Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

20 de fev de 2014

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 32

RACHAEL
"Eu tenho um plano."
   - Beth diz finalmente.
"Mas se quiser participar dele, vai ter que saber que eu não vou aceitar falhas, muito menos de você. Sei que é inteligente, esperta e fria, e é por isso mesmo que vou cobrar total competência de sua parte."

"Ok, estou disposta a fazer qualquer coisa."
   - Afirmo.

Ela faz sinal e um dos seus capangas colocam um celular em cima da mesa.

"Você vai mantê-lo ligado e os Hansson vão te rastrear por aí. Eu quero que você seja pega, você vai deixar que eles te peguem. Eu calculo uns 2 dias ou um pouco mais que isso para que eles estejam na sua cola. Qualquer tipo de ligação que você receber nele, não importa qual: atenda. É importante que você o use."
   - Beth explica.
"Nós estamos monitorando os Hansson faz algum tempo, então, tenha certeza de que eu vou saber quando pegarem você. Você só precisa fazer com que o local da sua suposta execução seja aberto, o resto, deixa comigo."

   Então Beth abre uma caixinha preta de plástico e me entrega dois fones minúsculos cinza claro. Eu os escondo no meu ouvido, enquanto ela diz:

"Nós vamos nos comunicar por este fone e vamos monitorá-la por aí também. Mais alguma dúvida?"
 
"O que acontece se aparecer algum imprevisto?"
   - Pergunto. Beth me observa por alguns minutos, e isso me lembra a forma como Thomas me analisava.

"Você vai nos comunicar e cuidaremos do tal imprevisto. Isto é tudo."


LIZA
Muito tempo se passa até que a porta daquele lugar se abra de novo.
Estou com sede e meu corpo dói com a exaustão, mas aquele rapaz parece muito bem, cochilando em sua cela. Eu ainda não sei seu nome. Só o que eu sei é que ele é um Hansson e se envolveu com a Rachael; talvez salvá-lo faça parte dos seus planos agora.
  Dois soldados Hansson entram pelo corredor, cada um deles entrando em uma cela diferente. James é acordado com um tapa no rosto e é levado por um homem ainda mais musculoso que ele, que o fita com nojo. Sorrio ao ver que um deles - justamente aquele que vem para a minha cela - é o homem que eu deixei cego. Ele usa um tapa-olho e me encara com ódio. Ele quer a minha morte. Se pudesse, me mataria aqui mesmo.

"Vamos."
   - É a única coisa que ele diz. Eu não me mexo, então sua mão agarra meu braço com força e me força a levantar. A dor do seu aperto é muito menor do que a satisfação que tenho em vê-lo assim.
   Nós somos encaminhados para fora dos corredores e a luz faz meus olhos arderem, depois de tanto tempo no escuro.

"Onde estamos indo?"
   - Pergunto. Ele não responde. Paro de caminhar.
Ele olha para mim e aperta o meu braço com mais força, mas eu permaneço imóvel.

"Não me faça arrastá-la."
   - Ele diz entre dentes. Sorrio.

"Não vou a lugar nenhum enquanto não responder minha pergunta."

"O chefe quer ver seus prisioneiros."
    - O outro capanga responde. O homem que me leva lhe lança um olhar ácido. Ele revira os olhos e solta:
"Agora, deixem de birra e vamos logo."

Eu volto a caminhar.
Observo seu maxilar travado e a forma como cerra os punhos. Ele está espumando de raiva, e eu gosto disso.
Nós entramos numa sala clara, moderna e confortável, tão diferente do buraco em que estávamos enfiados. Há vários homens armados, espalhados pela sala. Há também um homem de meia idade sentado numa mesa, nos olhando, sério. Thomas Hansson. Seus olhos azuis claríssimos voam para mim, e nós nos encaramos por um bom tempo.
Thomas faz sinal para as cadeiras em sua frente, e somos praticamente forçados a nos sentar nelas. Ele tem a expressão fria e analista de Morgana. Ele consegue disfarçar a raiva, diferente de seus capangas.

"Eu os trouxe aqui porque quero dar uma palavrinha com os dois."
    - Thomas diz; sua voz é suave, neutra.
"Talvez eu devesse começar por você, James."

James.
Esse é o seu nome.
Faço uma anotação no meu cérebro para me lembrar disso da próxima vez.
Se houver uma próxima vez.

"Meus homens fizeram uma vistoria no seu carro."
   - Thomas continua.
"E procurando aqui e ali, encontraram isso."

Thomas põe um relógio em cima da mesa.
Eu observo com surpresa o relógio que dei a Rachael quando ela tinha 14 anos. Ela ainda o usa, ou pelo menos, usava, até perdê-lo no carro de James. Contenho o impulso de levantar a mão e tocá-lo.

"Se não me engano, você me disse que Rachael Vaccari não estava com você naquele carro."
   - Thomas volta a dizer e eu volto a realidade. Isso é um objeto da minha irmã encontrado no carro de um Hansson que tecnicamente não deveria estar com ela, o que significa que James está em maus lençóis.
"Então, como você me explica isso?"

"Escuta, eu..."
   - James começa, mas um dos capangas de Thomas puxa sua cabeça para trás bruscamente, colocando o cano do revólver em seu pescoço. Tento não demonstrar reação. Thomas se levanta, se inclina sobre a mesa e sibila:

"Onde ela está?"

James não responde e continua encarando Thomas com a mesma ousadia.
Thomas faz sinal, e James leva uma coronhada na cabeça logo em seguida.
Ele não cede. Continua sem responder, e a encarar Thomas desafiadoramente.
Depois disso o que se segue é uma série de golpes. Socos, chutes e depois de longos minutos, James está no chão, cuspindo sangue. Thomas se aproxima dele, destrava a arma e aponta para sua cabeça.

"Minha paciência acabou."
    - Ele diz.
"Ou você fala agora ou..."

"Ele não sabe."
   - Solto. Todos me encaram com descrença, até mesmo James. Continuo:
"A Rachael não é burra, ela não confiaria essa informação a um Hansson. Ela não contou isso a mim, que sou irmã dela, porque contaria para ele?"

"Rachael estava namorando com ele..."
   - Um dos capangas dizem, mas eu o interrompo.

"A Rachael não se envolve. Nunca."
   - Thomas permanece calado, me encarando.
"Ela poderia até estar no carro dele, mas isso não significa que ela contou alguma coisa relevante a ele. Eu conheço a minha irmã, sei que ela não se arriscaria assim."

Todos permanecem calados.
Thomas ainda me encara por algum tempo, olha para ele, abaixa a arma e diz:

"Tirem ele daqui."