Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

17 de ago de 2014

Tormenta - Capítulo 4


Talvez eu tenha feito uma má escolha.
Talvez eu tenha feito uma péssima escolha.
É nisso que fico pensando quando um bando de soldados me escoltam para uma nave triangular no meio da noite. O vento gelado chicoteia meu rosto e o único som aqui são as botas dos homens que me seguem, calados e erguidos, sobre o piso polido, numa plataforma de vôo com no mínimo quarenta metros de altura. Dá para ver praticamente toda Pumi daqui de cima.
Mas a verdade, verdade essa que detesto admitir, é que estou com medo.
Eu passei sem problemas pelo detector de mentiras e estava realmente disposta a encarar a missão, só não pensei que fosse tão rápido e tão perigoso.
A nave pela qual estou sendo encaminhada vai parar no Núcleo de Mídia de Calanma, um prédio com a altura mais ou menos igual a essa, no meio do setor 1 da cidade de New Roman, praticamente no coração do país que fica do outro lado da fronteira. Eu terei que pular da nave em movimento e tentar invadir o prédio sozinha, com a ameaça eminente de ser pega, torturada e assassinada. Isso, é claro, sem contar com o fato de que posso errar na aterrisagem, o que seria, obviamente, uma morte certa.
Apesar da minha profissão não exigir isso, aprendi a escalar e pular de alturas gigantescas; essas atividades tinham sido uma distração, algo que eu fazia com o meu irmão, mas agora, minhas habilidades vão definir o meu sucesso ou o meu fracasso total.
Eu penso em parar, mas não posso. Fiz uma promessa a Illies, um acordo incapaz de ser desmanchado.
Então quando a porta me é aberta, eu entro, sem questionamentos.
Eu estou usando um macacão preto, sem mangas, botas de cano médio, sem salto e confortáveis, tudo isso para facilitar a corrida e escalada. No cinto, pequenos compartimentos onde são guardados objetos que vão me ajudar na invasão. Há também uma pistola Venas no coldre; esse é o tipo mais moderno de pistola disponível em Illies. É silenciosa, pequena e de fácil manuseio. Só no caso de uma emergência.
Quando penso que estamos partindo, a porta se abre novamente e Benedict passa por ela.
Ele está com sua velha expressão divertida, e o contraste é tão nítido entre sua calma e o meu nervosismo.



"Eu sabia que você iria aceitar."
    - Ele diz, presumido, se sentando numa poltrona de frente para mim. O acento parece minúsculo em relação ao tamanho do corpo dele.

"Seria muito herege da minha parte se eu dissesse que estou levemente arrependida?"
    - Solto e Ben gargalha, antes de tocar em meu ombro e dizer, repentinamente sério:

"Você vai conseguir. Acredito em você."

Não há barulho, nem balanço quando a nave decola.

     Tamborilo com os dedos nos meus joelhos durante praticamente toda a viagem. As naves se movimentam em alta velocidade, então não demora mais que meia hora para que se desloque de Pumi para New Roman. Benedict se levanta e aciona uns controles na cabine; um mapa em holograma aparece e ele diz:

"Estamos quase chegando, Daf."

Eu me levanto e me posiciono perto da porta. Nas aeronaves mais antigas, as portas costumavam ficar na lateral, porém nessas, as mais modernas, as portas são praticamente uma abertura no chão, como se estivesse formando uma imensa cratera retangular que te arremesa para o exterior.
   Eu fico de pé ao lado da porta, esperando que ela se abra, esperando o vento forte que se seguirá. Enquanto posiciono meu corpo para o salto, posso sentir os olhos de Ben em cima de mim.
Então as portas se abrem.
É numa fração de segundo que o vento desnorteante me toma, e eu me jogo para ele, em queda livre. A dor do meu corpo batendo violentamente contra o chão parece uma corrente elétrica; um estímulo e a reação que se espalha por todo o organismo.
Quando finalmente paro, ofegante, percebo que a aterrisagem foi um sucesso. Tenho arranhões nos meus braços e mãos, mas nenhum tornozelo torcido. Uma sensação de êxtase, como o efeito de uma droga, se alastra dentro de mim, e eu sorrio abertamente por perceber que ainda estou viva e bem.
Então eu me deixo ter um leve vislumbre da cidade de New Roman.
Estou no topo do NMC que parece ser ainda mais alto do que o local onde eu estava antes. O setor 1 é um punhado de prédios altos, torres com formas geométricas diversas e grama baixa, com estradas limpas e organizadas. Tudo está escuro e vazio agora, mas eu sei que de dia, esse local é infestado por um bando de gente com ternos e gravatas.
Então, de repente, um zumbido fraco em meus ouvidos me puxa de volta à realidade.