Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

16 de fev de 2014

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 27

LIZA
Will não está mais do meu lado quando acordo. Estico a cabeça para frente o vejo lá, sentado na poltrona, me olhando. Ele está sério, mais sério do que deveria estar e eu começo a ter um mau pressentimento. Há algo de muito errado por aqui. Talvez seja só uma coisa da minha cabeça, ou ele pode estar pensando no que contei ontem.  Jogo a cabeça no travesseiro e fecho meus olhos, tentando relaxar, mas a visão de Alicia agonizando aparece acompanhado de um barulho. Abro os olhos num sobressalto. Respiro fundo, tentando regular meus batimentos. Foi só uma lembrança, uma coisa que já aconteceu. Então, eu olho para Will novamente e ele não está mais com a expressão serena de antes. Ele olha pela janela, em alerta; percebo que a visão foi uma lembrança, mas o barulho foi real. 

"Se veste." 
   - Will diz e eu o encaro sem entender. Ele me encara de volta, seu olhar me dizendo que tenho que ser rápida e não fazer perguntas. Pulo da cama e visto um roupão; Will continua parado no mesmo lugar. Nenhum sinal de fuga, ou coisa do tipo. Eu caminho até ele, e a porta se abre. 
   Quatro pessoas vestidas de preto entram na casa, uma delas é Rachael. Os Hansson vieram atrás de mim. 

"Bom dia, Liza." 
   - Rachael diz com um sorriso cínico. A fúria volta a tomar conta de mim, e eu quero voar em cima dela. Eu começo a cogitar um ataque, imaginando como vou pegá-la. Eu nunca disse, nem senti isso, mas eu quero matar Rachael. Os outros homens nos cercam. Estou planejando um ataque, examinando a sala em busca de alguma coisa pontiaguda, quando Will sussurra: 

"Não reaja." 

  Eu tento ignorar o que ele diz, mas eu sei que se Will está dizendo isso, algum bom motivo ele tem. 
"Rob, faz uma revista neles."
   - Rachael diz, e um dos homens se aproxima, enquanto os outros dois apontam suas armas para nós. Ele está de guarda baixa, mas se eu atacar, vou morrer pela bala de um dos outros dois. Eu fixo minha atenção em Rachael, que aparentemente, está liderando o grupo. Ela olha para Will e depois para o homem que se aproxima, como se quisesse dá um sinal a ele. Não entendo o porquê disso, mas o que acontece em seguida me faz compreender. 
   Will saca uma pistola, de repente, e acerta o peito do homem de guarda baixa, ao mesmo tempo em que Rachael atira em um dos homens que apontavam armas para mim. Os dois caem no chão, imóveis. Rachael olha para mim e diz: 

"Fuja, agora." 

Não tenho tempo para objetar, nem entender o que aconteceu, porque Will me puxa para fora da casa e nós corremos. A lembrança de correr com Rachael no colo aparece vagamente na minha memória. Eu espero os sons dos tiros, mas eles não vêm. Ao invés disso, Will me empurra para dentro do carro e entra, saindo em alta velocidade logo em seguida. 

RACHAEL
Eu saio da casa, ouvindo passos atrás de mim. James. Eu não digo nada e espero que ele vá embora, mas ele continua me seguindo, tão calado quanto eu. Destruí Nick e Sharon. Só falta Thomas. E James, eu poderia tê-lo matado ali mesmo, mas por mais que eu tente, não vou fazer isso. Se ele morrer, que não seja pelas minhas mãos. Mas, ao invés de fugir ou tentar atirar em mim, ele me segue, manso, obediente, irritantemente calmo. 

"Você não tinha que ir embora?!" 
   - Solto, me virando para ele. 

"Não." 
  - Ele responde tranquilamente e abre a porta de trás do meu carro. 
"Entre, eu dirijo." 
 
"O quê?!" 

"É, Rachael, agora tente ser mais rápida antes que eles peguem a gente." 

"Eu acabei de matar o Nick." 
   - Digo. 
"Você tinha que estar me odiando agora." 

"Eu pensei que você já tinha entendido, depois de todo esse tempo." 
   - James diz, rolando os olhos. 
"Eu estou com você, sempre. Pouco me importa quem você matou ou deixou de matar, agora a senhorita pode entrar logo nesse carro, por favor?" 

E eu entro, completamente sem reação. 
James entra na parte da frente do carro e começa a dirigir. Ele me diz para manter a cabeça abaixada, para que ninguém veja que há mais alguém além dele no carro. Talvez ele esteja mentindo. Talvez ele esteja me levando para o Thomas agora, mas algo me diz que ele não faria isso. Não James. 

"Você está sendo um insano." 
   - Digo. Ele olha de soslaio para trás e o canto de sua boca se curva em um sorriso. 

"Eu fui um insano desde que me envolvi com você." 

"Eles são a sua família," 
  - Começo. Seu sorriso desvanece e dá lugar a uma careta de desgosto. 
"Se você ir embora, eles vão te aceitar de volta. Você só precisa dizer que não sabia nada sobre o plano, o que não é uma mentira." 

"Mas também não é uma verdade absoluta." 
    - Ele retruca. 
"E além do mais, eu não tenho família. Nós podemos ter o mesmo sangue e o mesmo sobrenome, mas aquilo lá está longe de ser uma família. Eu só fazia parte disso porque era sensato. Eu não tinha ninguém, iria acabar sozinho e inimigo dos Hansson." 

"Se você acha que vou correr atrás dos Vaccari, está enganado. Eles me odeiam tanto quanto os Hansson, estou tão sozinha quanto você." 

"Você está aqui, isso é o que importa." 
   - Ele diz, me olhando de soslaio e eu sei que ele vai se arrepender de ter tirado os olhos da estrada. Isso porque, no meio do cruzamento, nós batemos com força numa caminhonete. Eu não tenho tempo de alertá-lo, e o impacto joga meu corpo para frente, fazendo com que minha cabeça bata no banco da frente. 
   Abro os olhos e tudo ao meu redor está torto. O carro virou. A porta está aberta e eu me seguro para não ser jogada para fora. Levanto a cabeça lentamente e vejo dois homens com armas do lado de fora. Hanssons. A batida foi proposital. 

"James," 
  - Sussurro. Ele não responde. Permaneço imóvel, pensando no que fazer antes que eles me arrastem para fora. Parte de mim reclama, por causa de James meu plano está começando a dar errado. Talvez ele mesmo tenha nos levado até esse cruzamento, provocado a batida, só para me pegar. Maldita hora em que eu fui me envolver com ele. 

"Saia." 
   - James finalmente diz, a voz fraca. 
"Eu vou distraí-los." 

"Vai se entregar?" 
   - Pergunto. 

"É o único jeito de você fugir." 

   Fico olhando para ele, indecisa. Tem sangue no canto de sua boca. Ele sorri desajeitado, esticando a ferida que sangra um pouco mais. 

"Qual é, Rachael?" 
   - Ele solta. 
"Não é hora para dar uma de sentimental." 

Só que eu não estou sentimental. 
Estou decidindo se devo ou não confiar nele novamente. 
Liza, por favor, não deixe que eles te peguem, penso. 
Não tenho alternativa. 
Escapo do carro e James solta um gemido alto logo em seguida. 
A porta escancarada ajuda a esconder meu corpo. Me deito, com o carro praticamente inclinado em cima de mim. Me arrasto sutilmente, enquanto eles estão ocupados tirando James do carro. Estou exatamente embaixo do veículo quando eles  o empurram  e ele volta a ficar "de pé". Me encolho. Tomo cuidado para não ser vista, mas eles não tem ideia de que estou aqui. Ouço vozes e apuro meus ouvidos para entender a conversa. Estão perguntando sobre mim. James começa a negar, dizendo que eu fugi sozinha e que não sabe para onde eu fui. Uma parte de mim fica aliviada por saber que ele não provocou o acidente e que não vai me entregar. Outra parte fica preocupada com o que Thomas vai fazer com ele.
Eu me mantenho imóvel pelos próximos dois minutos. 
O barulho dos pneus enche os meus ouvidos e vai sumindo gradativamente, até que o silêncio tome conta. Ainda permaneço quieta. Solto o ar que estive prendendo involuntariamente. Só então me dou conta do cheiro forte de gasolina, invadindo meu nariz, provocando náuseas. 
Começo a me arrastar pelo chão, até que esteja totalmente fora. Me sinto suja e cansada. James está nas mãos de Thomas agora. Ele pode torturá-lo para conseguir informações. A imagem de Lucy aparece como um flash na minha memória; ela é só uma amostra do que Thomas Hansson pode fazer. Só o pensamento de ver James apodrecendo naquela cela, sendo espancado e ferido o tempo todo me enche de agonia. Seja fria. Mantenha o foco. 
Me levanto, afastando esses pensamentos da minha cabeça. 
Eu sei exatamente onde devo ir.