Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

9 de fev de 2014

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 21

RACHAEL
Eu estou em frente a casa de Ellen. Não há ninguém ali, exceto Alex. Ele sorri para mim, com aquele mesmo jeito inocente e feliz. Eu sorrio de volta, encantada, tão alegre por saber que meu filho está lá, de braços abertos para me receber. Ele não me julga, como todo mundo faz, e me chama de mamãe com a mesma afabilidade, como se eu nunca tivesse me afastado. Eu estou correndo, correndo muito, ansiosa por estar perto dele. A distância parece ser muito maior do que eu estou deduzindo e me forço a ser mais rápida. O vento frio chicoteia meu rosto e eu finalmente estou me aproximando dele. Ele continua no mesmo lugar, sorrindo. Então, quando penso que vou finalmente abraçá-lo, tudo explode ao meu redor.
Eu acordo aos gritos. 
Acabei de assistir o meu filho explodindo. Os pedaços de carne saltando dele, as chamas consumindo seu corpo ainda estão vivas na minha mente. James me segura, pergunta se eu estou bem, mas sou incapaz de responder.

"Calma, calma, está tudo bem."
   - Ele diz, tentando me acalmar. As lágrimas ainda escorrem dos meus olhos.
"Você está comigo. Aquilo foi só um sonho ruim."

"Meu filho."
  - É a única coisa que consigo dizer.

"Ele está bem, está tudo bem."
   - James garante. Eu me acalmo aos poucos, enxugando as lágrimas dos meus olhos. Eu respiro fundo e abraço James. Ele retribui meu abraço, me apertando forte, sussurrando palavras de conforto para mim. Começo a observar tudo ao meu redor. Eu estou no apartamento, deitada numa cama ao lado de James. Tudo está bem. Aquilo não é real.
Mas algo me diz que não foi só um sonho.
Alguma coisa de muito ruim vai acontecer com meu filho.



"O Alex está em perigo."
   - Digo, me levantando da cama. James tenta agarrar meu braço, mas eu desvio.

"Rachael..."
   - Ele diz, ainda sonolento.
"Foi só um sonho. Vem cá, volta a dormir."

"Não foi só um sonho, eu sei que não."
   - Afirmo. Corro e pego um sobretudo preto no closet, colocando por cima da minha roupa de dormir.
"James, eu preciso impedir isso."

"Não há nada para impedir."
   - James diz.
"Por favor, Rachael, não inventa de sair no meio da noite só porque você teve um sonho."

"James."
  - Digo, me aproximando dele. Eu seguro seu rosto entre minhas mãos e sussurro:
"Eu sei diferenciar um sonho da realidade."

"Então vamos voltar a dormir."
   - Ele pede. Eu me afasto.

"Você pode voltar a dormir, se quiser."
   - Digo, calçando uma sapatilha, pronta para ir.

"Não."
   - Ele diz, pulando da cama. James pega uma calça jeans jogada na poltrona e veste.
"Se você for, eu vou também."

   Eu me sento na cama, impaciente. Ele não demora muito para se vestir, mas para mim, que estou ansiosa, é como se durasse uma eternidade. Ele pega a pistola, as chaves e nós saímos.
  James guia a BMW nas ruas, pela madrugada. Nós estamos indo para a casa de Ellen, que fica a quase meia hora daqui. Eu mexo minha perna direita sem parar, ansiosa. Ele vê meu sinal de agitação e diz:

"A gente já tá chegando, Rachael."

E de fato, nós estamos chegando.
A parte ruim é que eu vejo uma luz muito forte de longe. Conforme nos aproximamos, eu vejo melhor. Fumaça. Chamas. Incêndio.
A casa de Ellen está pegando fogo.

Abro a porta do carro e corro. A voz de James me chama, mas eu não me importo. Alex mora com a avó, e a ideia do meu filho sendo devorado pelas chamas, como naquele sonho me apavora. Eu já estou quase pulando o gramado da casa quando uma explosão ocorre.
O impacto me desequilibra e eu cairia, se James não estivesse ali. Ele passa o braço ao redor da minha cintura e me puxa para longe da casa queimando. Eu estou chorando descontroladamente, como nunca chorei na minha vida, e grito o nome do meu filho várias vezes.
Então, James tampa minha boca com a mão e faz sinal para que eu fique quieta.
Eu não entendo no início, mas um movimento atrás da casa chama a minha atenção. Um vulto preto corre com alguma coisa na mão. Eu me aproximo lentamente do local, acompanhada por James. Então outra pessoa aparece, mas dessa vez posso ver seu rosto nitidamente.
Sharon.
A fúria silenciosa toma conta de mim.
Então, James me larga e eu percebo que ele está tão irado quanto eu, mas sua fúria é diferente da minha. Ela é forte, agressiva, incapaz de ser contida.
Eu observo James caminhar a passos largos e vou atrás dele. Sharon não está sozinha. Nick guarda o galão de gasolina no porta-malas do carro e quando o fecha, James parte para cima dele.
Eu nunca vi James tão nervoso.
Ele disfere vários socos no rosto de Nick e Sharon tenta segurá-lo, gritando.
James continua, batendo o rosto dele contra o porta-malas do carro. Eu observo a cena, imóvel. Nick não reage, enquanto James continua batendo nele como uma besta solta. Nick cai e James começa a chutá-lo violentamente. Sharon agarra o braço dele e James a empurra com brutalidade. Ele a encara furioso e deixa Nick lá, sangrando no chão.

"Você é uma vagabunda!"
   - James grita para Sharon. Ela olha para ele, incrédula, com os olhos arregalados. Ele caminha até Nick e sibila:
"Eu deveria ter te matado, sabia?"

 "Fui eu que armei tudo."
   - Ela diz. James a encara, incrédulo.
"E quer saber? Eu só não matei sua namoradinha porque o chefe não deixou, porque, diferente de você, eu honro o nome da nossa família!"

"Você não sabe o que tá falando!"
   - Ele grita.

"Ela é uma Vaccari! Ela vai te trair, seu ótario! Eu fiz isso porque eu quero essa mulher longe daqui, ela só vai arruinar todos nós!"
   - Sharon grita de volta, apontando para mim e me olhando com ódio.

"Cala a boca, Sharon."
   - James diz.
"Você nem tinha ordem do chefe para fazer nada disso!"

"Você está defendendo uma mulher que nem conhece!"
  - Ela diz e ele se cala.
"Nós somos a sua família, não ela. Eu e o Nick estávamos lá quando você não tinha ninguém! Ela apareceu ontem. Lembre-se de que somos a única coisa que você tem."

Sharon então começa a ajudar Nick a se levantar. James tenta ir atrás dele, mas eu seguro seu braço. Ele olha para mim.

"Deixe eles irem. Por favor."
   - Digo docemente.

Eu olho para Sharon que me encara com ódio.
Então ela põe Nick no carro, entra nele e vai embora.

"Você estava certa sobre o sonho."
    - James diz, quando eles vão embora. Eu não respondo, apenas me inclino para frente e roço gentilmente meus lábios nos dele. A gente fica assim por um tempo, até que eu digo:

"Vamos para casa."
  *
Eu me deito na cama, aguardando James sair do banho. Eu preciso procurar Will amanhã e saber se Alex estava dentro da casa. Eu sei que não vou dormir mais, não enquanto não descobrir se o meu filho estava ou não lá dentro. Sharon armou tudo. Eu já deveria imaginar que ela faria algo do tipo.
   Fico absorta nos meus pensamentos e nem percebo que James está lá, deitado de lado, com a cabeça apoiada na mão, me olhando fixamente.

"Você tem um plano, não é?"
   - Ele pergunta, assim que percebe que eu me dei conta de que estava me vigiando.

"Porque acha isso?"

"Você não deixaria a Sharon sair viva dali se não tivesse."
   - James diz com um sorriso fraco.

"Não sou tão vingativa quanto pensa."
   - Minto, abrindo um sorriso. Ele rola os olhos e diz a mesma coisa que disse quando eu cheguei aqui:

"Você não engana ninguém, Rachael."