Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

26 de fev de 2014

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Epílogo

Estamos no enterro de Rachael. Beth quis que acontecesse em Londres, mas eu preferi aqui, no Brasil, em minha cidade natal. É justo que ela seja enterrada no lugar onde nasceu. Beth também não concordou muito em termos levado Alex para o velório, ela é meio resistente em relação a presença de crianças em lugares como esse.
É mais uma coisa que acho justo:
Alex ter a oportunidade de dar adeus a sua mãe.
Olho para ele, quieto no colo de Will, e o meu único desejo, talvez o maior de todos, é ser uma boa mãe para Alex e amá-lo como se fosse meu próprio filho.
Nós deixamos que se aproxime e toque o caixão, antes ser enfiado para debaixo da terra.
Você foi uma mulher incrível, Rachael. Penso e tenho que desviar os olhos para não chorar.
Will tem sido muito atencioso esses últimos tempos, e é a primeira vez que sinto que somos uma família.
Eu, Will e Alex.
Talvez venham outros para aumentá-la, mas isso só o tempo irá dizer.
 
  Eu me manti longe de toda essa coisa sobre a máfia, mas não pude deixar de saber que o plano de César deu errado. Eu deveria ser morta, não Rachael. Mas estou tão exausta, e acho que já fiz tanta coisa que o que eu quero é me manter, e manter minha família, longe de toda essa sujeira. Depois do enterro, seguimos para minha antiga casa, a casa dos meus pais, a pedido de Beth.
  Quando chegamos, há várias pessoas espalhadas pela sala. A maioria delas vem nos cumprimentar, nos lança olhares de pena e sussurram palavras de conforto. Eu não conheço quase ninguém aqui, mas ao que parece todos me conhecem, ou pelo menos, finge conhecer. Eu procuro por rostos conhecidos, e me sinto melhor quando vejo Marty caminhar em nossa direção, vestindo um terno preto muito bonito. Ele cumprimenta Will e Alex, me encara apreensivo e diz:

"Beth está te esperando na biblioteca, venha."
 
E eu o sigo pelos corredores tão familiares da casa.
A porta da biblioteca está trancada e Marty bate. Alguém pergunta quem é ele diz seu nome, e então, a porta é aberta.
Quando entramos, Beth, James e um homem que eu não conheço está nos esperando.
James lança um sorriso sincero ao me ver.
Depois do que aconteceu, viramos muito amigos, talvez porque compartilhamos a mesma dor.

"Liza, eu pedi que viesse aqui, por que há uma coisa que tenho que te entregar."
   - Ela diz e em suas mãos, há uma pequena chave. O homem que eu não conheço tira um quadro da parede e o cofre aparece, fechado, convidando a abri-lo e revelar seu segredo.
O ENIGMA.
Eu fico contrariada por saber que Beth foi atrás da chave, mas esse inferno não iria acabar se ela não fosse.
"É da sua mãe, portanto, é seu. Tem todo direito de abri-lo, se quiser."

Eu seguro a chave em meus dedos, caminhando lentamente em direção ao cofre.
Todos ficam calados, enquanto encaixo a chave e a giro, abrindo o cofre.
Há um envelope de papel amarelado lá dentro e eu o puxo para fora, hesitante.
O nome da minha mãe está lá, escrito numa linda caligrafia.
Tenho uma escolha em minhas mãos.
Eu posso abri-lo, e revelar o mistério que tanto querem saber.
O mistério que matou Alicia, Morgana, Jon, Nora, Thomas, Rachael e tantos outros.
Mas ao invés de rasgar a aba do envelope, eu caminho para perto da lareira acesa.
Eu ainda sustento a carta em minhas mãos por um tempo, antes de jogá-la no fogo.
Observo com atenção, como num ritual silencioso, as chamas engolirem e transformar o enigma em cinzas.
E no final das contas, eu me sinto melhor.
Sorrio ao constatar que não só aprendi, como coloquei uma lição em prática;
Há coisas que são melhores se a gente nunca saber.

FIM