Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

20 de fev de 2014

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 29

LIZA
Dias depois, nos instalamos numa casa simples e discreta no subúrbio do Rio de Janeiro. Eu sei que Will veio de uma família de classe alta e eu tenho dinheiro suficiente para comprar uma mansão luxuosa em qualquer parte do país, mas na situação em que estamos, uma casinha pobre no meio do nada é bem mais seguro. Will não teve dificuldades em arrumar um lugar, aliás, ele não teve dificuldade com quase nada desde que fugimos.

"Eu tive a impressão de ver a Rachael te passando um sinal."
   - Solto. Ele me encara. Eu não queria falar sobre isso agora, justo quando acabamos de chegar e Will deve estar com a cabeça a mil, mas eu não consigo me controlar.

"Você está certa, era um sinal."
   - Ele responde, desabando no sofá. Ele tem a fisionomia cansada, os olhos pesados.

"Porque?"
  - Pergunto. Eu deveria deixá-lo descansar, mas não posso. As palavras saem da minha boca e eu começo a falar muito rapidamente:
"Porque a Rachael ajudaria a gente? Porque ela me deixaria fugir? Porque ela se arriscaria desse jeito? Porque..."

"Liza."
  - Will me interrompe, aumentando um pouco a voz. Olho para ele sem entender. Will não parece chateado com o meu falatório, ele só parece... exausto. Ele respira fundo e passa a mão nos cabelos, antes de me fitar e dizer:
"A Rachael não é quem a gente pensava que era."

Permaneço calada. Will percebe a confusão estampada no meu rosto e explica:

"Estava tudo combinado, desde o início. O plano era atrair você para a minha casa, como eu fiz naquela noite. Eu sabia que haveria um ataque pela manhã, mas a Rachael me fez prometer que não contaria nada a você."
   - Ele faz uma pausa e eu permaneço imóvel.
"A Rachael apareceu um dia me dizendo que o Thomas tava pressionando ela para pegar você. Disse que tinha um plano que iria salvar nossa pele. Eu não acreditei no começo, mas não havia outra alternativa; ela me contou tudo, quando seria, quantos homens ela levaria e em quem e quando atirar. Para isso o sinal. Foi tudo calculado, inclusive a posição onde o homem que eu deveria matar estaria. Depois disso eu comecei a planejar nossa rota de fuga e eu suponho que ela também planejou a dela, já que atirando em um Hansson, praticamente declarou guerra contra eles."

"Então, você está me dizendo que a Rachael salvou nossa vida?"
   - Digo lentamente, incrédula. Ele concorda com a cabeça.

"Foi para isso que ela se uniu aos Hansson. Ela queria descobrir um ponto fraco, uma brecha para que ela pudesse atacar."
   - Então Will abre um sorriso, exibindo os dentes brancos.
"A gente pensava que ela tinha nos traído, mas ela só estava tentando fazer aquilo que você sempre quis. Matar o Thomas e por um fim em toda essa confusão. Liza, a Rachael está do nosso lado, sempre esteve."


Eu abro a boca, mas nenhum som sai. Eu observo Will rir brevemente e balançar a cabeça, antes de dizer:

"Engraçado, vocês duas são tão iguais e tão diferentes ao mesmo tempo!"

"Rachael nunca quis que ninguém soubesse dos seus planos."
   - Digo finalmente.
"Ela planejava sozinha, agia sozinha e eu só descobria quando tudo já estava feito. É essa mania que ela tem de se fechar, a gente nunca sabe o que ela vai fazer depois!"

"De uma coisa eu sei,"
   - Will diz, voltando a ficar sério.
"Rachael é uma Vaccari. Uma legítima Vaccari."

RACHAEL 
8h da manhã.
O vento balança os galhos da árvore logo à minha frente, algumas folhas se soltando e caindo em cima de mim. Estou escondida numa área aberta, repleta de arbustos, plantas e árvores, em frente aos fundos da sede dos Hansson. É hoje. Os dois meses em que estive na companhia dos Hansson foram os suficientes para perceber seus hábitos. A maioria pertencente à elite de Thomas são membros de sua própria família. James, Sharon e a falecida Morgana. Pesquisei a vida de cada um deles e fiz uma ficha com o que descobri. Morgana é irmã mais nova de Thomas, estava na mafia desde os 15 anos de idade. Aos 20 anos, teve um filho: James. Thomas iria obrigá-la ao aborto, mas Morgana prometeu que ofereceria a criança à mafia. O bebê seria salvo, com a garantia de que estava fadado a se tornar um soldado Hansson. Morgana treinou James desde criança em luta, na adolescência treinou armas e aos 17 ele começou a trabalhar para o Thomas. Linha de frente. Minha mente é povoada com as imagens do Nick no chão, sangrando; a rapidez, força e os golpes potentes do James se deve a anos de treinamento.
   Morgana se casou com o antigo braço direito de Thomas e teve uma filha: Sharon. O pai da Sharon morreu quando ela tinha 10 anos. Um assassinato encomendado pelos Vaccari. A casa explodiu com ele e outros 4 soldados lá dentro. Depois disso, Morgana assumiu o cargo de seu falecido marido, se tornando o novo braço direito do chefe. Quanto ao próprio Thomas... assumiu rapidamente o papel de novo chefe após a morte do antigo. Não casou, não teve filhos, nem manteve nenhum relacionamento amoroso. Não deixou sucessores. Talvez ele pensasse em James como seu sucessor, mas agora...
   Uma van branca para perto do prédio. Thomas sempre toma seu café às 8h30 da manhã, em ponto. O café é feito e entregue por esse homem da van branca. A secretária de Thomas vai descer e pegar o café daqui a 15 minutos. Tenho pouco tempo para agir. Coloco as luvas e aplico o veneno cuidadosamente na seringa. O homem sai e abre o fundo da van, entrando na cabine, distraído. Caminho com a seringa escondida, rápida e silenciosa. Ele está de costa quando eu me aproximo e insiro a agulha em seu pescoço, injetando o veneno direto na corrente sanguínea. Ele tenta se debater, mas apaga em menos de cinco segundos.

"Descanse em paz, querido."
   - Sussurro e empurro seu corpo para dentro da cabine, fechando as portas logo me seguida. Abro o copo de café quente cuidadosamente, colocando o veneno que estava no outro frasco em meu bolso. Quando abro a porta novamente, estou perfeitamente vestida com suas roupas - incluindo o boné e o tênis - e com um copo de café na mão. A secretária ainda não desceu. Olho pro relógio. Ainda faltam 5 minutos. Tranco o fundo da van e me encosto no capô, esperando tranquilamente a vinda da secretária.
   Ela vem acompanhada de outros dois homens armados e mal me nota. Memorizo a forma como o homem morto caminhava, calculando meus passos. Ela simplesmente pega o copo de café da minha mão, sem me olhar e me dá o dinheiro. Agradeço discretamente e volto a caminhar, de volta para a van.

"Espera!"
   - Ela solta, meu corpo gela.
      Me viro lentamente até encontrar seu olhar cético.

"Você emagreceu?"
   - Ela pergunta e tenho vontade de rir. Mas, mantenho a minha postura e concordo com a cabeça. Ela continua com a sobrancelha levantada por um momento, depois encolhe os ombros e vai embora, junto com os outros.
   Entro na van, ainda tensa com a súbita fala da secretária. Dirijo o carro até certo ponto, depois estaciono, troco de roupa, limpo qualquer vestígio meu naquela van e saio, atravessando a rua. O meu carro está lá, intacto, com minha bolsa pousada no banco do passageiro. Me sento no volante, respirando fundo por uns segundos. E então, gradativamente, um sorriso satisfeito vai se formando nos meus lábios.