Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

29 de jan de 2014

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 17

RACHAEL
Eu estou sentada no sofá, observando as gotas de água que escorrem na janela. A chuva começou assim que saímos do escritório de Thomas e se estende até a madrugada. As horas passam devagar. Eu deveria estar dormindo, mas não consigo. Então estou aqui, no meio da madrugada, com todas as luzes de casa apagadas. Eu pedi a Will que procurasse a Liza naquela manhã, mas só agora me dei conta de que depois eu nem perguntei se ele fez isso, se ele a encontrou ou onde ela estava. Eu recebi o bilhete, deixei Alex sob os cuidados do pai e fui embora.

"Oi."
   - James diz, se sentando de frente para mim. Ele está com duas canecas na mão e me estende uma delas. Eu nem olho para o conteúdo até sentir o gosto de café em minha boca. Sem leite e com açucár. James toma um gole do seu café e me diz:
"Tá tudo bem?"

"Aham."
   - Concordo. Então sorrio com o canto da boca e completo:
"Exceto pelo fato de que eu preferiria uma dose de whiske ao invés de café."

Ele ri.

"Olha só, acabei de descobrir que Rachael Vaccari é uma genuína cachaceira."
    - James diz, com um sorriso sapeca nos lábios. Eu olho para ele de soslaio e nós dois rimos. Então ele fica sério de novo e fala:
"Falando sério agora, você teve que matar aquela garota né?"

"É, eu tive."
   - Digo.

"E tá tudo ok pra você em relação a isso?"
    - James pergunta.

"Uhum."
   - Minto, desviando o olhar para a janela. Eu sinto seus dedos no meu queixo, James me forçando a encará-lo.

"Mentir é feio."
   - Ele diz com um sorriso terno.
"Eu sei que você se importa com a sua irmã. E, diferente do que você pensa, eu não te condeno por isso. Ela te criou praticamente e se você não sentisse nada, eu diria que você é uma psicopata. É claro que você não gosta de se lembrar que atirou nela."

"Parece que você sabe mais sobre mim do que eu pensava."
   - Digo. Ele sorri e se aproxima, me olhando fixamente.


"Acredite, eu sei muito menos sobre você do que eu queria saber."
       - James diz e no instante seguinte, seus lábios macios estão colados aos meus. Eu não me afasto, mesmo com a consciência do perigo que seria beijá-lo. James é um Hansson. James não é de confiança, e eu não devo acreditar nas suas palavras. Mas, no momento em que seus braços envolvem minha cintura, me puxando para perto dele, eu mando todas as minhas preocupações para o raio-que-o-parta. É só uma noite. E de qualquer forma, nenhum dos dois vai se envolver demais.
    Eu correspondo ao seu beijo e ele me puxa para seu colo. James espalha beijos pelo meu pescoço e orelha, e minha camiseta de malha vai subindo lentamente conforme suas mãos avançam. Eu me apoio sobre ele, meus dedos mergulham em seu cabelo escuro e macio. Eu passo minhas pernas ao redor de sua cintura quando ele me levanta e dá dois passos até chegar a cama; James me pousa nela com cuidado, como se eu fosse algo estremamente frágil. Então, em constraste com a forma carinhosa como me pôs na cama, ele tira minha blusa de uma vez por todas, como se não pudesse mais esperar.

"Tem certeza?"
   - James sussurra, com a sobrancelha levantada. Eu balanço a cabeça positivamente.

Então ele abre um largo sorriso e me beija novamente.

LIZA
É a primeira vez que Beth fica calada desde que saímos daquela casa. Eu agradeço profundamente pelo seu temporário silêncio, porque tenho que colocar os pensamentos no lugar. Beth me disse tudo sobre a tal moça, ou pelo menos, quase tudo. Eu começo a traçar o perfil da garota. Ela se chama Nora e é francesa. Trabalha no Brasil, mas também já trabalhou em outros países, aliás, ela é a única que é permitido que viaje para vários lugares. É jovem, mas, não tão jovem quanto as garotas convencionais devem ser. A idade máxima é de 24 anos, e Nora já tem 28. Como Beth disse, e eu não duvido disso, Nora é muito bonita. Com certeza, é esperta também, se não fosse não teria durado tanto tempo. Ela já matou homens muito perigosos, pedras no caminho dos Vaccari, e em troca de seus serviços ela recebe conforto, segurança, jóias e muito dinheiro. Nora deve saber que se pisar fora da linha estará perdida.
    Nós estamos em um heliporto. Há alguns homens de terno e um helicóptero nos esperando. Beth entrega a chave para um deles e se encaminha para a pista de pouso. Eu me sinto um pouco irritada, porque desde aquele ataque que ando atrás da Beth, indo para todos os lugares que ela vai. Eu penso em voltar para Londres, mas não posso porque eles estarão lá, me esperando. Um ataque novo seria algo certo. Além do mais, eu ainda quero saber tudo o que Beth tem para me contar, ou mostrar.
   Uma hora depois, nós descemos do helicóptero e a cena se repete. Outro carro, uma BMW cinza nos espera na saída do heliporto. Beth toma a chave e nós entramos.

Nosso novo destino foi o Rio de Janeiro, afinal.
Beth guia o carro pelas ruas como se ela sempre vivesse aqui. O sol está forte, um pouco mais brando do que o que enfrentamos em Salvador, e as pessoas descansam, riem e caminham sobre a areia de Copacabana. Há um luxuoso hotel em frente à praia e até aqui eu posso ver alguns Vaccari na entrada do hotel.

"Chérie, estou surpresa em vê-la."
    - Uma moça diz, assim que entramos na suíte presidencial. Seu sotaque frânces é forte e legítimo, não é como se ela forçasse isso. Nora. Ela abre um sorriso e se levanta de sua cadeira, caminhando até nós com elegância. Nora usa um roupão de seda preta. A tonalidade do seu olho é um azul claro que lembra vagamente cinza. Seu cabelo castanho-acobreado é ondulado e faz belos cachos nas pontas. Nora tem feições delicadas, mas seu olhar revela toda a maldade escondida atrás do rostinho bonito. Não é a toa que ela conseguiu matar tanta gente; Nora é a mulher mais segura de si mesma que já vi. Ela sabe que é bonita, e explora sua beleza ao máximo para conseguir o que quer.

"Olá, Nora."
   - Beth diz com indiferença, se sentando em uma poltrona no canto da suíte. Nora se aproxima de mim, me olha da cabeça aos pés e diz:

"E você deve ser Liza Vaccari, acertei?"
    - Eu levanto uma sobrancelha ao ouvir isso. Ela sabe quem eu sou, mas eu não a conheço.

"Engraçado, não me lembro de você, mas você sabe meu nome."
    - Digo. Ela sorri e então se afasta.

"Oh, princesse, só um stupide não perceberia que você é filha de Tony Vaccari."
    - Nora diz enquanto serve uma dose de whiske para Beth.
"Mas, então, creio que mademoiselle Beth veio para me dar uma nova missão."

Beth revira os olhos.
Pelo visto, ela não aprecia muito o sotaque frânces de Nora.

"Sim, Nora, quero que faça algo para mim."
   - Beth diz.

"Magnifique! Para onde irei desta vez? Estou com tanta saudade da minha querida Europa..."
   - Nora diz com um sorriso animado.

"Fique feliz então, porque você terá que ir para Londres o mais rápido possível."
    - Beth afirma, no mesmo tom indiferente de sempre.

"E quem eu vou matar?"
   - Nora pergunta.

"Ninguém, por enquanto. Quero uma informação."
    - Beth solta e Nora levanta arqueia uma sobrancelha.
"É sobre Rachael Vaccari. Quero saber onde ela está, como ela está e com quem ela está, o mais rápido possível."

"Pode ficar tranquila, ma chérie, irei hoje mesmo para Londres."
 
"Excelente."
   - Beth olha para mim logo em seguida e diz:
"Eu vou ver o Mark, volto em breve."

Beth sai e então estamos só eu e Nora.
Ela se serve no mesmo copo de Beth e bebe o conteúdo em um só gole. Eu observo ela e o quarto por uns instantes e digo:

"Beth deve confiar muito em você para te deixar ir para a Europa."
   - Ela me encara.

"Sim, ela confia."
   - Nora diz.
"Eu nunca lhe dei razões para o contrário."

"Já foi para a França numa dessas viagens?"
   - Pergunto.

"Não. Eles não me deixariam voltar para lá."

"E você gostaria de voltar?"
    - Indago. Nora se sobressalta com a minha pergunta e me encara, desconfiada.

"Por que eu iria? Já faz tanto tempo..."

"Mas, você não tem vontade de voltar para seu país, para sua família?"

"Eles já aprenderam a me esquecer. Eu também já os esqueci."
   - Nora diz. Eu me calo e ela demora alguns longos minutos para falar novamente.
"Os Vaccari são a minha família agora. Eu não tenho porque ficar pensando neles, tenho tudo o que eu preciso aqui. Dinheiro, conforto, segurança..."

"Em troca de se deitar com vários homens para matá-los depois?"
   - Pergunto.

"Faz parte."
   - Nora diz.
"O fato é que não há nada que eu possa fazer que vá mudar isso. Então porque ficar se lamentando? Eu acho que esse é o problema de muitas meninas aqui. Eu vejo garotas muito bonitas, que poderiam chegar muito mais longe, mas ainda sofrem porque estão apegadas as suas antigas famílias."

"Mas não foi difícil para você, no começo?"

"É difícil para todas nós, mas eu me acostumei a essa nova realidade. Isso é a minha vida agora."
   - Nora responde friamente.

Eu me calo por um tempo, observando sua expressão. Nora parece neutra, mas eu sei que ela está apenas escondendo seus reais sentimentos de mim. Eu sou uma Vaccari. Não tem porquê ela ficar se abrindo para mim. Eu tento achar alguma coisa humana, algum traço antigo que sobreviveu ao que ela passou, mas eu não encontro. O que eu vejo é uma pessoa que sofreu, endureceu, não se importa e nem confia em mais ninguém. Nora é uma máquina. Ela odeia a Beth e me odeia e odeia todos os Vaccari, mas ela sorri e me chama de "princesse". Não há nada de verdadeiro ali. Então, um pensamento me vêm a cabeça e eu pergunto:

"Nora. Esse é o seu nome verdadeiro?"

"Não. Para falar a verdade, eu tenho vários nomes. Para cada homem eu tenho um nome diferente, mas, eu gosto que me chamem de Nora. Eu o considero meu nome oficial, enquanto os outros são apenas apelidos."
   - Ela responde.

"E qual é o seu nome verdadeiro?"
   - Pergunto, cheia de curiosidade. Nora então sorri novamente para mim e diz:

"Eu esqueci. Me forcei a esquecer, junto com todo o resto."