respiro aliviada. - "Mas ele vai chegar já já e você precisar estar presente para recebê-lo. Isso, sem contar, é claro, nos outros convidados..."

Agradeço internamente - de novo -, enquanto Sarah me arrasta ao seu lado, por Eric estar no meu caminho.
Assim eu posso depositar a chave em seu bolso logo quando passo por ele.

    Cerca de uma hora depois, Tiffany Anshelf entra na mansão presidencial, radiante, acompanhada pelo pai, as câmeras e olhares voltados para ela. Seu vestido é majestoso, branco, com detalhes em renda; o tão querido por ela ouro branco realça a beleza de seu fino rosto e longo pescoço, verdadeiros traços de modelo. Ela é retratada como uma princesa, saída dos contos de fada, caminhando em direção ao seu príncipe. A imprensa faz mais propagandas e elogios ao casal da década e ao seu maravilhoso país, como se Calanma fosse tão simples e pacífica como uma cidade de bonecas. Enquanto isso, Richard Helvet está lá, sorrindo, pensando em como tudo está saindo perfeitamente bem, sem imaginar que eu estava lá e que as imagens de seu compartimento secreto estão estampadas, nesse momento, nas telas da Central de Illies.
Olho para os rostos alheios, felizes, sonhadores.
Evito olhar para Prudence Helvet, a cautelosa irmã de Richard, porque ela parece ser a única que sabe que a paz é uma miragem. Ela é a única que parece se dar conta do quão perto o inimigo está e do quanto ele quer destruí-los.