Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

26 de fev de 2014

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 35

RACHAEL
Quando o sol nasce, sinalizando o início do dia seguinte, eu já estou há alguns poucos quarteirões da sede dos Hansson. Beth me alertou pelo fone de que não devo ir diretamente para a sede e sim, ficar nas proximidades do local até me pegarem. Eu encontro algumas pessoas pela rua que me encaram com espanto referente ao meu estado. Eu não sei como serei tratada agora, mas procuro não me focar nisso, apenas no que eu tenho que fazer...
   Eu viro uma esquina, me sentando na calçada. Me encosto numa parede, observando os carros passarem e cogitando a ideia de que talvez eu devesse cochilar aqui até que eles me peguem. Eu me sinto cansada, e suja, como se eu tivesse mergulhado numa montanha de lixo. Meu corpo está dolorido e eu começo a memorizar um bom banho de banheira, uma cama macia e confortável, numa casa silenciosa e limpa; é tudo o que eu queria agora, então eu finjo que é verdade e fico sonolenta. Meus olhos se fecham gradativamente e quase mergulho para o subconsciente quando um barulho de carro se expande e vem em minha direção, me trazendo de volta à realidade. Não me movo um centímetro, observo o carro parar e dois homens sair de dentro dele.
  Um deles usa um tapa-olho e quando se aproxima, percebo que seu rosto é familiar. Fred. Ele me olha da cabeça aos pés, seu rosto contraído em desgosto.

"É ela."
   - Ele diz.

"Olhe só para seu estado..."
  - O outro diz, e eu o reconheço pela voz. Edward. Uma resposta ácida me vem a mente, mas tenho preguiça de dizê-la. Ele me cutuca com o pé e pergunta:
"Rachael? Está acordada?"

"Não, pelo contrário, estou num sono profundo."
   - Solto, minha voz carregada de escárnio. Edward rola os olhos e Fred torce a boca avermelhada.

"Vamos, leve-a."
   - Fred diz, dando as costas para mim logo em seguida. Edward se aproxima e passa o braço pela minha cintura, me forçando a levantar. Meu braço vai para o seu ombro e ele está quase me carregando, como se eu fosse uma inválida, porém, não tenho ânimo para objetar.
  Estou quase entrando no carro quando lembro do que Sharon disse. Liza deixou Fred cego de um olho. Contenho a risada histérica que se forma em minha garganta.

"Oh Fred, o que aconteceu com seu olho?"
   - Pergunto, incapaz de conter a provocação. Ele me lança um olhar fulminante, e um sorriso satisfeito se espalha em meu rosto. Posso ouvir a risada abafada de Edward atrás de mim antes de ser praticamente empurrada para o banco de trás.

  Ninguém diz mais nada durante toda a viagem e eu aproveito o pouco tempo que tenho longe de Thomas para repassar mentalmente as instruções de Beth. Não foram muitas, na verdade. Eu já estou sendo levada para a sede, então só o que tenho que fazer é induzir Thomas a realizar a minha execução em área aberta. Tento relaxar me convencendo de que a oportunidade para fazer isso vai chegar, de uma forma ou de outra.
  Quando sou escoltada para a sala de Thomas, me lembro da primeira vez em que vim para cá, com todos os planos e estratégias para acabar com ele. O fato é que tudo o que eu fiz deu certo porque não consegui uma coisa vital para que meu plano fosse bem sucedido: a confiança do chefe. Mas, agora estou com Beth e o que ele não sabe é que, pode não parecer, mas entrei neste lugar novamente mais forte do que antes.


E então, as portas de seu escritório se abrem e os olhos de Liza e James me encaram, espantados.
Eu devo estar horrível mesmo.
Mas, por mais que aquele acidente com o carro tenha me machucado, ninguém aqui está pior que James.
Meu coração dói, como se estivesse sendo atingido por uma adaga.
Foco, Rachael, você não vai conseguir salvá-lo se lamentando.
Meus olhos voam para Thomas e ele tenta esconder, mas eu sei que está nervoso.
As coisas estão saindo do controle, né?

"Rachael."
   - Ele diz.

"Olá, chefe."
   - Eu digo a mesma frase que aprendi a repeti por várias semanas. Só que a diferença é que o sarcasmo está lá, bem nítido, na forma como eu pronuncio a palavra 'chefe'.

"Sente-se."
   - Ele diz. Eu me sento.
"Fico feliz que esteja aqui, justamente no momento em que terei uma conversa com sua irmã."

Olho para Liza, esperando um olhar no mínimo indiferente.
Mas a forma como ela olha para mim me surpreende, sem raiva, sem ressentimento, a testa franzida e o olhar que transmite algo como... remorso. Mas, por quê?

"Ultimamente, um objeto de grande valor tem causado reboliço por essas áreas."
    - Thomas continua, e me forço a focar minha atenção nele.
"Vocês provavelmente já sabem que os Vaccari estão em guerra por conta desse tal objeto."

Os Vaccari estão em guerra entre si.
Olho para Liza e seus olhos me dizem que ela sabe disso e muito mais.
O remorso em seu olhar se torna cada vez mais palpável.
Me viro para Thomas, esperando ansiosamente que ele diga qual é esse objeto.

"O diário de Jennifer Vaccari."
   - Ele diz, acompanhado de um suspiro. Meu coração perde um batimento. Minha mãe tinha um diário. E a Liza sabia disso. Thomas olha para mim e depois para ela, antes de dizer:
"Eu sei que ele estava com você, Liza."

Controle-se. 
Pense. 
Use isso a seu favor.

Olho de soslaio ao meu redor. Há vários soldados com armas apontadas para nós. Liza sabe onde está o diário. Thomas quer ele por alguma razão.

"Agora, diga-me, onde ele está?"
    - Thomas diz pausadamente, enquanto encosta uma pistola na testa de Liza. Ela está muda, imóvel. Só agora consigo entender seu remorso; Liza sabia da existência do diário, estava com a única coisa, a única parte dos meus pais que ainda restou, mas eu nunca fiquei sabendo de nada. USE ISSO A SEU FAVOR!!!! a voz da consciência soa na minha mente como um comando, uma ordem. Como Beth.

"Eu sei onde está o diário."
   - Minto. Todos me encaram, espantados. Continuo com a mesma postura quando o olhar glacial de Thomas para em mim.

"Como?!"
   - Ele solta.

"Você mais do que ninguém deve estar ciente das minhas saídas misteriosas."
   - Digo.
"Como não foi capaz de desconfiar que eu poderia estar com o diário em minhas mãos?"

"A senhorita poderia me explicar como ele foi para suas mãos, se até onde eu sei ele estava com Liza?"
   - Thomas pergunta, entre dentes.

"Você disse certo: estava."
   - Respondo. Então, dou de ombros antes de dizer:
"Eu o roubei."

Thomas olha para Liza, seus olhos exigindo uma explicação.
Vamos Liza, dê suporte a minha mentira. 

"Faz um tempo que eu não conseguia encontrá-lo, mas eu não sabia quem tinha pego, eu pensava que tinha sido a Beth."
   - Liza diz e eu sinto alívio em ver que ela apoiou minha mentira. James olha para mim fixamente; seus olhos me perguntam 'o que você está aprontando?' e eu me seguro para não sorrir.

Thomas se afasta e caminha pela sala, calado.
Então ele se aproxima, e de repente, dá um soco forte em sua mesa.
Me assusto com seu repentino - e o primeiro que já vi - ataque de fúria.

"Onde ele está?!"
   - Thomas vocifera.

"Acha que sou burra?"
   - Pergunto. Ele cerra os olhos, seu maxilar travado.
"Eu digo onde ele está e você nos mata aqui mesmo. Não. Eu vou levá-lo até o local."

"Por que?"
   - Ele pergunta, entre dentes, contendo sua vontade de me estrangular.

"Porque eu quero."
   - Digo.
"Então, ou você aceita minha condição, ou me mata aqui mesmo e jamais saberá onde está o diário."

Ele se cala por uns instantes, dirigindo um olhar analista para mim, Liza e James.
A sala fica em silêncio.
São longos os segundos que se passam até que ele diga:

"Amanhã."

LIZA
Hoje é o dia do nosso assassinato. Eu ainda não sei, não faço a mínima ideia do que Rachael queria mentindo para o Thomas. Quando ele nos encaminhou para nossas celas, nós duas trocamos olhares no corredor. Olhares fraternos, olhares que passavam confiança e diziam 'ainda estamos juntas nessa'. Eu passei a acreditar que ela tem um plano a partir dali, percebi que ela não iria se render, apesar de tudo estar dizendo que era o nosso fim. Depois, Rachael foi levada para uma cela individual, longe daqui, onde ela não teria contato com ninguém, a não ser com os soldados de Thomas.
   Eu não conversei com James quando voltamos. É uma espécie de voto de silêncio esse que estamos fazendo, porque desde aquela conversa ninguém disse mais nada, nem os soldados, nem nós. Hoje fomos alimentados, tiraram nossas algemas e fomos levados por capangas desconhecidos. Nós descemos várias escadas e passamos por vários corredores, até sair do prédio. Olho tudo ao meu redor. O dia está ensolarado e parece que se passaram décadas em que estive dentro daquela cela. Há dois carros nos esperando. James entra em um e eu em outro, e assim seguimos o caminho onde supostamente estaria o diário. Então, quando já estamos próximos do nosso destino, um pensamento me toma: e se esse plano da Rachael der errado de novo?

O local onde Rachael nos levou é uma espécie de armazém abandonado. Não há casas ou qualquer tipo de construção perto daqui. Só há mato e uma estrada de terra pela qual entramos. Olho ao meu redor. Não há sinal de ninguém por aqui, somente nós. Thomas e Rachael estão lá, na entrada do armazém. Olho para o lado direito. Um quarto carro está estacionado ali. Um dos capangas de Thomas sai e abre a porta de trás. Então, Will é puxado para fora.
Nossos olhares se cruzam.
Contenho o impulso de ir até ele.
Will está com poucos hematomas, mas tem o rosto cansado e sua barba está maior.
Thomas vai aproveitar o local para matar todos nós de uma vez.

"Então, Rachael, estamos todos aqui, como solicitou."
   - Thomas diz, muito mais calmo e controlado que da última vez. Na verdade, ele age como se aquela última vez nunca tivesse acontecido.
"Vai ou não nos mostrar onde está o diário?"

"Vou."
   - Rachael diz.
"Mas antes, eu quero lhe fazer uma pergunta."

Thomas suspira.

"Fale."
   - Ele diz.

Segue-se um longo silêncio.
Rachael baixa a cabeça por uns instantes, e quando a levanta, seu rosto deixa transparecer - como nunca deixou antes - a dor.

"Foi você que matou os meus pais?"
    - Ela pergunta finalmente.

"Porque isso agora?"
   - Ele rebate.

"Eu sei que vou morrer no final de tudo, mas..."
   - Ela solta, faz uma pausa e continua, sua voz mais firme:
"Eu preciso ter a certeza que estava certa sobre você."

"Ter matado ou não seus pais não me faz uma pessoa melhor ou pior."
 
"Eu sei, mas eu preciso saber que você foi o responsável, que você foi a causa de tudo, que você sempre esteve por trás, o tempo todo..."
 
Thomas não responde.
Ele fica calado, assim como todos nós, observando Rachael atentamente.
A agonia vai crescendo dentro de mim e eu tenho vontade de gritar para ele dizer o que está pensando.
Mas o que acontece em seguida, não é um 'sim' ou um 'não' dele.
É um barulho de um tiro certeiro que atravessa o peito e mancha a camisa branca de Thomas Hansson.

Os soldados apontam suas armas para o som do tiro e Rachael levanta as mãos, mostrando que não foi ela a responsável por essa bala. O corpo de Thomas jaz no chão, morto, imóvel, inofensivo. Há um som de passos em nossa direção, passos tranquilos, nem acelerados, nem lentos.
Os soldados continuam avançando, sem se importar mais com seus prisioneiros.
Então outro barulho lhes chama a atenção.
Carros, muitos deles, um atrás do outro vai tomando conta da estrada e nos cercando.
Vários homens saem de dentro, armados com metralhadoras e escopetas.
Eu sei que são Vaccaris.
Mas não sei se são de Beth ou de César.

Volto a minha atenção para dentro do armazém, e um corpo feminino vai tomando forma entre a escuridão. Ela vai se tornando cada vez mais nítida e de repente, eu percebo que conheço aquele modo de caminhar.
Os soldados dividem sua atenção entre os Vaccari e a mulher com a pistola na mão que carrega um sorriso malicioso.
Eu mal posso acreditar no que estou vendo.
Tento fingir que não é ela, mas não resta dúvidas quando sua boca se abre numa voz melodiosa, dizendo:

"Olá, chérie."