Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

31 de jan de 2014

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 19

LIZA
Já passou da meia noite e eu não consigo dormir. Os acontecimentos dos dias anteriores giram na minha mente. Alicia. O ataque. Os Vaccaris divididos. Brasil. Tráfico de mulheres. Julio. Nora. Rachael trabalhando para os Hansson. Onde esse avalanche começou? Ah, é, o diário. É incrível como algumas páginas podem te afetar. Beth me disse que era perigoso, que eu não deveria vê-lo, se não tivesse total certeza do que eu queria saber. Mas, eu tinha. E por isso estou aqui, num quarto desconhecido, num lugar desconhecido, incapaz de dormir, confusa. Eu viro a cabeça para o lado e vejo o diário pousado no criado mudo. Então eu percebo que mesmo depois de tudo, eu ainda quero saber.

02 de novembro
Eu estou em Atlanta, acompanhando o Tony como uma boa esposa deveria fazer. Era extremamente necessário que ele viesse, e ele não me diz, mas eu sei que está preocupado. E sei também porquê. As coisas ficaram tensas depois que o pai do meu marido, John Vaccari, morreu. Tony tem um primo, César, que foi criado por John; Ele o tratava como se fosse seu próprio filho. Dizia que ele seria o sucessor na chefia, porque Tony era insensato demais para isso. César sempre tão calmo, tão calado, tão frio. É claro que daria um bom chefe. Ele nunca se apegou a ninguém, nem ao homem que o criou. Ele não amava ninguém, para ele, as pessoas eram apenas peças em um quebra-cabeça. César as usava, mais friamente do que Tony, só se aproximava de alguém quando este tinha algo para lhe oferecer. Não se envolvia, não se metia em problemas, burlava alguma lei sabendo bem o que faria para se safar depois. Ficha limpa. Um cidadão honesto perante à justiça, apesar de ser tão sádico quanto Tony. Quando fez 20 anos, foi estudar Direito. John bancou tudo, e César teve os melhores professores que alguém pode ter. Aliado ao fato de ser muito inteligente e focado, César aprendeu tudo o que podia sobre a lei de vários países. O fato é que ele estava esperando o momento que o velho morresse para dar o bote. Uma parte dos Vaccaris apoiavam Tony como o novo chefe, mas outra parte apoiavam César, e assim surgiu a divisão. César tinha todos os motivos para desejar matar Tony, e eu não me surpreenderia se ele conseguisse. 



    03 de novembro
Eu sinto muito em não poder continuar falando sobre César e o modo como os Vaccaris se dividiram. Creio que haverá ocasiões melhores para isso. O que me ob
rigou a escrever, no segundo dia consecutivo, foi o fato de que há algo muito importante que preciso revelar. Dos inúmeros crimes e atrocidades que a família Vaccari é responsável, talvez a pior delas seja a produção das Lolitas. Talvez você, querido leitor, não saiba o que isso significa, e pensando nisso, decidi te deixar um disco, que te ajudará a entender melhor sobre o que eu falo. Se estiver realmente disposto a ver as cenas que ele te reserva, encontre-o na capa do fundo deste diário. 

Jennifer Vaccari. 




    Minhas mãos voam para a capa do fundo do diário. Há um mini disco de CD envolvido numa capa de plástico transparente preso na capa. Procuro o notebook de Beth, meu coração batendo mais forte. Eu o encontro dentro de sua mochila. Beth dorme tranquilamente. Ligo o notebook. Eu não tenho ideia do que eu posso ver nesse CD. Abro a bandeja de disco. Hesito antes de fechá-la novamente. Eu preciso ver isso. Eu não vou descansar enquanto não ver. Há apenas uma pasta intitulada com uma série de números. Eu abro a pasta e o arquivo de vídeo. Então a cena seguinte me tira o fôlego.
   Há quatro homens na sala. Eu posso reconhecer o meu pai entre eles. Há uma mulher também, lá no fundo. Ela é alta, se parece com o meu pai, é jovem e mantém a expressão de alguém que já viu isso acontecer tantas vezes que não tem mais graça. Ela cruza os braços e a pistola se destaca, dentro do coldre. A camera dá zoom em seu rosto por um instante e eu percebo que essa mulher é a Beth. Meus olhos nem sequer piscam. Eu fico pensando em como seu jeito cínico não mudou depois de tantos anos. Até que encontro algo que me chama mais atenção. Uma menina entra na sala, acompanhada de outros dois homens com jalecos brancos. Ela é uma criança, deve ter mais ou menos, 10 anos de idade. Está assustada, olha tudo ao seu redor com os olhos arregalados, mas não tenta fugir. Algo dentro de mim torce para que ela fuja. Um dos supostos médicos a guia para o centro da sala, onde há uma maca e alguns objetos; lâminas, serras, facas e um machado. O segundo suposto médico tranca a porta. O homem ao lado do meu pai estende a mão e pergunta se ela está bem. Ela balança a cabeça positivamente, e eu percebo que ela é muda. O homem ao lado do meu pai rola os olhos e solta um "vamos acabar logo com isso" e os supostos médicos se entreolham. Beth permanece calada e então, o horror começa.
  Um dos homens dá um soco no rosto da garota. Sua boca se abre, nenhum som sai. Ela desaba e bate a cabeça na barra de metal presa à maca. Eu permaneço imóvel, chocada. O meu pai diz rindo "conserve o seu rosto bonitinho, ou ninguém vai querer comprá-la" e Beth observa a cena friamente, tão entediada quanto antes. Eles continuam batendo na garota, com o cabo do machado agora. Três adultos, espancando uma garotinha, enquanto meu pai assiste rindo e minha tia observa sem nenhuma reação. Sai sangue de sua boca e eles a puxam pelos cabelos, até deitá-la na maca. Ela se contorce de dor e se assusta ao ver a serra ligada na mão de um dos homens. A garota se debate violentamente, enquanto dois deles prendem seus braços à maca. Ela quer gritar, mas não pode. O som da serra ligada é aterrorizante. Ele puxa a perna direita da garota, forçando para que fique estendida. Então, a serra entra em contato com a carne, rasgando, enquanto o jorro de sangue suja a lâmina, a maca e o jaleco branco. Eu fecho o vídeo.

 "Liza?"
    - Me sobressalto ao ouvir a voz sonolenta de Beth. Ela me olha confusa. Eu me levanto, incapaz de falar alguma coisa. Então seus olhos voam para a tela do computador e ela pula da cama. Beth abre a bandeja de disco, retira o CD e vocifera:
"Mas que droga você tá fazendo?!"

"Eu é quem deveria estar dizendo isso."
    - Digo. Ela olha para mim, pisca várias vezes e caminha na minha direção.

"Liza, eu..."

"Não toque em mim."
   - Sibilo. Ela se afasta, incrédula, como se eu estivesse sendo injusta com ela.

"Escuta, você tem que entender..."
   - Beth começa, mas eu a corto.

"Entender o quê?! Que você não fez por que quis?! Olha, Beth, eu te vi no vídeo, e você não parecia muito incomodada."

"Eu não vou dizer que fui forçada ou coisa assim."
    - Ela diz.
"Eu estava lá por legítima vontade, mas isso não significa que eu gostei de ver aquilo."

"Mas não fez nada para impedir."
   - Digo.

"E o que você acha que eu deveria fazer? Pedir para que eles parassem? Não seja burra, isso não adiantaria, você sabe que não. Eu seria vista como uma traidora e as coisas complicariam pro meu lado."
 
"Seu lado."
   - Murmuro, com desprezo.
"É só com isso que você se preocupa."

"Você faria a mesma coisa se estivesse no meu lugar."
    - Ela se defende.

"Não."
   - Respondo.
"Eu não sou como você."

"Mas seria, se tivesse a criação que eu tive. Ainda digo mais; você seria muito pior se tivesse os pais que eu tive, do jeito que é agressiva."

"Meu pai era um sádico, e nem por isso eu me tornei igual a ele."
    - Solto e meu coração pesa ao dizer isto. Ela rola os olhos e diz:

"Garota, por favor. Acha que seu pai lhe deu a mesma educação que recebeu? Sem contar no fato de que ele morreu quando você ainda era uma menina."

"Por quê? Por que, justo aquela garotinha?"
   - Pergunto.

"As coisas são assim, Liza."
    - É a resposta que ela me dá. Então eu puxo a minha mala e arrumo as minhas coisas. Ela me observa, calada. Eu tenho que voltar para Londres.

"O que mais você esconde de mim?"
   - Pergunto.

Ela se mantém calada.
Eu a encaro, fecho o diário e o enfio dentro da mala.
Estou quase saindo, então ela se aproxima de mim e me estende o disco.

"Tome, é seu."
   - Ela diz. Eu pego o CD e já estou indo, quando ela diz.
"Você não precisa ir embora."

"Sabe, eu não conheço essa mulher que está aqui na minha frente."
    - Digo, rancorosa.
"E não se pode conviver com alguém que não conhece."

RACHAEL
Eu fecho a porta do apartamento. Já é fim de tarde quando eu apareço. Era para ser só uma ida rápida, para ver o Alex, mas então eu decidi que deveria dar um passeio. Eu me viro e encaro James esfregando uma toalha branca no cabelo molhado; ele acabou de sair do banho, e o cheiro de perfume masculino exala pela sala. James sorri ao me ver e diz:

"Olha só quem acabou de chegar."

"Oi."
  - Eu digo, me sentando no sofá.
"Já resolveu o que tinha para resolver com o Nick?"

"Sim."
   - Ele diz, se sentando na ponta da mesa de centro, de frente para mim.
"Mas e você, onde esteve o dia inteiro?"

"Passeando."
   - Digo, dando de ombros. Na verdade, eu estava vendo o meu filho, mas dizer que está passeando não é uma mentira. Eu só omiti um fato.
Mas James não acredita muito em mim.
Ele levanta uma sobrancelha e pergunta, me encarando fixamente:

"Tem certeza?"

Eu o encaro de volta.
Ele quer que eu pare de esconder as coisas. Eu bem que faria isso, se estivessemos em condições diferentes.
James quer que eu confie nele, mas eu não posso. Ele sabe que eu não posso.
Então eu ponho um sorriso radiante e respondo:

"Tenho."