Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

16 de fev de 2014

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 28

LIZA
Eu observo Will concentrado na estrada a frente. Ele não disse nada desde que fugimos daquela casa e eu também sou incapaz de dizer alguma coisa. Nunca estive tão confusa. Minha mente tenta processar o que houve naquele lugar, estou pensando e girando e não chego a nenhuma conclusão. Will, estranhamente, sabe bem o que fazer. Ele nos leva para um lugar bem afastado do centro da cidade e para.

"Vamos."
   - É só o que ele diz, sem nenhuma explicação ou informação adicional. Nós saímos e observo Will abrindo o porta malas e tirando uma grande bolsa marrom de lá. Eu não digo nada, mas tudo aponta para uma coisa: ele já sabia do ataque. Mas, como?
   Ele olha para mim, aquele mesmo olhar que ele me deu quando fomos para aquela festa em NY, 10 anos atrás. Fico pensando como seria, se eu simplesmente esquecesse aquela história de vingança e ficasse com Will, abandonasse tudo e comprasse uma casa confortável no interior de Londres. Eu provavelmente teria sido mais feliz do que estou sendo agora.
  Eu seguro sua mão e entrelaço meus dedos aos dele.
  Nós corremos.
  Há um matagal a nossa frente, sem nenhuma casa à vista ou qualquer ser vivente.
Nós corremos entre a mata, e eu não sei bem onde nós vamos, mas se Will sabia do ataque, ele com certeza tem um plano ou não teria nos trazido até aqui. A medida que avançamos começo a ver uma estrada deserta. Olho para trás e o nosso carro já sumiu de vista. Nós paramos ao lado da pista e esperamos. Um veículo surge e se aproxima do ponto que estamos. Um ônibus. Will faz sinal e ele para. Eu entro em sua frente e percebo que o coletivo está quase vazio. Me sento no fundo, próximo à janela, e espero até que ele se sente para dizer:

"Você sabia, não é?"
   - Will me encara. Eu o encaro de volta.


"Sabia."
  - Ele confirma.

"Como?"

"Olha, eu vou explicar tudo para você, mas não aqui."
   - Ele diz e eu percebo que há uns 3 ou 4 homens junto em bancos próximos aos nossos.

"Ok."
   - Solto. Então, me lembro de outra pergunta. Sussurro:
"Posso saber pelo menos para onde estamos indo?"

"Há um navio esperando por nós daqui a 1 hora."
   - Ele sussurra de volta.
"Nós vamos atravessar o oceano e ir para o Brasil."

RACHAEL
Aceno para um táxi que passa pela rua. Minha mente lista cada passo que vou dar, onde irei e o que farei daqui para frente. Decidi seguir com o plano original, apesar daquele incidente. Nós ainda estávamos longe do real destino quando houve a colisão, e estou confiando que James não solte nada. De qualquer forma, eu tenho um plano B, para o caso de algo der errado. O táxi diminui a velocidade quando dou o sinal. Ele está prestes a parar e eu estou feliz por ter algum fundo de emergência, quando acontece.
Meu celular toca.
Olho para o visor.
James.
Meu coração dá um salto; ele deve ter se safado. Deve ter puxado uma arma e atirado em todos eles. Fico tonta de felicidade, um sorriso se formando em meus lábios. Não seja estúpida.
Meu sorriso morre quando me dou conta do que está acontecendo.
James não escapou. Ele foi obrigado a me ligar, para ver se eu atenderia. Posso ver Thomas ao seu lado, com seu jeito impecavelmente equilibrado e seu olhar frio. Foco, Rachael. Pense. Thomas deve estar querendo alguma coisa para me ligar. Me esforço em me manter concentrada, sentindo a pressão na parte frontal do meu cerébro. Então, eu entendo tudo.
Thomas vai me rastrear pelo celular.
Há uma poça de água próxima a mim; o táxi parou em minha frente e o motorista está me olhando impaciente. Jogo o celular com toda a força na poça, a água suja respingando na minha roupa.

"Dra Vaccari, o que..."
   - A assistente diz logo quando me vê entrar na clínica. Eu ignoro seu olhar espantado ao ver o estado das minhas roupas e a interrompo, dizendo:

"Eu vou entrar na minha sala e não quero ser incomodada em hipotése alguma, entendeu?"
   - A moça arregala aos olhos e concorda com a cabeça, assustada com o tom ameaçador da minha voz.
"Não importa o que aconteça ou quem esteja aqui, não vou atender ninguém hoje."

Faço questão de acionar a trava de segurança quando entro. É uma sala confortável, maior que todas as outras salas do consultório; há uma divisória de vidro que toma toda a parede a minha direita, oferendo uma visão da cidade. A minha esquerda o que aparentemente existe é apenas a parede branca e alguns quadros insignificantes. Ninguém se incomodou em tocá-la para saber se era uma parede de concreto normal ou não, então meu segredo ficou bem guardado ali. Afinal, porque haveria uma parede falsa numa clínica de psicanálise?
  Pego uma chave bem pequena e discreta na segunda gaveta. É praticamente impossível ver a fechadura, a menos que você observe bem de perto. Encaixo a minúscula chave e a giro. A porta faz um clic e eu a abro.
  E o que vemos aqui, é tudo o que eu projetei para esse consultório.
  Remédios.Venenos. Vários deles.
  Pode ver isso como um estoque de drogas, se preferir.
  São remédios controlados e altamente fortes, alguns em que a comercialização é terminantemente proibida em qualquer circunstância. É claro que isso é completamente ilegal e eu poderia ser presa, mas quem se importa?
Nem tudo isso foi projetado apenas para o futuro assassinato de Thomas Hansson, mas fazia parte do plano, sempre fez. São 7 grandes prateleiras com vidros de diferentes tamanhos e formatos. São 235 substâncias, dentre elas, os 10 venenos mais letais que existem até hoje. Eles estão numa prateleira separada, cada um deles em pequenos e frágeis vidrinhos com a quantidade exata necessária para matar uma pessoa. Cada um deles tem formas diferentes de aplicação, sintomas, mas todos tem duas coisas em comum: matam rapidamente e são praticamente impossíveis de serem detectados.
   Pego dois deles. O primeiro é injetável, age como um sonífero, a pessoa apaga e não acorda nunca mais. O segundo é mais especial; envolvo o frasco em meus dedos, imaginando Thomas, o sangue em alta quantidade jorrando de sua boca. O vermelho escuro, vivo, intenso. Thomas se gaba por ter derrubado um homem forte em 5 dias sem gastar uma bala; pois eu o derrubarei em poucos segundos.

  Caminho até o fundo da sala e abro um armário. Há seringas, luvas, serras de precisão cirúrgica esterilizadas e alguns tubos de ensaio. Logo abaixo, uma bolsa, algumas peças de roupa e uma tesoura de costura arrumadas em cima da mesa. Abro a bolsa e coloco os dois frascos de veneno lá dentro e uma seringa. Pego as roupas e a tesoura e vou para o banheiro. Me troco. Dou uma olhada no espelho; estou com roupas diferentes, mas ainda sou Rachael. Seguro meu cabelo e pego a tesoura; sinto calafrios ao lembrar do sequestro, de ter os cabelos cortados e em seguida, a cabeça completamente raspada. Aperto os olhos e balanço a cabeça freneticamente, tentando afastar isso de mim,  e fecho a tesoura no meu cabelo, deixando-o na altura do queixo. Ainda não é o suficiente. Ponho lentes de contato castanho-escuro, escondendo meus olhos verdes.
   Enquanto vou abastecendo minha bolsa com facas, dinheiro e alguns suplementos, minha mente voa para James. Thomas não vai acreditar no papo dele. Também não vai matá-lo, seria muito estúpido matá-lo a essa altura. O máximo que ele pode fazer é conservá-lo como uma isca, para me atrair à alguma armadilha. Adiciono um item a minha lista: arrumar um jeito de salvar o James. Quando Thomas morrer, a primeira pessoa que eles vão matar é ele. Tenho que tirá-lo de lá, antes que isso aconteça.
    Saio pelos fundos e ando por um conjunto de corredores e escadas de pisos e paredes brancas, completamente desertos. Esse lugar me lembra a sede, James e nossa conversa sobre a Sharon. Isso vai me levar até a garagem, onde tem um carro me esperando. Desço rapidamente, quase correndo, minhas calças e botas pretas fazendo um contraste assombroso com o ambiente claro. Me aproximo de uma porta de vidro e ela se abre automaticamente. Ponho os óculos e o gorro. Dou uma olhada pela extensão da garagem antes de entrar no carro e executar a segunda fase do meu plano.