Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

16 de out de 2014

Tormenta - Capítulo 11

"Aquele é Andrew Bordoni, um cônser."
    - Sarah cochicha para mim enquanto atravessamos o saguão da DGJURC. Andrew está a alguns metros a frente, conversando outros três homens que pela vestimenta, suponho que também fazem parte do conselho. Fico me perguntando como ele conseguiu um cargo tão importante.
"Ele é aqueles tipos de cara que você deve manter longe, para o seu próprio bem, sabe? Sempre penso que Bordoni pode ferrar qualquer um aqui dentro e sair ileso. O que é uma pena, porque ele é tão bonito..."

  Começo a reparar nas feições de Andrew, meio que automaticamente, uma resposta ao comentário de Sarah. Na verdade, os traços dele são bem comuns, os olhos e cabelos negros, o leve vestígio de barba no rosto... mesmo assim, há algo de muito atraente, uma beleza perigosa no modo como se porta.

"Como ele veio para cá?" - Pergunto, tentando dar um tom mais casual a minha voz.

"Ele veio trabalhar aqui na mesma época que o jovem Helvet."
    - Ela diz. Sarah sempre se refere a Richard assim, "o jovem Helvet" e quanto ao presidente quase morto "o velho Helvet".
"Todos pensavam, e ainda pensam, que rolou uma certa disputa entre os dois para entrar no conselho, mas o velho Helvet gostava tanto de Bordoni que cedeu o cargo a ele."

    Não, meu bem, não tem nada a ver com gosto, penso, há apenas o fato de que Richard seria um presidente, não um cônser.
O pouco que descobri sobre as regras do conselho é que um cônser não pode renunciar seu cargo. Ele só sai do conselho se for expulso pelo próprio presidente, por invalidez ou por traição.
   Como previsto, não houve nenhuma melhora no quadro de Edmund Helvet. Ele continua respirando por aparelhos, num estado praticamente vegetativo, e o anúncio da morte dele é uma questão de tempo. Na DGJURC não se fala em outra coisa além do casamento de Richard e ele está me pressionando para que tudo saia o mais rápido possível. A pressa em relação a cerimônia é justamente pela exigência de que o próximo presidente já esteja casado quando assumir o poder. Há uma preocupação muito grande em gerar filhos e manter a linhagem Helvet.
Olho para Andrew rapidamente e nossos olhares se encontram.
É tão estranho chamá-lo de Andrew, sabendo que o nome verdadeiro dele com certeza não é esse.

"Então, como andam os ânimos com o casamento?" - Pergunto, mudando de assunto.

"A flor da pele."
  - Sarah afirma.
"A mãe da noiva está sempre dando visitas e tendo conversas particulares com Prudence Helvet."

   Prudence Helvet sempre me parece tão distante, porém seu nome aparece constantemente nas conversas alheias. Ela parece estar bem envolvida no meio disso tudo, - apesar de nunca ter colocado os pés na DGJURC - como uma sombra, um fantasma que ronda toda New Roman, observando, analisando e mexendo os pauzinhos por detrás das cortinas. Tenho quase certeza que as conversas particulares entre Anshelf e Helvet possuem ligação direta com a guerra.

Sinto os olhos de Andrew ainda em mim.
Sarah se despede e eu me viro, caminhando em direção a meu escritório, enquanto ele caminha em minha direção com ar casual, como se estivesse indo a sala do conselho, na extremidade do andar. Eu observo, de relance, sua mão esquerda fechada em um punho e agarro o papel que ele me passa logo quando nossos ombros se tocam.
Minutos depois, agachada na cabine privada do banheiro feminino, abro o papel amassado, lendo os dizeres com uma excitação crescente...

"Me encontre na Rua Direita, à noite, depois do "expediente". 

Ah, e faça o favor de queimar esse bilhete. 

                                                      - A. "



*
"Tem certeza de que esse lugar é seguro?"
    - Pergunto desconfiada. Andrew está sentado em minha frente, com os braços apoiados sobre a mesa, uma camisa de tecino fino e mangas compridas, preta, meio folgada, mas que ainda salienta seus músculos.
    Estamos num restaurante barato, de decoração simples e móveis velhos e desgastados. A luz é fraca, como se a lâmpada estivesse com defeito e as pessoas aqui não são como o resto do setor 1; elas parecem normais, relaxadas, e eu quase me sinto a vontade aqui.

"Se não fosse, não teria te trazido aqui." - Ele solta rispidamente. Eu lhe lanço um olhar de censura e ele suaviza a expressão;
"Sério, só existem três lugares como esse aqui em New Roman; livres de câmeras, sensores, scanners e espiões. Seu apartamento é um desses."

"E o outro é o seu, suponho."

"Fui informado recentemente sobre visitas suspeitas em Helvet House." - Ele começa, ignorando meu último comentário e indo direto ao ponto. - "Um homem e uma mulher, nos últimos três dias, no mesmo horário, sempre com uma maleta nas mãos. Na maioria das vezes quem os atende é a irmã de Richard, mas ontem, o próprio estava lá."

"Guerra?"
   - Pergunto e ele faz que sim com a cabeça.

"Nos últimos anos, Calanma tem se dedicado exclusivamente à guerra. Praticamente todos os assuntos confidenciais dizem respeito a isso. Por isso precisamos tanto de gente nossa infiltrada lá dentro."
    - Andrew afirma. Sua voz é baixa, quase um sussurro, cautelosa. Passo os olhos rapidamente pelo local e vejo que tudo está normal e as pessoas não nos nota.
 "O que eu quero dizer, Daphne, é que você precisa descobrir quem são aquelas pessoas e o que elas querem. Você é a única que pode entrar em Helvet House sem ser interrogada, pelo menos, até o casamento."

"Esse é o problema, Andrew." - Digo. - "O casamento vai ser amanhã."

"Você vai ter que ir para lá amanhã."
    - Ele diz, depois de um tempo em silêncio.
"Você é assessora dele, é aceitável e até preciso que o acompanhe até a cerimônia. Com certeza um carro vai estar pronto para te levar até lá e você pode ir mais cedo, alegando que não quer se atrasar. Vai haver pouquíssimo tempo para colher informações, mas eu quero que você faça tudo o que estiver a seu alcance."

Um leve tremor percorre meu corpo.
A possibilidade - muito grande, por sinal - do plano dar errado toma conta da minha mente. Se eu for descoberta eu posso ser torturada até soltar informações e depois assassinada. Como minha mãe foi.
A vibração do celular de Andrew me traz de volta a realidade.
Ele lê, de cenho franzido, a mensagem a mostra na tela do seu aparelho.

"Tenho que ir."
   - Andrew diz se levantando. Uma pequena quantidade de dinheiro é deixada na mesa. Eu o encaro confusa e ele me segreda...
"O presidente está morto."

   De repente, imagino Edmund Helvet, imóvel num leito de hospital, com os cabelos brancos desgrenhados sob o travesseiro e o som estridente do monitor cardíaco ao longe.
Observo fixamente enquanto Andrew se afasta a passos largos.
Então ele para e volta, como se tivesse se esquecido de algo, e sussurra em meu ouvido:

"A propósito, meu nome é Eric."