Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

31 de jan de 2014

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 20

RACHAEL 
Eu acordo com os raios de sol no meu rosto. Apesar da cortina, a luminosidade ainda faz com que eu aperte os olhos. Eu me remexo um pouco na cama, e James se remexe também, e eu sinto seus braços apertarem minha cintura com firmeza como se estivesse com medo de que eu fugisse. Me remexo novamente, com cautela dessa vez, e o corpo nu e forte de James se cola ainda mais às minhas costas. 7h30. Tenho meia hora para escapar de seus braços, me arrumar e ver o Alex. Eu seguro seu braço suavemente e movo para trás. Ele não se mexe. Eu me mexo e finalmente consigo levantar da cama. 7h38. Vou para o banheiro, fazendo o menor barulho possível para que James não acorde.  Tomo banho, escovo os dentes, me visto e quando dá 7h55 eu já estou fora de casa.
 
"Mamãe!"
   - Ouço a voz infantil do Alex gritar assim que eu entro no galpão. Um largo sorriso se forma no meu rosto. Faz tanto tempo que eu não o vejo e estava morta de saudades. Ele corre na minha direção e eu me agacho; Alex me dar um abraço apertado e Will observa de longe, calado. Eu posso ver a mágoa em seu olhar. Ele me odeia porque eu estou trabalhando para os Hansson. Ele me odeia porque acha que eu abandonei o meu filho.

"Eu já estava quase indo embora, quando você chegou."
    - Ele diz finalmente.

"Me desculpe, eu acabei perdendo a hora."
    - Digo. Eu penso em contar sobre James, mas ninguém precisa saber. Will então volta ao silêncio e eu encaro o rosto alegre do Alex.

"Então, meu bem, como você está?"
   - Sorrio. Os olhos de Alex estão brilhantes, as bochechas rosadas e eu passo a mão em seu cabelo preto. O sorriso do meu filho, é o retrato de felicidade mais genuíno que já vi em um bom tempo. Alex balança a cabeça num sincero 'sim' e eu me sinto aliviada em saber que ele está saudável e feliz, tão diferente da minha situação. Eu converso algumas coisas com Alex, coisas sobre a escola e sobre morar na casa da avó. Ele não toca no assunto do meu sumiço, não me cobra, não parece magoado ou triste com isso, o que me deixa ainda mais aliviada. Para ele, tudo é uma colônia de férias.

"O Alex precisa ir no médico, aproveitei que hoje ele não teve aula para levá-lo."
    - Will diz. Eu olho para ele e pergunto, preocupada:



"Médico? Ele está bem?"
 
"Sim, está. Será só um check-up, costumo fazer isso todo mês."
    - Solto a respiração que tinha prendido inconscientemente.
"Agora, Alex, porque você não vai para o carro? Eu ainda vou conversar com a sua mãe e não quero que se atrase para a consulta."


Então Alex me dá um abraço apertado, um beijo na bochecha e vai.
O galpão fica silencioso de repente.

"Você tem notícias da Liza?"
   - Pergunto, antes que ele diga alguma coisa. Lembro do dia que pedi para que ele a procurasse, na cafeteria, do quão preocupado ele estava com ela.

"Não, não tenho."
   - Ele responde.
"Estranho, eu pensei que você soubesse onde ela está, já que está trabalhando para os Hansson."

"Eles não estão rastreando a Liza, se é o que você pensa."
    - Solto.
"Na verdade, eu também pensava isso antes, mas você sabe... a melhor forma de conhecer o seu inimigo é se aproximando dele."

"Os Hansson são um inimigo para você?"
   - Will pergunta, para depois me alfinetar:
"Porque eu achei que você estava bem satisfeita em se unir a eles."

"Parece que você não entendeu o que eu disse antes."
   - Digo. Depois me aproximo de Will e sussurro:
"Você nunca vai acabar com a máfia se não souber como ela funciona."

"Então é desse jeito que você joga? Se unindo a eles, fazendo com que confiem em você, observando seus pontos fracos, aguardando eles abaixarem a guarda para depois atacar?"
  - Ele sussurra de volta. Sorrio.

"Eu não sou tão má quanto parece."
   - Sussurro.
"Eu vou salvar todos nós, vou acabar com essa guerra."

"Já que você quer tanto a confiança deles, não acha um pouco imprudente vir atrás do seu filho?"
   - Will solta. Eu me afasto. E então, a última coisa que digo antes de ir embora é:

"Confie em mim. Eu sei o que estou fazendo."

LIZA
É noite quando chego em Londres. Peguei um táxi, que vai me levar para a casa de Will. Não posso negar que estou nervosa. Faz tanto tempo que eu não o vejo e não sei qual será sua reação ao me ver aparecer do nada na casa dele. Não acho que Rachael possa estar lá, muito menos agora, com ela trabalhando para os Hansson, mas alguma outra pode estar. Seria completamente aceitável se Will arrumasse outra mulher depois de tudo.
   O táxi para alguns metros longe da casa de Will. Saio do carro. E se ele não quiser me receber? Tenho dinheiro suficiente para me manter num bom hotel até decidir o que fazer. Voltar para o Brasil, para Beth e suas sujeiras é algo fora de cogitação.
   Toco a campainha, meu coração batendo violentamente contra o peito. Ele abre rapidamente, vestindo apenas uma calça jeans preta, visivelmente cansado. Will então olha para mim e eu vejo a confusão estampada em seu rosto.

"Oi, Will."
   - Digo insegura, esperando uma resposta ácida. Então ao invés de perguntar o que eu estava fazendo ali depois de todo aquele tempo, depois das inúmeras brigas, depois de tudo o que eu fiz para ele e ele fez para mim, Will me puxa para dentro de casa e cola seus lábios nos meus.
   Eu jogo minhas malas no sofá da sala cegamente. Will me beija com tanto fervor, como se sempre estivesse lá, esperando por esse momento, o que me deixa ainda mais confusa.

"Espera, porque está fazendo isso?"
   - Pergunto, assim que nos separamos, ofegantes.

"Será que ainda não percebeu?"
   - Will pergunta, para depois dizer, com o sorriso mais radiante que já vi:
"Eu te amo, Liza."