Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

22 de fev de 2014

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 34

RACHAEL
Eu espero, encostada na parede, alguns metros longe do corpo de Sharon. Estou tentando limpar o sangue em minhas unhas com uma pequena lasca de madeira que encontrei na pista. Examino meus braços; há arranhões nos cotovelos e em toda extensão dos meus braços até quase um palmo de distância dos meus pulsos. Os ligamentos dos meus dedos também estão machucados, com manchas vermelhas. Há machas de sangue e terra na minha blusa branca e meu cabelo com certeza deve estar bagunçado, mas eu paro com minha autoavaliação quando ouço o barulho de um carro vindo em minha direção. Os faróis estão ligados e ele para a alguns metros de mim. Três pessoas saem do carro. Dois homens, provavelmente armados, e uma mulher. Beth.

"Posso saber o que aconteceu aqui?"
   - Ela pergunta ao se aproximar de mim. Eu não me abalo com o tom contrariado de sua voz.

"Porque não verifica por si mesma?"
   - Respondo, acenando para a direção onde deixei o corpo de Sharon.

  Ela caminha até Sharon, olhando para o seu corpo cheio de hematomas, o ferimento a bala em sua cabeça e a poça de sangue que foi feita em volta dela. Seus olhos percorrem o local, as marcas deixadas pelos pneus na estrada e o penhasco. Ela se aproxima dele e observa o carro destruído e em chamas lá embaixo.


"Com certeza você deve ter um bom motivo para ter feito todo esse estrago."
   - Beth diz, aguardando por uma explicação.

"Ela queria me matar."
   - Começo. Beth me encara.
"A ordem era me levar para o Thomas, mas ela estava tão louca de raiva que decidiu me matar aqui mesmo, então, tive que tomar providencias."

  Beth solta um longo suspiro, se aproxima novamente e toca meu rosto, examinando meus ferimentos.

"Onde está a arma?"
   - Ela pergunta, a voz mais suave dessa vez. Puxo a pistola para fora da calça e estendo para ela, que faz um sinal com a mão e diz:
"Guarde."

Levanto uma sobrancelha.

"Você vai seguir sozinha até a sede dos Hansson, exatamente do jeito em que está e seguir o plano original, lá dentro."
    - Ela explica, então põe a mão no bolso e me entrega uma quantidade razoável de dinheiro.
"Pra viagem. Qualquer outro imprevisto, me comunique imediatamente. Agora, por favor, tente não arranjar confusão e não matar mais ninguém, sim?"

Eu não respondo, mas não é preciso, porque não demora muito para que Beth entre em seu carro e ele se vá pela estrada.

LIZA
Dou algumas mordidas no pão dormido que foi deixado em minha cela. James está recebendo a mesma quantidade de comida e água, na mesma frequência que eu. Um copo d'água e um pão velho, um dia por semana. Essa é a forma que Thomas nos mantém vivos. Eu fui arrastada para a minha cela novamente depois daquele comunicado. Rachael Vaccari foi encontrada. Eu escondi essa informação de James. Ainda não consigo crer que ela possa ter deixado ser pega assim, tão rápido.
  Um dos capangas entra como um furacão pelo corredor, arrancando um pequeno susto de mim. O cego de um olho novamente. Ele parece furioso, seu maxilar travado e os pulsos cerrados; mau sinal.

"Você!"
   - Ele exclama, me fitando com raiva. Ele avança a passos largos para minha cela, mas um dos capangas que guarda o local o segura pelo braço.

"Você não tem autorização."
   - Um deles diz, severo.
     Ele hesita, olha para mim e depois passa os olhos pelo lugar, antes de dizer:

"Não vou tocar nela."

  O capanga que guarda minha cela ainda hesita, mas depois o solta e abre a grade.

"Nossa, quanta agressividade, acordou de mau humor hoje?"
   - Solto, com escárnio. Seu rosto se contorce em desgosto.

"Sem gracinhas."
   - Ele sibila, seu dedo apontado para o meu rosto.

"Ok, ok."
   - Digo, levantando as mãos em sinal de rendição.
"Posso saber pelo menos o porquê de toda essa revolta?"

"Sua irmã."
   - Ele solta, antes de praguejar em voz alta:
"A sua maldita irmã!"

"O que ela fez dessa vez?"

Ele caminha de um lado para o outro, nervoso como um animal enjaulado.

"A gente encontrou o corpo da Sharon numa estrada. Ela tava muito machucada e com uma bala na cabeça, e não adianta negar, eu sei que foi a Rachael!"
   - Me mantenho calada, observando ele entrar em colapso por causa da morta dessa tal Sharon. Ele se agacha e põe as mãos no rosto por um bom tempo, depois as esfrega pelos cachos loiros e levanta. Então ele me encara, a angústia em seu rosto vai dando lugar a raiva e ele solta:
"Se eu pudesse, a mataria aqui mesmo de porrada!"

"Só que você obedece as ordens do seu chefe."
   - Retruco.

"Não faz mal, você vai morrer."
   - Ele diz, e depois ri.
"Você, a sua irmã, o bastardo do James, todos vocês vão morrer!"

Depois ele sai da minha cela, tão rápido quanto chegou.
Eu ainda olho para o corredor, incapaz de dizer qualquer coisa.
Então olho para James, e ele está lá, sério, pensativo.

"Quem é Sharon?"
   - Pergunto, após um longo tempo em silêncio.

"Sharon Hansson, minha meia irmã."
 
"Oh."
   - Solto, surpresa com sua revelação. É uma mentira, eu sei, mas para James, eu não consigo conter:
"Eu sinto muito."

"Não, você não sente."
   - Ele diz com um sorriso amargo nos lábios.
"Mas eu não me importo."

"Vocês são filhos do Thomas?"
   - Pergunto, incapaz de me conter.

"Da Morgana."
   - James responde, e minha boca se abre alguns centímetros. Seu jeito gélido ainda está fresco em minha memória, apesar de tanto tempo. Nunca imaginaria que uma mulher como ela podia ter filhos. Eu solto o que seria uma ponta de um riso.

"Você deve me odiar pra caramba, né?"
   - Solto.
"Eu matei sua mãe, minha irmã matou sua irmã."

"E seu pai matou o pai da minha irmã."
   - Ele acrescenta, e depois ri. Nós rimos juntos por um bom tempo, até que ele diz:
"Eu não te odeio, Liza... e se quer saber, isso já era esperado."

"O que? A morte da tua irmã?"
  - Pergunto, ele concorda com a cabeça.

"Sharon e Rachael eram como dois trens desgovernados em rota de colisão, ambos correndo para a destruição."
   - James diz.
"Um confronto aconteceria mais cedo ou mais tarde e uma das duas iria levar a pior."

Nós nos calamos novamente.
Eu observo James por um tempo.
Ele é uma boa pessoa, alguém que não deveria estar nessa confusão toda, alguém que não deveria ser um Hansson nem um Vaccari, porque no final das contas, nenhum dos dois presta.
Então, eu constato, com um toque de surpresa, que estou torcendo para que ele e Rachael acabem dando certo no final.
Também constato que a metáfora dos trens também poderia ser aplicada ao caso das duas mafias em questão.
Hansson. Vaccari.
Sinto que um confronto está mais próximo do que nunca.