Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

15 de fev de 2014

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 23

LIZA
Nós entramos em um pub quase vazio. Ele se parece com o pub da Wall Street, o que me lembra Jena e a carnificina que aconteceu ali. Fico imaginando o que deve ter acontecido naquele pub depois que eu fui embora.
   Ainda não tive tempo para digerir aquela visão de Alicia morta nos fundos da casa de Will. Nós saímos de lá, por precaução, mas ninguém nos seguiu e não fomos atacados. Fico pensando o que nós faremos com o corpo quando Will diz, como se estivesse lendo meus pensamentos:

"Eu vou dar um jeito de esconder o corpo."
   - Eu sei o que isso significa. Nada de polícia. Will me olha calado por algum tempo e depois pergunta:
"Você conhecia ela?"

"Sim."
   - Digo. Não tem porque mentir. O som da voz dela, cantando Amy Winehouse no palco daquele lugar toma conta da minha cabeça. Ela me disse que foi para lá porque ninguém repararia nela, nem ficaria sabendo sobre o viral. Fico me perguntando se alguém vai sentir falta de vê-la cantar. Will continua olhando para mim, como se esperasse que eu dissesse mais alguma coisa, então eu digo, sem saber bem por onde começar:
"Aconteceram muitas coisas desde que eu fui embora. Eu descobri que a minha mãe tinha um diário e foi por meio dele que conheci ela."

"Um diário?"
   - Will pergunta, como um incentivo para que eu continue.

"O nome dela era Alicia Hinnendel. Ela era amiga da amante do meu pai, que morreu da mesma forma que ela e..."

Eu paro de repente.
Will me lança um olhar interrogativo.
Minha atenção se volta para o outro lado do pub, onde uma mulher tamborila com os dedos na mesa. Nora. Eu continuo olhando na mesma direção até que um homem entra e se senta na mesma mesa que ela. Nora abre um sorriso para ele. O homem tem cabelos negros que vão até quase os ombros e uma barba por fazer. Ele então tira os óculos escuros e suas feições são familiares para mim.
Sinto um calafrio.
Ele estava no vídeo.



"Liza?"
   - Will me chama, confuso. Nora sussurra para seu acompanhante e se levanta. Eu a sigo com o olhar até constatar que ela foi ao banheiro.

"Me espere aqui, eu já volto."
   - Digo, e antes que Will comece a objetar, eu já estou caminhando em direção ao banheiro feminino.

   Passo os olhos pelo local, assim que fecho a porta. Todos os reservados estão vazios, o que significa que eu e Nora somos as únicas aqui. Alguém pode entrar aqui a qualquer momento, portanto decido ser direta e rápida. Ela está retocando o batom, mas para, assim que me vê.

"Olá, chérie."
   - Nora diz, sorrindo.
"Que surpresa vê-la por aqui, pensei que estivesse com mademoiselle Beth no Brasil."

"Quem era o seu acompanhante?"
   - Pergunto. Seu sorriso some e ela me olha espantada. Então, Nora se recompõe e veste aquela velha máscara de confiança.

"Desculpe, princesse, não entendi."
   - Ela diz.

"Entendeu sim."
   - Rebato, séria.
"Eu quero o nome e sobrenome desse cara."

"Por que?"
  - Ela pergunta, assumindo uma expressão séria e desconfiada.

"Assuntos meus."
   - Respondo. Nora se cala, me medindo. Então ela tenta fugir, mas eu seguro seu braço com força. É quando eu percebo um movimento dela, sutil, quase imperceptível. Ela tira da bolsa já aberta uma adaga. Eu faço de conta que não percebi e espero até que ela já tenha puxado metade da faca para agir.
Nora não espera minha reação. Eu a empurro com força e ela se choca contra a parede. Eu saco a pistola e aponto para o seu peito. Ela crava seus olhos verdes em mim com assombro.

"Solta a faca."
   - Sibilo. Ela hesita, mas depois joga a adaga no chão. Eu a chuto para longe do seu alcance.
"Agora, você vai responder direitinho a minha pergunta."

"Ok, ok."
  - Nora diz.
"O nome dele é César Vaccari, satisfeita?"

César.
Primo do meu pai.
Me lembro das palavras do diário, do modo como minha mãe o classificou.
Ele está aqui, em Londres, com Nora.

"Beth não te mandou aqui, não é?"
    - Digo. Ela desvia o olhar.
"Por isso tentou me atacar, para que eu não contasse para Beth que você se encontra com o pior inimigo dela sem sua permissão."

"Olha, se você abrir a boca eu..."
   - Ela diz, em tom de ameaça. Eu rio e solto, antes que ela complete a frase:

"Pode ficar tranquila."
   - Asseguro.
"Não vou te dedurar, só queria uma informação. Agora é melhor ir embora, antes que seu ilustre acompanhante note sua demora."

Ela desencosta da parede e ajeita o vestido. Então ela para na minha frente, estende a mão e diz:

"Minha faca."
 
"Para você me apunhalar pelas costas? Não."
   - Digo.
"Vai ter que arrumar outra arma."

Nora então me lança um olhar carregado de ódio e vai embora.
Quando volto para minha mesa, Nora e César não estão mais lá. Will me segue com o olhar. Eu me sento e olho para ele. Ele mantém a testa franzida, em sinal de preocupação e está com o telefone na mão.

"O que aconteceu?"
   - Pergunto.

"Rachael acabou de me ligar."
  - Ele diz e eu sinto um nó na garganta.
"A casa da minha mãe foi incendiada."

RACHAEL
Suspiro aliviada ao desligar o telefone. Alex não estava na casa. Tinha ido para a casa da tia, horas antes do incêndio acontecer. Ellen era a única que estava lá dentro. Dirijo em direção a sua casa, sabendo que haverá um monte de gente lá, incluindo policiais e bombeiros. Eu sei que Will vai para lá. Eu posso estar aliviada em saber que o meu filho está a salvo, mas não é tão simples assim para ele. A sua mãe morreu. Eu nunca tive uma relação muito boa com ela, portanto, tudo vai ser muito mais doloroso para ele.
   Quando me aproximo do conjunto residencial onde fica a casa de Ellen, vejo uma quantidade enorme de pessoas no meio da rua, como eu previ. Abro a porta do carro e ponho os óculos. A única vantagem disso é que posso me misturar facilmente à multidão e procurar por Will. Corro para perto das pessoas, e tenho uma visão mais nítida da casa. A maior parte dela se tornou cinzas. Há um pouco de fumaça que sai aqui, ou lá, mas o incêndio foi contido. Provavelmente já retiraram o corpo, ou o que restou dele. Então eu desvio o olhar da casa e vejo Will caminhando na minha direção. Ele me vê, e faz sinal para que eu me afaste da multidão. Nós conseguimos ir para uma parte mais vazia da rua e só então percebo que ele está acompanhado. Liza.

"Onde minha mãe está?"
   - Ele pergunta, sua voz um pouco mais alta que o normal, por conta do barulho das sirenes e pessoas falando ao mesmo tempo.

"Ela estava dentro da casa, o que me leva a crer que..."
   - Respondo, mas paro de falar ao ver a dor estampada em seu rosto. Ele sabe o que isso significa. Ele abaixa a cabeça e se mantém calado por um bom tempo.

"Sobrou alguma coisa do corpo?"
   - Ele diz, finalmente.

"Eu não sei."
   - Digo.
"Você deveria perguntar isso para a policia."

"Pelo menos o Alex está bem."
   - Will conclui com um sorriso fraco, tentando parecer bem. Eu sei que ele está repetindo isso para si mesmo para que não desmorone de vez. Se agarrando em alguma coisa boa para suportar as ruins.

"É."
  - Solto. Então nos encaramos em silêncio, até que eu diga:
"Talvez ele esteja..."

"É, eu vou procurar por ele."
   - Will completa, e depois vai embora, dispensando a companhia de Liza.

Ela olha para mim, claramente desconfortável. Faz tanto tempo que não falo com a Liza, e nossa última conversa foi tão conturbada que sou incapaz de puxar qualquer assunto. Nós ficamos em silêncio por um tempo, até que eu não aguento mais e digo:

"É uma tragédia o que aconteceu, né."
 
"Eu sei que foi os Hansson que fizeram isso."
   - Liza diz, calmamente.
"Não precisa fingir que não sabe."

"Olha, Liza, eu..."
    - Começo, mas algo me interrompe. Meu celular tocando. Olho para o visor. Edward. Olho para Liza e digo rapidamente:
"A gente se vê depois."