Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

29 de jan de 2014

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 7

LIZA
Dias depois, eu finalmente decido sair de casa. Minha relação com Beth tem sido amigável, o tempo passou tranquilo, mas a primeira conversa com a minha tia não me sai da cabeça. Ela deixou algo no ar que me diz que ela sabe de algo muito importante... e ruim também. Não consigo levantar nenhuma teoria. Eu até tentei puxar o assunto sutilmente, mas ela não diz nada. Eu fico aborrecida ao mesmo tempo, por que é sobre a minha família, são os meus pais. Eu tenho o direito de saber. Mas então eu estou caminhando distraidamente em direção a uma cafeteria e tentando inutilmente me convencer de que não havia nada de muito importante o que Beth poderia me contar.
Eu nunca andei distraída antes. Sempre prestei atenção a tudo que estava em minha volta, minha mão pulsando, carregada de energia, pronta para sacar o revólver na primeira ameaça.

"Liza!"
   - Alguém grita atrás de mim e eu gelo. Conheço essa voz. Há algum tempo atrás ela costumava despertar uma inquietação prazerosa dentro de mim. A inquietação permanece até hoje, mas é diferente agora. Sinto meu coração pesar e me mantenho imóvel como uma estátua no meio da calçada. Eu posso ouvir seus passos rápidos cada vez mais próximos, o aroma de um específico perfume masculino invadindo minhas narinas. Eu quero sair dali, mas minhas pernas insistem em permanecer no lugar onde estão. Eu fecho os olhos e só espero o toque da sua mão levemente áspera envolver o meu braço esquerdo. Will me vira para ele e diz:
"Finalmente consegui te encontrar, o que faz aqui?"



   Eu encaro seus olhos, ansiosos por uma resposta. Sussurro:

"Tire as suas mãos imundas de cima de mim."

Ele me lança um longo olhar triste antes de folgar o aperto e quando ele o faz, eu puxo o meu braço.

"Liza, nós precisamos conversar."
   - Ele começa, mas eu o interrompo:

"Não, Will. Não temos nada para conversar."
   - Eu respondo, pronta para ir embora. Então eu me viro e dou alguns passos até ele dizer irritado:

"Será que você pode ouvir o que eu tenho para dizer, pelo menos uma vez na vida?!"

"O que você tem para dizer?! Como se eu tivesse que ouvir, como se a errada aqui fosse eu!"
   - Eu digo, indignada por ele estar ali, tentando se justificar.
"Você casou com a minha irmã, teve um filho com ela e quando eu saí do coma vocês planejaram esconder de mim. Foi isso o que aconteceu. Não importa quantas explicações você dê, não vai mudar o fato."

"Você acha que eu vim aqui por causa disso? Para implorar o seu perdão? Fique sabendo Liza, que tenho coisas muito mais importantes para falar com você."
  - Sua frase me pega de surpresa. Eu me sinto aliviada e triste ao mesmo tempo. Aliviada porque não terei que ouvir seus argumentos e triste porque ele não está querendo se desculpar. Eu fico muda e ele se aproxima de mim, para depois sussurrar:
"Você está sendo estúpida em andar por aí sozinha. Ou você já se esqueceu deles?"

"Do que você está falando?"

"Você sabe de quem eu estou falando. Aqueles que mandaram você para o coma."

"Quem me mandou para o coma foi o tiro de Rachael."
    - Digo, rancorosa.

"Por favor, Liza. Você acha mesmo que ela fez por que quis? Não é como se a Rachael tivesse atirado por vontade própria."
  - Ele diz, fazendo uma cara de desgosto.
"Quem te mandou para o coma foi Lauren, Morgana, Jack e acima de tudo, o chefe deles. Devo também te lembrar que todos esses nomes que eu citei estão mortos. Você os matou. Então você acha mesmo que eles esqueceram? Que eles te perdoaram pelo que você fez?"

"Lauren..."
  - Sussurro, minha voz quase inaudível.
"Eu não matei ela. A bala de Rachael certamente não a acertou e..."

"Eu a matei."
   - Will diz e eu o encaro, surpresa.
"Eu estava lá, o tempo inteiro. Eu ouvi a conversa desde o momento que Rachael entrou naquela cabine. Me aproximei silenciosamente, mas eu não podia fazer mais nada. Eu não podia impedir sua irmã de atirar. Ela estava nervosa demais e iria estragar tudo. Eu deixei ela atirar. E quando isso aconteceu, eu matei Lauren."

Minha voz some.
É claro que eu não tinha como saber disso.
Eu estava desacordada e quase morrendo. Eu só consigo encará-lo, imaginando como eu não consegui perceber sua presença. Talvez porque eu estava ocupada demais prestando atenção nos movimentos de Lauren.

"Mas o que importa, é que é perigoso demais para você ficar sozinha."
   - Ele continua e eu digo, tentando dissipar o turbilhão de pensamentos que roubam a minha atenção:

"Eu não estou sozinha."

"Então está com quem?"

"Comigo."
  - Beth diz, se aproximando de nós. Will se vira imediatamente em direção a voz e levanta uma sobrancelha com a visão da minha tia, que diz:
"Algum problema, rapaz?"

Will se mantém em silêncio. Ela olha para ele e depois para mim e diz com falsa simpatia:

"Ah, esqueci de me apresentar; meu nome é Beth Vaccari e o seu?"
 - Beth diz, estendendo a mão para ele. Will não aperta sua mão, mas olha para mim e pergunta:

"Vaccari?"

"Oh, claro, suponho que você, assim como grande parte da humanidade acha que as únicas Vaccaris vivas são Liza e Rachael. Sinto muito decepcioná-lo, mas você ainda não me disse o seu nome."

Will a encara por alguns segundos. Beth ainda mantém sua mão estendida para ele e sorri abertamente. Então Will olha para mim e diz:

"Quando você cair na real e precisar de ajuda, sabe onde me encontrar."