Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

19 de jul de 2014

Tormenta - Capítulo 1


O som do tiro é bem nítido, apesar do fone que protege meus ouvidos.
Eu treino tiro com arma de fogo desde a minha adolescência; tecnicamente, isso é apenas uma forma de me defender no meu perigoso trabalho, mas a verdade é que, internamente, eu sempre tive a vontade de matar alguém.
Alguém que, de preferência, fosse de Calanma.
Sempre fui ensinada de que não se deve matar pessoas, é feio e abominável, e eu também tenho a consciência de quem nem todos eles são culpados. A maioria são vítimas. Por isso mesmo optei por ser jornalista ao invés de simplesmente trabalhar para o exército. Parece mais heróico e menos sujo. Desmascarar os culpados e defender os inocentes.

"Bela pontaria."
   - Uma voz rouca e masculina exclama atrás de mim. Eu nem preciso me virar para saber que se trata de Ben, o meu quase irmão que se tornou soldado há pouco tempo. Eu digo que ele é um quase irmão porque mesmo que não tenhamos nenhum grau de parentesco, nós fomos praticamente criados juntos.
    A figura alta e musculosa dele masseia pela cabine com uniforme militar. Diferente do negro intimidador de Calanma, os soldados de Illies, usam o azul escuro. É uma bela cor. Para mim é como se significasse que a paz um dia reinará, mas antes precisa vir a tormenta.

"Hey, Ben."
   - Solto casualmente.

"Fiquei sabendo que a Central está de olho em você."
   - Ele diz com falsa displicência. Seu tom de voz é tranquilo e destraído, mas ele passa a mão pela sua cabeleira loira, desarrumando-a, o que é, claramente, um sinal de que ele está bem apreensivo quanto a minha resposta. Eu volto a minha atenção para o alvo em formato de boneco, com a cabeça perfurada.

"Não vou trabalhar para eles e você sabe disso."
   - Solto categoricamente. Ele decide abandonar sua máscara de displicência e se aproxima de mim, apoiando os ombros no vidro grosso e blindado da cabine.

"Por que não?"
  - Ben pergunta.

"É perigoso."



"Você nunca se importou com perigo."
   - Ele rebate, semicerrando os olhos para mim. Eu fico calada.
"Além do mais, você sabe, ficaria rica se trabalhasse na Central."

"Não quero ficar rica."

"Mas quer reconhecimento."
   - Ele solta e eu o encaro. Seus lábios formam um sorriso enviesado que é sinal de que sua frase obteve o efeito desejado.
"Pense nisso, irmã, seu talento não pode ser desperdiçado."

Então ele se afasta e quando já está com a mão na maçaneta, meu celular vibra.
Isso poderia ser um efeito corriqueiro, se não fosse pelo bipe de Benedict que toca, estranhamente, ao mesmo tempo que o meu. Eu observo ele observar o visor de seu aparelho, fazer uma careta de preocupação e ir embora.

"Jason."
   - Digo, ao atender, porque eu sei que se trata do meu colega da equipe de reportagem. Então ele não dá muitos rodeios e simplesmente diz:

"Vai acontecer um bombardeio daqui a 20 minutos na Alanka."