Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

15 de fev de 2014

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 24

RACHAEL
"O que é?!"
   - Atendo irritada, depois de ter tomado certa distância da Liza.

"Mudança de planos."
   - Edward diz.
"Eles remarcaram para hoje, estamos indo agora para a mansão dos Whitney."

"Droga!"
   - Solto.
"Aguenta aí, eu vou dar um jeito."
 
"Ok."
   - Ele diz e desliga o telefone.

 Saio dirigindo em alta velocidade. Começo a praguejar, contrariada com o imprevisto. Fico imaginando se a Sharon descobriu meu plano e mudou a data, para impedir que eu o concretizasse. Impossível. A única pessoa que sabia do plano era Edward e mesmo assim, ele não tinha porque me dedurar. Edward quer dinheiro, e contar tudo o deixaria em desvantagem. Algo me diz que a mudança de data foi provocada pelos Whitney e não pelos Hansson. Tento agir o mais rápido possível, apesar das inúmeras infrações de transito e em 10 minutos, chego no meu destino.
  O lugar onde estou é um pub, mas que funciona de maneira ilegal. Além de vender drogas, o dono deste lugar é conhecido por fazer dinheiro falso. Foi aqui onde eu paguei pela maleta adulterada. Caminho até o fundo do pub - que está vazio no momento - e assim que abro a porta, três homens apontam pistolas para mim. Eu levanto as mãos e permaneço parada. Então Bob entra no lugar e diz:

"Abaixem as armas."
   - E eles abaixam. Bob franze o cenho para mim e pergunta:
"O que faz aqui tão cedo?"

"Eu preciso da maleta para hoje."
   - Respondo.

"O prazo era para depois de amanhã."
   - Ele diz.

"É, mas aconteceu um imprevisto."
   - Solto, impaciente.

"Bom, sinto muito, mas não posso fazer nada."
   - Bob diz, então coça a barba por fazer e completa:
"A menos que..."

Rolo os olhos e puxo o talão de cheque da bolsa.

"260 mil tá bom para você?"
   - Pergunto.

"É, eu acho que dá pro gasto."
   - Ele diz, enquanto eu assino o cheque e ponho em cima de sua mesa. Então, Bob faz um sinal para um dos caras que apontaram as armas para mim e ele some por uma porta. Quando ele volta, há uma maleta prateada em suas mãos. Bob me entrega a maleta e abre um sorriso cínico para mim, antes de dizer:
"Foi bom negociar com a senhora."



   Estou de volta ao carro. Começo a discar o número de Edward. A maleta está escondida em uma bolsa preta grande que pousa do meu lado, no banco do passageiro. Edward atende na primeira chamada.

"E aí?"
  - Ele pergunta.

"Onde você está agora?"
 
"Dentro de um maldito carro, na porta do Hotel onde a Sharon foi pegar a maleta."
   - Edward responde.

"Você não vai entrar?"
   - Pergunto.

"Não."
  - Ele responde.
"Tenho que ficar aqui fora e esperar, mas o plano ainda tá de pé?"

"Sim."
  - Digo.
"Você vai me encontrar no mesmo lugar que combinamos."

"Espera."
   - Edward diz.
"Como conseguiu a maleta falsa tão rápido?"

"Eu consigo o que eu quiser, na hora em que eu quiser."
   - Digo e desligo logo depois. Faço uma curva. O campo abandonado já é visível neste ponto. Diminuo a velocidade e paro o carro bem no local combinado. Mantenho os vidros fechados. Sharon tem uma casa, longe do apartamento que Thomas designou para ela. A casa fica a poucos metros daqui e neste momento, apenas a empregada está presente. Ensaio mentalmente o papo que vou jogar para entrar na casa. Uma vez lá dentro, só preciso entrar em seu quarto e esconder a maleta verdadeira, enquanto ela está entregando a maleta falsa para o Thomas. Ele vai perceber que o dinheiro é falso e vai cobrar de Sharon. Então é só uma questão de tempo para ele revistar seu escritório, apartamento e sua casa.
   Espero pacientemente no carro. Passaram-se meia hora até que um carro se aproxime do meu. Um homem sai de dentro com uma maleta na mão. Edward. Ele se aproxima do meu carro, eu abaixo o vidro e digo:

"Bom trabalho, Edward."

"Aqui sua maleta."
  - Ele diz, passando a maleta pela janela do carro. Tiro a maleta falsa da bolsa e entrego a ele. Edward olha para os lados, pisca para mim e caminha de volta para o seu carro. Observo o automóvel sumir na estrada. Minha vez de mexer os pauzinhos. Pego uma touca no fundo da bolsa e coloco, escondendo todo o meu cabelo dentro dela. Ponho os óculos. Arrumo a maleta cuidadosamente dentro da bolsa e saio.
   Caminho alguns metros até parar em frente à porta da casa de Sharon. Toco a campainha. A partir de agora não sou mais Rachael Vaccari e sim Lila Gonsález, a estudante estrangeira e perdida. Faço uma nota mental: use sotaque latino-americano. A porta se abre e uma moça bem jovem me encara com grandes olhos castanhos.

"Posso ajudar?"
   - Ela pergunta, aparente surpresa. Sharon não costuma receber muitas visitas.

"Bom dia."
   - Sorrio. Até que meu sotaque fajuto não é tão ruim assim.
"Desculpe, é que eu preciso muito de uma informação."

A empregada fica calada por um tempo, me medindo da cabeça aos pés.

"O que você quer saber?"
   - Ela pergunta.

"Pra que lado fica essa avenida?"
   - Digo, estendendo um pedaço de papel com o nome do local. Continuo:
"É que eu sou nova na cidade, vim da Colômbia e..."

"Colômbia?"
  - Ela pergunta, focando sua atenção em mim.

"Sim, porque?"
   - Pergunto.

"Oh, meu Deus, eu também sou de lá!"
   - Ela diz, e depois ri, sua expressão se suavizando.
"Desculpa te deixar aqui fora, entra."

Foi mais fácil do que imaginei.
A jovem abre espaço para que eu entre, e fecha a porta logo depois. Eu examino a casa. Decoração vintage. Vejo alguns móveis com design antigo e muitas peças de madeira envernizada. A empregada começa a falar, descontraída:

"É tão reconfortante encontrar alguém da minha terra, depois de tanto tempo no meio dos europeus e desse frio terrível! Você nem acredita as poucas e boas que já passei quando cheguei aqui. Era horrível, eu ficava doente o tempo todo!"
   - Ela ri novamente e pede para que eu me sente. Eu a observo mais atentamente. Sua pele é pálida, porém, o tom não é uniforme como deveria ser. Há áreas mais escuras e outras mais claras, o que me diz que ela já teve a pele bronzeada antes, mas depois de tanto tempo sem muito contato com o sol, ela acabou empalidecendo. Ela é jovem, talvez 18 ou 19 anos. Mantém os cabelos escuros presos em um coque. Não é muito esperta também, caiu na minha conversa rapidinho. Ou talvez eu tenha me tornado mais persuasiva, sem perceber.
"Ah, eu esqueci de me apresentar. Me chamo Maria."

"Prazer, eu sou Lila."
   - Respondo, estendendo a mão, que ela aperta com um sorriso.

"Então, Lila, está gostando de Londres?"

"Um pouco."
  - Respondo.
"Não posso falar muito, porque mal conheci a cidade."

"É claro que não, você até se perdeu! Que cabeça a minha!"
   - Ela diz e ri novamente. Suas risadas excessivas começam a me incomodar.

"Desculpe, mas eu não bebi nada desde que cheguei, pode me dar um copo d'água?"
    - Pergunto, na esperança de que ela me deixe sozinha por um momento.

"Oh, claro!"
   - Ela diz e vai para a cozinha, ao que agradeço imensamente.
A casa fica silenciosa, sem a tagarelice de Maria. Fico impressionada em saber que Sharon consegue aturar uma empregada tão desatenta e boba quanto ela. Examino o cômodo. Provavelmente, não vai dar tempo de subir e pôr no quarto. Então, meus olhos voam para uma larga cômoda no lado direito da sala. Me levanto. Há uma mínima quantidade de poeira acumulada no puxador da última gaveta, o que significa que ela não foi muito usada faz um tempo. Tiro a maleta da bolsa e abro a gaveta. Está quase vazia, exceto por uma folha insignificante de papel. Coloco a maleta rapidamente lá dentro e fecho. Quando me sento novamente no sofá, a empregada aparece com um copo d'água na mão. Aceito a água com um sorriso e tomo um gole.
Você precisa ir embora rápido.
Maria volta a tagarelar e de repente, tenho uma ideia.

"Maria, eu preciso fumar um pouco, então você pode me dar licença um minutinho?"
   - Pergunto. Ela parece um pouco desapontada, mas diz:

"Claro, é melhor que fume lá fora mesmo."
   - Então ela completa com a informação:
"A minha patroa odeia cigarro."

Aceno com a cabeça e abro a porta.
O vento frio chicoteia meu rosto. Estava tão aquecida lá dentro que me esqueci por um instante como é frio aqui fora. Estou fora, entretanto. Olho para os lados, afim de me certificar que ninguém esteja me seguindo e desço as escadas. Meus passos são silenciosos. Ajeito o óculos e viro a curva, correndo em direção ao carro. Não demora muito para que eu o encontre no mesmo lugar que deixei, intacto. Então, a única coisa perceptível quando bato a porta do veículo é a sensação prazerosa de missão cumprida. A frase paira nos meus lábios, como se eu ansiasse por dizer:

Está feito.