Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

15 de fev de 2014

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 25

LIZA
Eu caminho sobre a calçada, indo ao velho apartamento de Jon e Marty. Observo meus passos sobre o solo, um após o outro, o barulho do salto das minhas botas no chão. A rua está deserta, e eu estou sozinha, enquanto Will dorme sem nem imaginar que estou aqui. Abro a maçaneta e subo as escadas, pensando que esse é o território de Beth e ela poderia saber facilmente que eu estive aqui. Eu não me importo, de qualquer forma.

"Liza?"
   - Jon pergunta, assim que me vê na sala, mais sóbrio do que na última vez que o encontrei.

"Cadê o Marty?"
 
"Ele saiu."
   - Jon diz, então eu vejo o copo de vodka em sua mão. Pelo menos ele não fede hoje.

"Eu preciso falar com você."
   - Digo, fechando a porta. Jon se senta numa cadeira velha e me olha fixamente.
"Alguma coisa me diz que você sabe mais do que aparenta saber."

"O que você quer saber?"
    - Ele pergunta.

"Eu quero que você me conte o que sabe sobre César Vaccari."

   Jon engasga com a bebida e me encara, surpreso. Eu nunca vi Jon preocupado ou espantado como está e sinto o peso que esse nome traz. E isso só me faz ter a certeza de que eu preciso saber quem é ele.

"Por que você quer saber sobre ele?"
    - Jon pergunta, voltando a sua expressão normal. Eu me lembro de Nora junto com ele naquele pub e depois de Beth e o vídeo. Eu podia contar, mas vou guardar o episódio para mim.

"Ele é o meu tio, e é chefe da..."
   - Faço uma pausa, escolhendo que palavras irei usar.
"Da outra parte dos Vaccaris."

Jon solta um suspiro.

"O César é inimigo da Beth faz anos e..."
   - Jon cessa de falar de repente. Há o barulho do copo de vidro caindo e se despedaçando no chão. É um barulho muito leve e remoto comparado aos tiros que atravessam o corpo dele. Conto 5 balas; ele desaba no chão, sangrando. Eu corro.
   Mais tiros são disparados, acertando áreas diferentes da casa. Uma das balas atinge a garrafa de bebida que se despedaça, derramando o líquido pelo chão. Me escondo atrás da mesa. Pelo barulho e velocidade dos tiros, sei que vieram de uma submetralhadora; não uma, mas, várias. A essa altura o sofá já está destruído, com espuma saltando por todos os lados. Pego o celular. Sem sinal. Droga. Me encolho no meu esconderijo temporário. O apartamento está acabado. Observo a porta na minha frente. Não posso ficar aqui a vida inteira. Começo a engatinhar em direção a ela. Então, quando estou próxima o suficiente, me levanto, giro a maçaneta e saio correndo.
  Os degraus são estreitos e está tudo escuro. Eu seguro o corrimão para não cair. A escada faz um ruído alto, o que me faz praguejar silenciosamente. Abro outra porta e os prédios se erguem à minha frente. Estou fora. Então olho para o lado direito e vejo dois homens apontando suas armas para mim. Corro novamente. Mergulho atrás de um carro quando os tiros começam. Estou desarmada, meu carro estacionado alguns longos metros daqui. Um carro preto se aproxima de onde estou escondida. Permaneço imóvel. Fecho os olhos imaginando alguém disparando, a bala atravessando meu peito. Talvez este seja mesmo o fim.


Mas o tiro não vem.
Abro os olhos e o que vejo não são homens do César e sim, Beth e seus capangas.
Ela tem um fuzil na mão e dispara na direção dos caras que atiraram em mim. Eu olho fixamente para ela. Beth veio com uns 4 ou 5 homens bem armados. Observo um deles cair no chão, com uma bala na cabeça. Mais tiros. Permaneço imóvel no meio do fogo cruzado. Os tiros param, mas eles continuam com arma em punho. Então Beth me faz um sinal e eu corro para dentro do carro. Quando eu entro, consigo ver que os dois homens estão mortos no chão. Beth se aproxima dos corpos e diz para um dos caras que estão com ela:

"Faz a marca."
   - Então ela solta um sorriso amargo e completa:
"Quero que César sinta a minha presença."

Um dos homens puxa um estilete e faz um X na testa dos dois corpos. Filetes de sangue escorrem, dando forma ao símbolo. Então todos entram no carro, deixando os corpos estirados no meio da pista. Beth se senta do meu lado e fecha a porta com força. Então ela começa a dirigir, calada. Sua expressão é dura, o maxilar travado.

"Beth, eu..."
   - Tento falar, mas ela interrompe.

"Você vai calar a boca, e só vai falar quando eu disser que deve, entendeu?!"
    - Ela sibila. Olho para ela, incrédula. Seu olhar é ameaçador, como nunca vi antes. Nós nos encaramos, até que Beth olha para a estrada novamente. Nós seguimos o caminho em silêncio até o apartamento. Ela sai do carro e eu a sigo, porque sei que é isso que ela quer que eu faça. Nós duas subimos sozinhas até o seu apartamento. Beth fecha a porta e caminha até a poltrona, mas não se senta.

"O César tá atrás de você, os Hansson estão atrás de você..."
   - Ela começa.
"Olha, eu não sei, garota, mas você tem um dom especial para arrumar confusão."

"Foi o César que matou o Jon?"
   - Pergunto, mesmo sabendo a resposta.

"Você ainda tem alguma dúvida?"
   - Ela rebate.
"Olha, eu não me importo que você me ache uma vadia desalmada por causa daquele maldito vídeo, eu estou tentando te ajudar, mas você precisa colaborar! Eu não posso ficar vindo atrás de você toda vez que entra em encrenca."
Eu permaneço calada.

"O que você foi fazer atrás do Jon?"
   - Beth pergunta.

"Saber sobre o César."

"Por que?"

"Porque eu vi ele num pub."
   - Digo, escondendo Nora e nossa conversa no banheiro. Beth finalmente desaba na poltrona. Seu olhar fica longe por segundos, como se ela estivesse tentando juntar as peças.

"Jon já estava marcado."
   - Beth diz.
"César o matou para impedir que ele te contasse."

"Contasse o que?"
    - Pergunto. Ela me encara, hesita, mas no final acaba dizendo:

"Contasse que a Rachael é filha dele."

RACHAEL
Estou caminhando nos corredores, no último andar da sede. A porta do escritório de Thomas está bem a minha frente. Faz apenas 1 dia que deixei a maleta na casa de Sharon, tudo correu como o planejado, apesar do imprevisto, mas não sei bem como Thomas vai proceder ao descobrir. Vejo James sair de lá, seu rosto contraído em preocupação, me olhando fixamente. Eu paro de andar e espero que ele venha até mim. James se aproxima e sussurra no meu ouvido, sério:

"Vem comigo."

E eu o sigo. Nós nos afastamos dos corredores movimentados e James me faz descer várias escadas, todas elas brancas, com paredes brancas e completamente desertas. James para em frente a uma porta, depois de descer umas 5 delas. De longe, nós somos dois pontos pretos no meio do lugar impecavelmente branco.

"A Sharon foi levada."
    - Ele diz finalmente. Eu já estava esperando por algo assim, então consigo manter minha expressão neutra, sem revelar o menor sinal de satisfação.
"E nem adianta fingir, eu sei que tem dedo seu no meio."

"Por que acha isso?"
   - Pergunto.

"Eu sempre soube que você se vingaria, e então, a mala que a Sharon tinha que entregar para o Thomas era falsa e a verdadeira estava justo na 'casa de campo' dela."

"E por que você acha que alguém armou para ela?"
   - Pergunto.
"O que te faz pensar que ela é incapaz de passar a perna no chefe?"

"A Sharon é a pessoa mais fiel aos Hansson que já conheci."
   - James diz.
"Chega a ser ridículo pensar que ela seria capaz de trair o Thomas assim. Agora você, tem todos os motivos para ter armado isso."

"Eu não fiz nada."
   - Digo lentamente.
"Até porque, era impossível ter acesso à maleta."

"Mas alguém que tenha pode ter entregado a você."
   - Ele rebate.
"Eu sei que você é muito rica, e que muita gente só está aqui pelo dinheiro."

"Thomas colocou pessoas confiáveis atrás da Sharon, você acha que ele colocaria alguém assim tomando conta da maleta?"

"Não sei."
   - Ele diz, então me viro para ir embora. Ele agarra meu braço.
"Eu não vou te dedurar para o Thomas. Caramba, Rachael, eu só quero que você confie em mim, ao invés de ficar negando desse jeito! O que eu tenho que fazer para você entender que eu não sou seu inimigo?"

Olho para James.
Seu olhar confirma o que ele acaba de dizer.
O meu olhar também diz coisas.
Ele diz:
Eu não confio em você. 
Não posso confiar em você.

Não é preciso dizer mais nada.
Eu vejo o rosto dele se contrair em decepção e começo a subir as escadas, voltando a sala de Thomas. Eu queria poderia confiar no James, eu queria que desse certo com a gente, mas eu sou uma Vaccari e ele é um Hansson. As coisas são assim. Tenho que me focar no que realmente importa. Talvez seja até melhor que elas sejam assim.

"Ah, Rachael, que bom que está aqui."
   - Thomas diz, assim que entro em sua sala.
"Eu precisava mesmo conversar com você."

"Conversar sobre o que?"
   - Pergunto. Ele faz sinal para que eu me sente em sua cadeira. Nick é o único que está na sala, me fitando com ódio. James não é o único que desconfia de mim.

"Um assunto muito importante, que já deveria ter sido discutido."
   - Ele diz. Eu permaneço séria e neutra. Thomas se encosta em sua cadeira e abre um sorriso do tipo 'negócios', antes de dizer:
"Sua irmã voltou a Londres e foi vista na casa de seu ex-marido. Eu quero que você traga ela aqui, viva. Tem até amanhã para fazer o serviço."