Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

26 de fev de 2014

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 36

LIZA
"Está surpresa em me ver?"
   - Nora pergunta, alargando o sorriso. Consigo vê-la nitidamente agora, na entrada do armazém. Reflito sobre sua pergunta e percebo uma coisa:
Eu não estou surpresa.
Pelo menos, não como deveria estar.

"E essa deve ser Rachael Vaccari, a tão falada filha do César."
    - Ela continua, e eu posso ver o rosto de Rachael se contrair em confusão. Começo a praguejar internamente; eu estava planejando um dia contar isso a ela, mas não agora.
"Oh, Liza não te contou?"

"Liza?"
   - Rachael pergunta, olhando para mim, sua testa franzida em aborrecimento. Ela odeia ser a última a saber das coisas, principalmente se essas coisas dizem respeito a ela. Rachael pausa, e eu viro o rosto, incapaz de encará-la. Ela insiste:
"Liza, do que ela está falando?"

"Somos filhas de pais diferentes, Rachael."
    - Solto, depois de alguns segundos em silêncio, ainda sem encará-la.
"Eu fiquei sabendo disso há pouco tempo e é uma história longa, mas eu iria te contar, eu juro."

"Me contar quando? Quando você decidisse me perdoar por não ter te contado sobre Alex?"
  - Ela passa na minha cara. Eu não a perdoei, não deixei que se explicasse quando descobri sobre o seu filho com Will, mas agora quero que ela me entenda, que me deixe explicar porque eu escondi isso dela. Eu nunca tive nenhum compromisso com Will, nós não eramos namorados naquela época e pensando bem, a Rachael não me devia uma explicação no final das contas. Ela seguiu sua vida, e com certeza devia ter motivos para ter feito o que fez, mas quanto ao seu verdadeiro pai... não importa nossas diferenças, era direito dela saber disso.


"Acho que estamos kits agora."
   - Digo, minha voz soando fraca e envergonhada.

"Quem é César?"
   - Rachael pergunta, se voltando para Nora e me ignorando. Nora, que sustenta um sorriso debochado desde então.

"Ele é só o principal inimigo daquele que você chamava de pai, princesse."
   - Ela responde e de repente, seu sotaque francês me irrita profundamente.

"Então ele o matou, certo?"
 
"Não exatamente."
   - Nora diz, com ares de mistério.
"Na verdade, ele apenas facilitou as coisas."

"Então quem matou Tony e Jennifer Vaccari?"
   - Rachael pergunta. Nora, que tinha dado as coisas para ela se volta e diz:

"Ainda não percebeu, Rachael?"
   - Então Nora dá uma breve pausa, antes de continuar:
"Olhe a sua volta. Lembre o que acabou de acontecer aqui. A resposta está bem diante dos seus olhos."

"Você."
   - Rachael solta. O sorriso de Nora se alarga ainda mais.

"É impossível."
   - Digo, as duas voltam seus olhares para mim.
"Você é muito jovem para tê-los matado."

Então, no instante seguinte, Nora solta uma gargalhada musical.

"Ma pauvre princesse, eu sou dois anos mais velha que você."
   - Nora solta.
40 anos.
Como eu não desconfiei que ela parecia mais velha para sua pseudo-idade? Minha mente gira e tenho várias perguntas ainda não respondidas, mas a única coisa que consigo dizer é:

"Por que?"

"Você ainda pergunta?"
   - Nora rebate. Eu não respondo. Ela respira fundo e começa, depois de algum tempo em silêncio:
"Quer saber como tudo aconteceu? Seus pais eram amigos da minha família. Eles tinham comprado uma bonita casa na nossa rua aparentavam ser os melhores vizinhos do mundo. Eu tinha 12 anos na época e minha irmã, Roxane, tinha 13; ainda me lembro de seu nome... enfim, eles disseram que tinham acabado de se casar e estavam em lua de mel, e pareciam pessoas inofensivas, na verdade, todos os psicopatas parecem. Iam jantar na nossa casa, comemorou o natal junto com a gente e tudo parecia perfeito quando o Tony convidou a mim e a Roxane para passar uns dias numa ilha. A propósito, meu nome verdadeiro é Adeline. Nós duas fomos estupradas nessa ilha e quando ele descobriu, ao invés de nos dar apoio moral, de nos levar para casa, ele nos levou para aquele inferno que se chama Brasil..."

Todos nós permanecemos calados e por um instante, eu me esqueço de que há soldados Hansson e Vaccaris por todos os lados.
Vaccaris.
A única coisa que impediu os Hansson de atirarem nela.

"Minha irmã entrou em depressão. Se negava a comer e beber e eu tive que assistir ela morrer aos poucos... Você não sabe como foi horrível vê-la daquele jeito, apanhando ainda por cima, dos clientes e dos cafetões. Ela passou a fumar, beber e usar muita droga. Até que um dia ela foi encontrada morta dentro do quarto, com uma seringa na mão. Overdose. Tenho certeza que foi proposital. Roxane já tinha perdido a alegria de viver há muito tempo."
   - Nora continua, e eu posso ver a dor refletida em seus olhos. Dor que se transformou em mágoa. Mágoa que se transformou em fúria. Fúria que levou a destruição.
"Quando ela morreu eu jurei que me vingaria. Passei a me arrumar, cuidar da minha aparência, tratar melhor os clientes e o meu preço aumentou; passei a ganhar muito dinheiro, fazer programa com gente poderosa, e então comecei a tramar minha vingança. Eu tive a ajuda dos Hansson, aquele capanga que você pegou, Jack, eu o conhecia. Não tive contato direto, mas sabia que ele estaria dentro da missão. Eu seduzi um dos Hansson e o induzi a cometer o assassinato."

"Mas e a Morgana?"
    - Rachael pergunta.

"Simples. Eu sabia que os Hansson estavam em guerra com os Vaccari, e foi por isso mesmo que eu os quis. Para a falar a verdade, eu fiz um favor a eles matando os seus pais. Tony tinha matado o marido da Morgana, explodindo aquele casa deles. Meses depois foi assassinado por capangas que trabalhavam para os Hansson. É lógico que todos iriam desconfiar dela e ela aceitou isso, até porque, ter matado o líder da mafia inimiga te dá prestígio, faz com que os outros tenham medo de você."
 
"E onde o César entra nessa história?"
   - Pergunto.

"Ele me levou até os caras que eu precisava convencer para que o assassinato acontecesse. O César é o único Vaccari que eu não odeio, de verdade. Ele me ajudou a matar o Tony e sempre está lá quando eu preciso de alguma coisa, ele é atencioso comigo, ele me entende."
   - Eu tento encontrar o sarcasmo em sua voz, mas não acho. Então examino seu rosto melhor e percebo, com espanto, que ela realmente acha que o César é uma boa pessoa. César foi o verdadeiro responsável, César sempre esteve por trás da morte dos meus pais, dos ataques, do assassinato da Alicia... Nora é apenas um fantoche; ele só precisou alimentar sua raiva, seu desejo de vingança para que ela fizesse o que ele queria.
Algo se encaixa em minha mente.
Eu também fui um fantoche de César.
Eu nunca o conheci, mas a minha fúria, o meu desejo de destruir os Hansson o favoreceu, de alguma forma.
Thomas Hansson está morto.
E como eu não tenho mais utilidade, ele mandou Nora vir me matar.

"Espera."
   - Rachael solta, de repente. Ela se aproxima lentamente de Nora, que aponta a pistola para ela imediatamente.
"Era você que estava no meu consultório naquele dia."

Nora desvia o olhar.
Segue-se um longo silêncio, até que ela responda:

"Sim, era eu."

"Porque estava lá?"

"Por causa do enigma."
   - Nora diz e Rachael levanta uma sobrancelha.
"Sua mãe escreveu uma carta, pouco tempo antes de morrer. Havia algo de muito sinistro nela, uma revelação que eu não sei qual e ainda não entendo porque o César queria tanto isso. Enfim, o que eu sei é que a Jennifer guardou a tal carta num cofre em sua casa no Brasil e engoliu a chave. Dois dias depois, ela foi morta."

"Tá, mas o que isso tem a ver com o meu consultório?"
   - Rachael pergunta impaciente.

"O que eu levava comigo era um sensor de metal."
   - Nora responde.
"Eu fui no seu consultório, porque, de alguma forma que eu não sei qual, a ossada dos seus pais foi parar nas paredes da sua sala."

Rachael não reage.
Ninguém tem uma reação muito perceptível, apesar do baque ser forte.
Nora continua:

"Há algo de muito louco nisso. Eu não faço a mínima ideia de como ossos de uma pessoa morta 25 anos atrás no Brasil foi parar nas paredes de uma clínica de psicanálise no centro de Londres, mas, só sei que César, Thomas e Beth querem e muito, essa chave. Essa carta é chamada de O ENIGMA, porque ninguém sabe o que está escrito nela, e ninguém poderá saber, apenas a pessoa que estiver com a chave do cofre em suas mãos."

"A minha mãe fala sobre essa carta no diário?"
    - Pergunto, tentando encaixar as peças deste quebra-cabeça.

"Sim."

  Nora continua falando, mas sou incapaz de lhe dar ouvidos agora. Aperto os olhos, tentando conter o avalanche de ideias e suposições que tomam conta da minha mente. Era por isso que o diário era tão perigoso. O diário poderia me levar até a chave, que consequentemente me levaria até o enigma. Durante todo esse tempo César esteve me monitorando, seguindo os meus passos, esperando que eu acabasse com os Hansson ou os Hansson acabassem comigo. Eu entrei em coma, saí e comecei a cavucar o passado da minha família, e isso despertou sua atenção. César não queria que eu estivesse com o diário, porque o diário me levaria até ele. E quanto a sua filha? Ele tinha algum plano para Rachael, ou só a deixaria morrer pela mão dos Hansson? Porque os ossos e a chave do cofre foram justamente para seu consultório? Eu acho que são algumas perguntas que possam ser respondidas através dessa carta, ou não.
Mas então eu olho para Rachael e ela está se afastando gradativamente do armazém.
Eu ainda não entendo muito bem o que ela quer recuando, mas quando olho para frente, lá longe, há a ponta de algum objeto muito grande e metálico para fora da vegetação.
Espremo os olhos para ver melhor, e me coração perde um batimento, quando percebo do que se trata.
Uma bazuca.
César vai terminar o serviço.