Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

29 de jan de 2014

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 8

RACHAEL
     Eu acabo de deixar Alex na casa do Will. Eu sei, eu sei. É o meu filho. Eu deveria cuidar dele, deveria me aproximar mais dele. O problema é que estou tão encrencada que não me atrevo em levá-lo para minha própria casa. É mais seguro que ele fique com o pai. Eu pareço ser alguém horrível, por ter feito tudo o que fiz com a minha irmã, mas eu me preocupo com meu filho. Eu faço coisas que nunca fiz pelo bem dele. Não posso dizer que estou satisfeita com a situação que estamos vivenciando agora, mas não há outro remédio. Alex vai ficar com o pai, até que tudo se resolva.
   
"Tem certeza que se afastar é o melhor que pode fazer, querida?"
     - Ellen, mãe do Will, me pergunta. Ela tenta dar conselhos inúteis para mim o tempo inteiro, como se eu não soubesse cuidar de mim mesma sozinha. Eu costumo calcular muito bem os meus passos e eu sei aonde piso.

"Não há outra saída."
    - Respondo. Ela olha para Alex, que está na sala brincando com Will e me dá um sorriso triste. Então, quando eu não aguento mais ver a pena estampada em seu rosto, eu dou um jeito de cair fora.
 
   Eu estou na estrada, em direção ao consultório. Uma mão no volante, a outra apoiada sobre a janela, segurando um cigarro. Eu costumo fazer isso todos os dias. É estranho. Tudo parece estar tão igual, sendo que está tão diferente. Eu entro na clínica e vou direto para a minha sala. A secretária tenta me avisar alguma coisa, mas eu a ignoro completamente. Resolver os conflitos dos outros, esse é mais ou menos o  meu trabalho. É uma pena que eu esteja ocupada demais montando uma estratégia para o meu próprio conflito.
   A minha sala está mais clara do que antes, com os raios de sol batendo contra a porta de vidro que leva à varanda. Eu jogo minha bolsa em um dos sofás, e estou disposta a me sentar nele até que algo chama a minha atenção. Um pedaço de papel descansa em cima da minha mesa.

"Rachael Vaccari, 
     eu estou te dando mais uma chance de se retratar."


O autor do bilhete não se identifica, o que já não é mais necessário.
Do outro lado da folha, um endereço.
Eu leio os dizeres várias vezes e derrepente, eu tenho uma estratégia.

LIZA
Eu saio do banho com uma toalha enrolada na minha cabeça. Eu estou usando uma camiseta da Beth emprestada e ela está meio folgada em mim. Beth não está em casa. Ela me disse que resolveria algumas coisas e voltaria tarde. É estranho estar dividindo o teto com uma pessoa que eu conheci dias atrás, mesmo sabendo que ela é a minha tia. Nossa conversa de dias atrás vai e volta em minha mente e eu tenho a impressão de que se eu procurar, vou acabar descobrindo algo. Eu pensava tanto em vingar a morte dos meus pais há anos atrás, que nunca me importei em saber como eles eram. Eu posso fazer isso. Eu tenho o direito de saber o passado da minha família, mais ainda depois do que Beth me disse.
    Há a caixa de cigarros da Beth em cima da mesa de centro e eu pego um. Eu olho para cima e posso ver a fumaça que sai da minha boca subir e se dissipar pelo ar. Então eu começo a vagar pela casa, sem saber direito o que fazer. Eu paro em frente à porta do quarto dela, hesitando em girar a maçeneta. Pode parecer sujo, mas eu tenho que fazer isso. Eu entro em seu quarto e começo a remecher tudo que há nele.
     Nas gavetas do criado mudo há vários inúteis papéis. Documentos, consultas, números de telefone aleatórios. Eu não tenho medo de ser pega, porque sei que ela vai demorar para chegar. Não encontro nada nas três gavetas e então migro para o guarda-roupa. Logo abaixo dos cabides, existem seis largas gavetas. Eu começo pela última, na esperança de encontrar algo lá, mas não há nada. Vou subindo as poucos e a partir da terceira, eu só encontro roupas. Nada até a primeira gaveta. Eu abro. Roupas dobradas. Eu passo as mãos pelo fundo da gaveta e encontro a madeira. Minha mão explora cada extremidade até encontrar que encontro alguma coisa. Eu puxo e o que vem nas minhas mãos é uma agenda. Folheando as páginas, percebo que se trata de um diário. Meu coração perde um batimento. Eu olho para as colagens, a caligrafia, as fotos e concluo: Esse diário pertence à minha mãe.