Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

16 de fev de 2014

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 26

LIZA
Observo um retrato antigo de Rachael. Seus cabelos de tamanho médio, escuros, caem gentilmente, moldando seu rosto. Os olhos verdes como os meus, como os da minha mãe. Ninguém que a olhasse, desconfiaria que ela não fosse filha do meu pai. Só agora percebo que a cor dos seus cabelos se parecem muito mais com a cor dos cabelos de César do que do meu pai. Minha mãe não conta sobre isso no diário, aliás, ela nunca fala da Rachael no diário. Para a mamãe, Rachael é a filha bastarda, fruto de algo que nunca deveria ter acontecido, fruto das cenas que a assombravam em seus pesadelos. Beth me contou tudo. Minha mãe foi estuprada pelo César, que mantinha uma paixão doentia por ela. César brigava com meu pai, por causa dela, o tempo inteiro, mas depois de ter estuprado e engravidado minha mãe, ele nunca mais quis saber dela. Ele a desprezou, como faz com todo mundo que já perdeu utilidade para ele. Observo o rosto de Rachael com uma atenção que nunca tive. Ela se parece com César, entretanto. A expressão fria, tranquila. A forma como ambos agem, como se já tivesse calculado tudo, como se já soubessem o que fazer em seguida. Lembro do dia que ela me seguiu, quando ainda era uma menina, tomando cuidado para que eu não desconfiasse. Eu deveria ter raiva da Rachael, e eu tenho, mas não por ela ser filha do César. Pelo menos disso ela não tem culpa.
   Minha mente gira com esse avalanche de informações. É impossível dormir, com toda essa confusão sobre mim. Me sento no sofá, incapaz de relaxar ou fazer qualquer coisa além de pensar. Tenho vontade de chorar, mas aquela sensação de me quebrar em mil pedaços me impede disso. É como um pesadelo. Fico pensando se de repente, eu vou acordar, e vou estar bem, em casa, com a minha família, e que tudo isso não tenha passado de um sonho ruim. Seria bom demais para ser verdade. Me levanto e vou à varanda, numa tentativa de afastar a sensação sufocante que estou sentindo. Abro a porta de vidro e saio, o vento frio me causando arrepios. Me debruço sobre o muro displicentemente e vejo Will lá embaixo, olhando para mim.


"O que faz aqui?"
   - Pergunto, assim que saio do apartamento.

"Eu tinha que ver você."
   - Will diz, a testa franzida em preocupação. Ele já deve estar sabendo do tiroteio. Eu volto para casa e pego um casaco. Beth vai ficar furiosa, mas tenho que conversar com ele num ambiente longe desse apartamento. Ele me leva até sua casa, e nos permanecemos em silêncio até que ele feche a porta atrás de nós.

"Will, você não precisa se preocupar, estou bem."
   - Digo. Ele me beija levemente, mas não o sinto aliviado como eu pensei que sentiria. Algo me diz que ele está preocupado com algo mais do que o tiroteio. Seu filho, talvez. Nós nos separamos, ele me faz sentar no sofá e diz:
"Me diga exatamente o que aconteceu."

  Então eu conto tudo a ele, desde Alicia até a última descoberta sobre a Rachael. Ele me ouve atentamente, sem interromper, e falo por mais de meia hora. Quando eu finalmente termino, a sensação de agonia saiu e ao invés disso, me veio o cansaço. Um cansaço tão grande que só me faz querer deitar e dormir, até que tudo isso se resolva.

"Eu não sou quem eu pensei que era."
   - Digo, finalmente, a causa de toda a minha angústia.
"Eu achava que estava fazendo a coisa certa, vingando a morte dos meus pais, e agora descubro o que eles realmente foram. Eu defendia a família Vaccari com todas as minhas forças e agora descubro do que eles são capazes. Eu não sei o que fazer. Tudo que eu tinha, toda a minha razão de lutar e fazer tudo que eu fiz se foi."

"Você não tem que se culpar pelo que aconteceu, você não podia saber que tipo de pessoas eles eram..."
   - Will diz, numa tentativa inútil de me consolar.

"Não é culpa, Will."
   - Digo.
"É que, por quem eu vou lutar? Por eles? Eu não tenho algo para defender, porque o que eu tinha, me decepcionou. Até a minha irmã me decepcionou, logo a Rachael, que eu passei a vida fazendo tudo por ela."

Will tenta dizer alguma coisa, mas desiste e desvia o olhar.
Então ele me encara novamente e eu sei o que ele iria dizer.
Will diria que não tinha me decepcionado, mas percebe que ele já me decepcionou também. Fico olhando para ele, a cabeça baixa, se condenando pelo que fez. Seu rosto se mantém contraído; ele é quem se sente culpado aqui.

"Ei,"
  - Digo, levantando sua cabeça e o forçando a me encarar.
"Apesar de tudo, você não se inclui a essa categoria. Não mais."

RACHAEL
Estou deitada, encarando o teto do apartamento. James está do meu lado, de costas para mim, quieto, mas eu sei que ele está tão acordado quanto eu. Suas palavras ainda giram em minha mente. Eu tenho até amanhã para entregar Liza nas mãos do Thomas. Tudo que eu fizer daqui para frente será decisivo para o meu futuro. Mas as palavras de James ainda são prioridade na minha mente, me impedindo de dormir.

"Eu vi a Liza."
    - Sussurro finalmente. James se vira imediatamente para mim, como se não pudesse mais esperar.
"Faz uns dois dias. A gente se falou, mas você sabe, aquele falar por educação. Ela me odeia e eu não a culpo por isso, se estivesse no lugar dela também odiaria. A coisa toda começou quando ela descobriu que eu e Will tínhamos um filho. Ela achava que eu nunca contaria isso a ela, mas eu contaria, só não sabia quando. Esse tipo de coisa não é algo que a gente simplesmente conta, do nada, tipo 'Oi Liza, eu fiquei com o seu namorado e tive um filho com ele enquanto você estava no hospital, achei que gostasse de saber'. Ela tinha acabado de sair do hospital, foi horrível descobrir isso assim. Ela não tem ideia do quanto me arrependo de ter batido na cara dela. A Liza tinha dito umas coisas a mim e eu fiquei zangada porque ela não sabia de nada, não sabia dos meus motivos e nem queria saber, mas isso não me dava o direito de tratá-la daquele jeito."

Me calo por uns instantes.
James continua olhando para mim, seu olhar é um incentivo para que eu recomece.

"O fato é que eu sofri muito depois daquele tiro."
   - Digo, as imagens como um flesh nos meus olhos. Desenterrando lembranças, sentimentos que manti trancados e escondidos dentro de mim.
"Will sempre foi apaixonado pela Liza. Eu nunca o amei e ele nunca me amou, essa é a verdade. Ele tava arrasado e eu mais ainda, por saber que foi o meu tiro que provocou todo aquele estrago. Eu tentei manter as esperanças o máximo que pude, mas se passaram anos e nenhuma evolução no quadro dela. Os médicos diziam que ela podia ficar descerebrada e não acordar nunca. Will e eu estávamos sozinhos, tristes, carentes... Eu achei que de alguma forma podia dar certo. A gente podia consolar um ao outro. Nós namoramos, casamos, tudo isso movido ao desejo de esquecer a Liza, de seguir em frente e quem sabe, ser feliz um dia. A única vez que fui feliz com o Will foi quando Alex nasceu. Eu passei a me dedicar 100% a ele. A verdade é que eu não sabia o que fazer. Liza era tudo o que eu tinha e estava lá, imóvel num leito de hospital. Eu me separei do Will dois anos antes da Liza acordar. Ela diz tudo aquilo de mim, mas não tem ideia do quão difícil foi ficar 10 anos com a culpa de ter quase matado a própria irmã! Ela não pensou nisso, só conseguia pensar que eu tinha roubado seu namoradinho. Eu nunca gostei do Will, nosso casamento foi uma tentativa desesperada de superar a quase-morte da Liza. Ninguém consegue manter as esperanças por 10 anos, James, não numa situação como essa."

"Você não é culpada por aquele tiro, você disparou sem querer, não sabia mexer em uma arma."
   - James diz.
"Mas se você entregá-la ao Thomas, aí sim, você se tornará culpada pela morte dela."

"Exatamente."
   - Digo, então seguro o rosto dele em minhas mãos e solto:
"Escuta, você me pediu para confiar em você e estou confiando; agora é sua hora de confiar em mim. Amanhã nós vamos atrás da Liza, mas você tem que me prometer que vai fazer o que eu disser, tá bom?"

"Rachael, toma cuidado com o que..."
   - James diz, mas eu o interrompo.

"Prometa."
   - Sussurro, meu rosto tão próximo ao seu que posso sentir seu hálito quente. Ele hesita, mas no final, acaba dizendo:

"Ok, eu prometo."