Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

28 de jan de 2014

Fúria - Capítulo 10

Estou numa sala feia de um apartamento em ruínas.
Pelo menos, o lugar é menos fedorento do que o contêiner em que tive que ficar com Jack.
Então, a minha sensação é de estar voltando a mesma berlinda.
Só que a única diferença, é que tenho alguém que jamais pensei que aceitasse fazer uma coisa dessas.
Will.

  Ele tem o dedo no gatilho de uma arma de choque travada e brinca, girando a arma em sua mão.
O homem no qual nos ainda não sabemos o nome, parece um pouco lerdo, mas o olha com hostilidade. Will começa a seguinte conversa, sem se dar o trabalho de dirigir os olhos ao homem.Will está frio e indiferente como nunca havia o visto na vida.

Enquanto eu, bem, eu apenas observo a partida.

"Como não estou familiarizado com enrolações, vou ser direto. Aliás, você sabe muito bem por que está aqui e o que nós queremos não sabe?"
    - Will tem um pano velho em sua mão. Seu rosto está perto o suficiente para que o homem cuspa nele. Will sorri friamente, limpa o rosto e enfia o pedaço de tecido na boca do homem que se debate. Will então destrava a arma de choque e a usa contra a perna dele. O homem estremece por alguns segundos. Will tira o pano de sua boca e então puxa o banco e diz:
"Eu quero saber quem é, e onde posso encontrar teu chefe."


O homem o cospe de novo. Will continua na mesma tranquilidade de antes e usa sua arma novamente. O homem tenta gritar, mas a bola de tecido em sua boca o impede. Eu posso ver as veias alteradas do seu pescoço. A visão, que para qualquer um seria horrível, para mim não é nada. Eu não consigo sentir nada pelo homem sendo eletrocutado na minha frente.
   Pela paciência e frieza de Will, ele está realmente disposto a torturá-lo o tempo possível até conseguir respostas. Nós não temos presa. Até que um barulho de pneu arrastando no asfalto nos faz ter.
   O efeito é imediato. Will desfaz sua cara serena e olha pra mim cautelosamente. Eu vou para a janela do edifício. Will saca sua pistola, aponta para a cabeça do homem e sibila:
"Quem é?"
"Vocês estão ferrados."
   - É o que ele diz. Ele sabe o que está acontecendo. Sua expressão é de divertimento. Quando me volto para Will, a única coisa que digo é:

"Carros."

   É o suficiente. Will me manda apontar meu revólver para a cabeça do homem e eu o faço. O homem me encara sorrindo cinicamente, enquanto minha mira fica fixa nele. Will tira as correntes de seu braço, o levanta e as recoloca. O homem está tão certo de que não vamos escapar, que ele não faz nenhum esforço para fugir ou para nos atacar. Ele só fica lá, sorrindo cinicamente. Nosso tempo está acabando. Já devem ter entrado no apartamento. Will o segura, mira sua pistola na cabeça dele e me diz:
"Por aqui."
   Nós saímos por um corredor escuro que leva a uma escada estreita e enorme. Eu assumo o comando e os guio pelo local escuro, enquanto Will se preocupa com ele. Então, nós ouvimos passos. Pelo som, eles já chegaram ao local onde estávamos minutos antes. As escadas parecem intermináveis. Em alguns pontos, há buracos na parede no qual entra um pouco de luz. Depois de muitos degraus, finalmente alcançamos a saída. É uma porta de madeira velha e podre. Eu a abro. E então, tiros.
   Eu me abaixo instintivamente com o barulho das balas na minha direção. Eles nos alcançaram. Eu tento pegar minha arma, mas antes disso Will grita que eu corra para o carro. Ele me dá cobertura enquanto eu alcanço ofegante a alça da porta do carro e a abro. Will está no meio do fogo cruzado, disparando e usando o corpo do homem como escudo. Eu vou para o banco do volante e ele começa a se aproximar do carro. Os tiros são agoniantes. A minha espera para que Will entre nesse maldito carro é agoniante. Quando ele entra, empurra o homem com toda a força no chão e fecha a porta. Eu piso no acelerador. Will emborca a cabeça para fora da janela e dispara várias vezes contra o homem no chão. É claro que Will não iria permitir que ele permanecesse vivo. Nós deixamos o homem morto e os tiros dos sobreviventes para trás.
     Eu dirijo em alta velocidade por muito tempo. Só quando eu tenho a plena certeza que eles nos perderam de vista é que dirijo mais calmamente. Pela velocidade e infrações cometidas, se nos pegarem vão apreender esse carro, sem dúvida. Temos sorte, não há nenhum guarda de trânsito. Quando paro de correr freneticamente é que começo a pensar para onde nós vamos. Nós fugimos sem rumo durante um tempo. Decido parar em frente a um porto. Bem, eu não tenho certeza de que seja um porto. Há o monte de água e uma superfície de madeira. Isso deve ser um parque para passeios de bote. Will e eu saímos do carro e nos sentamos na beira da ponte. Ficamos calados durante muito tempo, apenas observando a água. Até que a curiosidade me toma e decido perguntar:
"Por que está fazendo isso?"

"Isso o que?"
   - Ele pergunta distraído.
"Me ajudando. No meu plano louco de vingança."
    - Will solta uma rápida risada. Então ele fica calado novamente, depois me encara e diz:

"Eu não sei. Talvez eu seja tão louco quanto você."

      Eu sorrio. Talvez não passemos de loucos. Talvez sejamos apenas loucos desafortunados que estão se vingando por aí. Eu nunca senti satisfação em matar alguém. Eu nunca me senti bem depois de algum tiroteio, mas eu sempre agi sozinha. Só que eu não tinha ideia do quão prazeroso seria me aventurar com Will. E apesar de quase termos morrido, eu me sinto feliz. Eu me sinto viva. Nós somos livres. Indomáveis. Will me encara durante um tempo. Estou olhando nos seus olhos. São raras as pessoas que sabem sorrir com os olhos, como Will. Há algo magnético que me puxa para ele. Como um ima. E quando eu finalmente o beijo, percebo que jamais poderia imaginar o quanto seus lábios podem ser quentes colados aos meus. É aqui onde eu pertenço. Nós formamos um encaixe perfeito. Percebo que os lábios de Will se tornam um refúgio para mim. Assim, a dor, mágoa e culpa são imperceptíveis. Will envolve o braço na minha cintura e me puxa para ele. Eu esqueço de mim. Eu não posso medir meus atos agora. Somente o toque do meu celular me puxa de volta a realidade.
    Nós nos separamos subitamente, relembrando que isso não deveria acontecer. Nós não somos um casal. Nunca ouve nada de romântico entre mim e Will. Fico feliz que eu tenha que atender o telefone e ignorar temporariamente o que aconteceu. Percebo que o celular de Will também está tocando. Nós nos entreolhamos. Nos nossos visores, há o nome e número de Lauren.