Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

22 de fev de 2014

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 33

LIZA
Depois daquele fatídico dia, Thomas também me mandou de volta a minha cela, desistindo da suposta conversa que teria comigo depois de se resolver com o James.
 Olho para ele em sua cela. James tem uma aparência horrível, está sujo e há um rastro de sangue coagulado de sua boca até sua barba. Ele ainda está acordado, entretanto. Sua situação é muito pior do que a minha, com uma ferida exposta e vários hematomas no corpo, mas James é bem forte e resistente. Começo a pensar que estou sendo mais poupada do que pensei que seria. Estou desidratada, faminta, meu corpo fede, mas não tenho nenhuma fratura e nenhum de seus capangas tocaram o dedo em mim até agora.

"Thomas quer falar com você."
   - Um soldado Hansson diz, assim que entra em minha cela. Eu me levanto. As algemas de ferro em meus pulsos incomodam, mas eu ignoro a sensação. Percebo que ele é aquele cara que respondeu minha pergunta quando o cego de um olho não respondeu. Ele segura meu braço e me guia pelo corredor, mas não aperta para machucar, como o outro fez.
  Eu não digo nada dessa vez e sigo obediente para a sala de Thomas, porque estou tão cansada que quanto menos eu falar, melhor. Nós entramos na bela sala de Thomas Hansson  e ele está lá, com a mesma expressão de antes; me sento. O capanga que me leva sai da sala e ficamos sozinhos pela primeira vez.

"Como está se sentindo, Liza?"
   - Thomas pergunta tranquilamente.

"Ah, eu estou ótima, o lugar que você me enfiou é realmente muito confortável."
    - Solto. Ele não reage a minha ironia.

"Sabe o porquê desta conversa, não sabe?"

"Se é sobre a Rachael, eu não sei onde ela está."
    - Digo.

"Não quer saber onde está seu namorado?"
   - Thomas pergunta, e eu ainda não sei onde exatamente ele quer chegar com todo esse jogo.

"Eu não sei o que quer de mim,"
   - Começo.
"Mas seu eu fosse você, me mataria antes que alguém aparecesse para me salvar."

Seu tapa arde em meu rosto.
Eu fico surpresa com a sua reação e o encaro, incrédula.
Ele pega bruscamente o meu queixo com a mão e diz:

"Ninguém vai te salvar, não aqui."

"Se esquece que minha família é uma mafia tão poderosa quanto a sua?"
   - Solto, incapaz de me conter. Agora é a vez dele de me encarar, incrédulo.

"Como sabe?"
   - Ele sibila.
"Como sabe que sua família é uma mafia?"

"Eu não deveria saber?"
    - Digo.
"Sou uma Vaccari também, não sabia que conhecer minha própria família fazia parte da lista de crimes que cometi contra você."

Thomas me observa atentamente, calado.
Então o interfone toca, quebrando o silêncio.

"Fala."
   - Ele diz ao pressionar um botão, sua voz mais impaciente do que o normal.

"Novas notícias."
   - Uma voz masculina responde.
"Rachael Vaccari foi encontrada."

RACHAEL
Eu me sento numa poltrona, logo depois do banho.
É uma noite sem estrelas e silenciosa, essa.
Ainda estou com uma toalha enrolada no corpo, mas eu não me importo em me trocar com rapidez. A conversa com Beth ainda gira na minha mente. Ela me disse que devo fazer com que a minha execução - e a de Liza também, suponho - seja a céu aberto, mas eu não faço ideia de como fazer isso. E há a carta dos Hansson. Só agora consigo notar uma coisa: eu acabei com sua elite, ou pelo menos, com a maioria dela. James é considerado um traidor, Morgana e Nick estão mortos, Sharon está desaparecida, provavelmente morta também... Fred é o único que resta.

"Rachael"
   - Eu ouço a voz de Beth vir logo após um zumbido no meu fone.

"Oi."
   - Respondo, quase sussurrando.

"Arrume-se."
   - Ela ordena.
"Os Hansson estarão aí daqui a alguns minutos."

Meus músculos ficam tensos de repente, reagindo ao aviso de Beth.
Vou ser levada ao Thomas e colocar o plano dela em ação.
Sua advertência ainda está viva em meus pensamentos.
Não vou aceitar falhas.

"Quem está na missão?"
   - Pergunto, imaginando os cachos loiros de Fred contrastando com a roupa preta.

"Sharon Hansson."
   - Ela diz, com indiferença. Meus olhos se arregalam com a surpresa, e não consigo conter a pergunta:

"Ela não deveria estar morta?!"

"Sim, deveria."
   - Beth diz.
"Aquele plano com a maleta teria funcionado perfeitamente se Thomas não desconfiasse tanto de você."

Eu abro a boca, mas nada sai.
Mais um plano que deu errado. Mais um plano que Beth sabe.
Então eu ouço o clic e percebo que ela desligou o fone.
Em seguida, o som do carro tira o silêncio da noite.
  Eu corro para o quarto e visto uma calça jeans clara e uma regata branca. Volto para a sala e me sento novamente na poltrona. Fecho os olhos, esperando o barulho da porta sendo arrombada e este lugar se enchendo de soldados Hansson logo em seguida. E o som vem. E eu abro os olhos, mas não há soldados Hansson aqui. Só Sharon com ódio nos olhos e um sorriso maligno.

"Olá, Rachael."
   - Ela diz. Há uma USP 45, a mesma que usei no dia do roubo, em suas mãos, apontada para minha cabeça.
"Está diferente, cortou o cabelo?"

"Vamos pular para a parte em que você faz o que veio fazer."
   - Solto.

"Não vai tentar fugir? Pedir clemência?"
   - Ela pergunta. Eu rio.

"Pra quê?! Não vai adiantar, não é mesmo?"
   - Respondo.

"É verdade."
   - Ela concorda. Então ordena:
"Levanta."

E eu levanto.
Nós seguimos até seu carro, sua arma apontada para minha cabeça o tempo inteiro. Eu me encaminho para o banco do passageiro, mas ela me para.

"Você dirige."
   - Ela diz e eu levanto uma sobrancelha. Então entendo o porquê: Ela não vai ter que se preocupar com a estrada e vai me vigiar melhor. Abro a porta do carro e entro. Ela entra pelo passageiro e mantém sua arma mais próxima da minha cabeça. Eu dirijo por uma estrada deserta e cheia de curvas. Rochas se erguem à minha direita, enquanto um enorme penhasco se estende à esquerda da pista. Nós ficamos caladas por um bom tempo, Sharon me observando atentamente, me analisando, sedenta pelo meu sangue.

"Quer saber o que aconteceu quando armou para mim?"
   - Ela pergunta. Eu não respondo, mas mesmo assim, ela continua:
"O chefe me mandou de volta para a Suíça. Fiquei de custódia lá, sendo vigiada, monitorada o tempo inteiro, mas eu sabia que não iria morrer. Na verdade, eu passei todos aqueles dias ansiando para que você os traísse e mostrasse suas garrinhas. Eu sabia que iria acontecer, que essa merda toda iria explodir mais cedo ou mais tarde e o chefe iria me aceitar de volta. Quando eu voltei, a elite estava desfeita. Nick tinha morrido, James tava preso e o Fred cego de um olho, cortesia da tua irmã."

Reprimo um sorriso ao ouvir essa última informação.
É claro, a Liza tinha que matar ou machucar alguém no final das contas.
Essa é a primeira boa notícia que tenho há dias.

"Sabe o que me irrita mais?! É essa sua arrogância, essa sua cara de dona da verdade, o jeito como você usa as pessoas e as destrói, achando que está fazendo um bem a humanidade!"
  - Quase solto um riso debochado ao tom indignado da sua voz. Como se os Hansson não destruíssem ninguém... Eu não respondo e continuo dirigindo, enquanto sua voz vai aumentando gradativamente até um grito raivoso que ela solta:
"Tá vendo?! Você não reage, não diz nada, só fica com essa sua cara cínica como se sempre estivesse no controle da situação! Fique sabendo que você e toda sua familiazinha está perdendo! Nós vamos esmagá-los, um por um, até que virem pó!"

Continuo sem responder.
Eu estou séria, porém, contendo o riso que vem por causa do seu desabafo revoltado. Ela ainda fica lá, seus olhos queimando de raiva, esperando por uma resposta minha.

"Para o carro."
   - Sharon diz depois de um tempo calada, sua voz baixa e fria dessa vez. Ainda estamos no meio da estrada deserta, e ela acaba de destravar a arma. Eu continuo dirigindo, dessa vez, prestando mais atenção ao seus movimentos. Ela grita:
"Para esse maldito carro agora!"

Então acontece.
Eu piso no acelerador e giro o carro, o som dos pneus arrastando no asfalto, zunindo nos meus ouvidos. Sharon bate a cabeça no banco, a arma escapulindo de sua mão e voando para fora do carro. Ela tenta me atacar, mas eu continuo girando o carro no meio da estrada, a adrenalina tomando conta das minhas veias. Nós giramos várias vezes até que ela fique desorientada. Uma ideia passa por minha mente. Tenho que acabar com isso agora. Sem pensar muito, piso no acelerador novamente e começo a guiar o carro em alta velocidade, em direção ao precipício.
 Tenho poucos segundos e abro a porta, dando graças por estar sem cinto de segurança. Eu vejo seus olhos azuis claros se arregalarem e suas pupilas dilatarem antes que o carro desabe no abismo. Tudo fica embaçado a minha volta. Eu ouço seu grito e o barulho ensurdecedor de uma explosão me deixa desorientada. Um clarão avermelhado se estende atrás de mim, e eu imagino uma coluna de fogo, tão grande e poderosa que tenho medo de ser engolida por ela. Meu corpo se projeta para fora e tudo acontece tão rápido que mal consigo assimilar as coisas. Então vem o impacto do meu corpo batendo sobre a rocha, e logo depois, a dor.
 
  Tudo fica silencioso de repente. Por um momento penso que estou morta, ou quase isso, mas ainda sinto tudo, meus membros, meu corpo dolorido, meu coração batendo violentamente contra o peito. Há sangue manchando meus dedos e eu não tenho ideia de como veio ou se é meu ou de Sharon. Eu só sinto as rochas embaixo de mim e a dor no meu corpo inteiro. Olho para trás. Estou na beira do penhasco. Não pendurada nele, mas bem perto de sua ponta. Impulsiono meu corpo para frente, tocando o asfalto da estrada, o sangue fresco em minhas mãos sujando a pista. Consigo engatinhar, enquanto minhas feridas e arranhões liberam um pouco mais de sangue a cada esforço feito. Eu sobrevivi, e isso me enche de satisfação que aquece minhas entranhas. Já estou no meio da estrada, visualizando a pistola ainda um pouco distante de mim.
Então acontece novamente.
É como se eu estivesse de volta a zona de perigo, quando uma mão agarra o meu pé e me puxa. Eu tento me soltar, mas não demora para que Sharon já esteja em cima de mim, lutando, agressiva como uma fera. Seu tapa fere meu rosto e eu a empurro, arranho seu rosto com minhas unhas. Ela rosna e tenta me sufocar, pressionando suas mãos contra meu pescoço, e estou perdendo o ar e a força, até ver uma ferida aberta e profunda na sua coxa. Eu estendo a mão e cravo minhas unhas no ferimento com toda força que tenho, rasgando e puxando a carne para baixo. Ela grita e solta meu pescoço. Rolo para o lado e puxo seu cabelo, batendo seu rosto com força contra o asfalto. Sharon se debate tentando se soltar, mas bato sua cabeça uma última vez no chão e a solto. Ela tosse, e sangue espirra do seu nariz. Sharon ainda está tonta, deitada no chão, mas eu sei que ela vai se levantar e me atacar novamente se eu não fizer nada. Então eu vejo a pistola. Me levanto e corro. Seguro a pistola e aponto para sua cabeça. Sharon me encara, imóvel.

"Vai, atira."
   - Ela diz, sua voz fraca. Então, depois de um instante em silêncio, Sharon provoca, sua voz carregada do escárnio tão familiar nela:
"Ou vai precisar de uma babá que a ensine a puxar um gatilho?"

Eu atiro em seguida.
Sua cabeça desaba como um peso morto. O sangue jorra em grande quantidade, num vermelho escuro fresco, espesso, quente.
Mais uma da elite que se foi.

"Beth,"
   - Chamo, ao apertar o botão que liga o fone. Ela não responde, mas posso ouvir sua respiração na linha.
"Temos um imprevisto."