Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

29 de jan de 2014

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Prólogo + Capítulo 1



"O seu único erro foi ter decifrado apenas uma parte do enigma."
Lauren Black me disse isso antes do tiro. Tiro que fez com que eu me desligasse do mundo completamente. Pelo menos, é isso o que as pessoas pensam. Todos acham que eu dormi por 10 anos e só agora acordei, completamente inerte do que acontecia ao meu redor. Mas eu estava lá. Eu sempre estive. Ouvindo as vozes, os choros, os toques. Eu sentia tudo, só não conseguia me libertar da prisão do meu próprio corpo. Então os meus olhos se abriram. As pessoas dizem que eu voltei, mas eu encaro isso como um ressurgimento. Eu sinto lhes informar, mas não sou mais a Liza Vaccari de que se lembram.

Nota: Há algumas novidades nessa segunda temporada, uma delas é que vocês verão o conto sendo narrado por dois pontos de vista; o de Liza e o de sua irmã, Rachael. Espero que gostem.
CAPÍTULO 1
LIZA 
As pessoas vêem o coma como um portal para outras dimensões. Elas sempre imaginam que você irá ver coisas sobrenaturais ou mundos diferentes.
        Só que a realidade as vezes não é essa.
        Mas espere, vamos com calma, de volta ao começo.
     Eu levei um tiro, afinal. Então fui mergulhada numa espécie de inércia na qual eu lutei para sair por sei lá quanto tempo. A única coisa que eu pensava era se a minha irmã estava bem, se ela tinha sobrevivido aquele ataque e se ela estava esperando pacientemente com que eu acordasse.
   Então, eu acordei.
   A sensação é estranha, um misto de incredulidade e euforia.
   Meus dedos se moviam de novo.
   Eu podia ver, ouvir, falar novamente.
   Eu observo tudo ao meu redor, mexo as mãos, toco nos tubos que injetam o soro frio na minha corrente sanguínea.
   Eu estou de volta.



"Senhorita Vaccari?"
    - Uma voz feminina diz. Eu me viro para a direção do som e uma enfermeira me olha espantada na porta. Ela avança, checa o prontuário e acende uma luz bem no meu olho.
"O que está fazendo?"
    - Digo, irritada.
"Checando os seus sentidos. Pode seguir a luz?"
    - A enfermeira, médica ou sei lá o que, diz e eu faço uma cara de tédio. Quando ela continua, eu agarro sua mão e digo:
"Eu estou bem."
    - Ela me olha duvidosa.
"É sério. Eu posso ver, ouvir e falar normalmente."

"A senhorita estava em coma e acaba de acordar."
    - É o que a moça diz.
"Me desculpe, mas eu tenho que fazer o meu trabalho."
"Você é médica?"
    - Eu pergunto e ela me olha como se eu estivesse a ofendendo, mas então baixa os olhos para o prontuário novamente.
"Interna."
    - A moça responde.
"É seu primeiro dia aqui, não é?"
    - Pergunto e ela rebate:
"Por que acha isso?"

"Porque você está toda perdida."

   Ela me encara por alguns segundos e então diz:

"Eu vou chamar o atendente responsável pelo seu caso, está bem?"
      - Eu faço que sim com a cabeça. A moça se vira e quando já está quase saindo eu solto:
"Será que pode fazer um favor para mim?"
    - Ela faz que sim com a cabeça e eu digo:
"É a minha irmã. Rachael Vaccari. Pode procurar ela pra mim?"

"Vou ver o que posso fazer."

      - A interna responde e vai embora.

RACHAEL
O céu está cinza, um típico céu de outono. Eu me sento no balanço no centro do parquinho, com a areia entrando no meus pés e me lembrando de quando fui criança. Liza me levava para passear as vezes. Mas eu nunca tive a oportunidade de pronunciar a palavra "mãe" como Alex diz constantemente. 7 anos. Alguém que já teve um familiar em coma consegue manter as esperanças por 7 anos? Eu não consigo. Até um tempo eu esperava ansiosamente o telefone tocar com a notícia de que ela estava de volta, mas então a vida me forçou a seguir em frente. Eu terminei a faculdade, me especializei em psicanálise, tenho uma clínica, uma casa confortável e uma fortuna quase intacta. Tudo que uma pessoa precisa para ser feliz pelo resto da vida, sim? não. A verdade é que enquanto eu tento parecer uma pessoa realizada e de bem com a vida, eu convivo silenciosamente com o monstro da lembrança de minha irmã quase-morta e as consequências de suas antigas burradas.

Mas então, quando eu decido esquecer Liza de uma vez por todas, meu telefone toca.

"Rachael Vaccari?"
   - A voz masculina do outro lado da linha pergunta.

"É ela mesma. Quem fala?"

"Eu sou o doutor Walker, responsável pelo caso de sua irmã."
    - Eu gelo.
   Faz anos que eu não ouvia esse nome. Engulo seco e digo:

"Aconteceu alguma coisa?"

"Sim. Acho melhor a senhorita vir aqui o mais rápido possível."
    - Ele diz e eu fico imóvel, tensa. E a preocupação vem quando ele completa:

"Sua irmã acabou de sair do coma."