Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

26 de fev de 2014

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 37

LIZA
Eu me viro e corro, não me importando se vai chamar a atenção dos soldados ou de Nora. Eu espero barulho de tiros, mas o que se segue é um tremor no chão e uma pressão que me joga para longe. O barulho ensurdecedor da explosão zuni nos meus ouvidos e a sensação é de os meus tímpanos vão se romper, ao mesmo tempo que sou arremessada contra o chão. Meu corpo se choca com força no solo e a dor se espalha como uma corrente elétrica pelo meu corpo. Eu mantenho os olhos fechados por muito tempo, incapaz de ver o estrago à minha volta. Minha cabeça lateja e só consigo abrir os olhos quando uma mão toca meus ombros e um braço envolve minha cintura. Will.
Eu toco o seu rosto e me forço a me sentar, apesar da dor, e examiná-lo em busca de algum ferimento.

"Will?! Você está bem?! Está ferido?!"
    - Pergunto, minha voz soando desesperada.

"Calma."
   - Ele diz tranquilamente.
"Eu estou bem, vamos sair daqui."

"Rachael,"
   - Sussurro.
"Onde ela está?"

Nós olhamos em volta e ela está lá, perto de mim, se mexendo no chão, o rosto contraído pela dor. Eu levanto com certa dificuldade e vou até ela, tentando ajudá-la.

"Você está bem?"
   - Faço a pergunta mais estúpida, e ao mesmo tempo, mais comum, que uma pessoa faz nessa situação.

"A gente..."
   - Ela diz, se apoiando no meu ombro.
"A gente tem que sair daqui."
 
  Rachael olha para trás antes de ir, e o armazém está lá, em chamas, enquanto há vários corpos mutilados em toda a extensão do local. É como um filme de terror, com pedaços de madeira e metal cravadas no corpo sangrento dos mortos.
Há o corpo de Thomas também, com as chamas o consumindo, e eu me forço a olhar para frente e prosseguir.
Então ouço o som de tiros.
Vários deles, atingindo soldados Hansson que acabaram de se levantar.
Nós corremos para os carros.
Estamos quase nos aproximando deles, quando Rachael para de correr.
Eu olho para ela, e meus olhos vagam de seu rosto contorcido para sua camisa manchada de sangue.
Droga.


"Will, ela foi baleada!"
    - Grito para ele em meio aos tiros. Will olha para ela e passa o braço em sua cintura. A perna de Rachael dobra e ela está quase perdendo a consciência. Ele a carrega e me diz:

"Vai pro carro."

Tento correr, mas sinto uma pontada no meu tornozelo.
Ignoro a dor e abro a porta do fundo do carro, onde Will põe Rachael semi-desacordada.

"A estrada está bloqueada."
   - Digo assim que entro no banco da frente, fazendo uma careta de desgosto.

"Antes aqui dentro do carro do que no tiroteio lá fora."
   - Will diz. Então nós olhamos para Rachael, que respira com dificuldade. A mancha de sangue em sua blusa fica cada vez maior. Estico meu braço e seguro sua mão. Ela retribui o aperto, mas a ponta dos seus dedos está gelada.

"Ela está perdendo sangue, Will."
   - Sussurro.

Will procura alguma coisa no carro, então consegue encontrar um estilete de lâmina enferrujada. Ele se move para perto de Rachael e com dificuldade, consegue rasgar sua blusa. O ferimento aparece bem embaixo do seus seios.

"Foi a queima roupa."
   - Will diz, tirando a camisa. Eu observo enquanto ele pressiona o tecido com cuidado no ferimento, tentando estancar o sangue.
"Quem atirou, atirou tentando matá-la diretamente."

"Liza"
   - Rachael diz num fio de voz.
"Eu queria ter mais tempo para te dizer isso, mas... Me perdoe. Me perdoe por ter não te contato sobre Alex e sobre outras tantas coisas que já escondi."

"Shhh."
   - Solto.
"Não precisa, não agora."

"Precisa sim. Se não for agora não será em momento algum."
   - Ela retruca.
"Eu só queria dizer que..."

Então ela fecha os olhos e uma lágrima escorre pelo seu rosto.

"Escuta, eu te amo, Liza."
   - Ela diz finalmente.
"E pode não parecer, mas eu sinto muito mesmo por tudo o que eu te causei."

"Rachael..."
   - Começo, mas ela me interrompe.

"Eu queria que fosse diferente... que pudéssemos ter uma vida normal, mas..."
   - Ela diz com a voz embargada. Então, ela para, sorri, respira fundo como se quisesse sugar todo o ar que conseguisse e fala com a voz mais firme:
"Eu sabia que uma de nós iria morrer no final, e desconfiava que talvez fosse eu."

Ela toma mais fôlego e eu sinto as lágrimas quentes inundarem meus olhos.

"Olha, diz pro James que ele é o Hansson mais adorável que já conheci..."
   - Ela diz, depois solta um risinho e eu rio junto.
"Diz também que eu o amo."

Eu aceno com a cabeça.
Ela move sua mão e aperta a mão de Will.

"Quanto a você e Liza... quero que sejam felizes, mais felizes do que eu jamais fui um dia... quero que cuide do Alex também, ok?"
   - Ela diz e eu tenho limpar as lágrimas que escorrem no meu rosto.

"Não precisa se despedir."
   - Digo com a voz embargada.
"Você não vai, você vai ficar aqui e vai ter tempo suficiente para dizer ao James que o ama quantas vezes quiser."

"Eu queria que fosse assim."
   - Ela diz.

"E será."
   - Rebato. Outra lágrima escorre em seu rosto.
Então alguém bate na janela do carro, e um James desesperado está lá fora.
A porta de trás é aberta e seus olhos angustiados voam para o ferimento de Rachael. Então ele se inclina para ela e os dois se beijam, um beijo desesperado e doloroso como uma despedida.
Meu coração se aperta ao ver isso.

"Eu te amo."
   - James sussurra, próximo ao seu rosto, seus olhos umedecidos.

"Eu também."
   - Rachael sussurra de volta e sorri.
Ela solta a minha mão e a desliza sobre o rosto de James.
Então seus olhos se fecham, e seu braço cai como um peso morto.
Os olhos de James se arregalam em desespero.

"Rachael?"
   - Ele chama. Nenhuma resposta. Ele eleva a voz:
"Rachael!"

E o que se segue é James balançando o corpo de Rachael desesperadamente, gritando seu nome.
Viro o rosto porque não aguento ver essa cena.
Rachael.
Minha irmã acaba de morrer no fundo do carro no meio de um confronto entre Vaccaris e Hanssons.
   O monstro da dor surge em meu peito e vai apertando minha garganta, fazendo meus olhos lacrimejarem. As imagens passam pelos meus olhos como um filme dentro da minha cabeça. Os aniversários de Rachael, as risadas, os passeios... olho pelo retrovisor do carro e James ainda está lá, chorando sobre o corpo da minha irmã enquanto Will tenta acalmá-lo.
*
Estou num leito de hospital. É estranho, porque ele me parece tão diferente e familiar ao mesmo tempo.
O corpo de Rachael ainda está fresco em minha memória.
E isso me deixa vazia.

Will entra no meu quarto de repente, me olhando com a expressão preocupada. Eu estendo a mão para ele, um gesto que o encoraja a se aproximar.
Ele se deita no meu leito e rodeia os braços à minha volta e eu me aninho em seu peito. Nós permanecemos muito tempo assim, calados, até que eu crio forças para perguntar:

"O que aconteceu comigo?"

"Depois que a Rachael morreu, você desmaiou."
   - Ele diz. A palavra "morrer" aumenta a dor, como uma ferida magoada.
"Mas a médica disse que não há nada de grave em você, apenas um tornozelo torcido."

Olho para meus pés.
Só então percebo que meu tornozelo direito foi engessado.

"Como vamos dar a notícia para o Alex?"
   - Faço outra pergunta. Will me encara, arqueando uma sobrancelha.

"Nós?"
  - Ele pergunta, ainda desconfiado por eu ter falado no plural.
 Eu sorrio e roço meus lábios nos seus em resposta.
Nós.
É a única certeza que tenho agora.