Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

29 de jan de 2014

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 16

RACHAEL
Nós caminhamos pelos corredores largos do escritório de Thomas. Meus dedos apertam com força a caixinha aveludada, como se ela miraculosamente pudesse escapar de mim. James me acompanha, silencioso, rápido. Eu posso ver a minha satisfação refletida nos olhos dele, toda vez que me olha. Nós conseguimos completar a missão impossível. Passamos por cima de todos os obstáculos postos diante de nós. Isso é ainda mais prazeroso para mim do que para James. É a primeira vez que me sinto feliz quando a porta da sala de Thomas Hansson se abre.

 "Pensei que não chegariam nunca, por acaso se perderam?"
   - Sharon diz, sua voz carregada de escárnio. Eu sei que toda a ofensa é direcionada a mim, apesar de ter falado no plural.

"Eu trouxe os diamantes."
   - Digo tranquilamente, e seu sorriso debochado morre. Eu ponho a caixa aveludada em cima da mesa de Thomas e sorrio abertamente ao ver o assombro estampado no rosto de Sharon.
 Thomas sustenta o olhar em mim por um certo tempo, como sempre faz. Eu sei que ele tenta desvendar o que estou pensando, e na maioria das vezes que estou com ele, minha expressão é neutra, mas, agora eu faço questão de expor toda a minha satisfação em ter desapontado Sharon Hansson. Ele abre a caixa de veludo e os diamantes estão lá, brilhantes, valiosos. Oitocentas pedrinhas brilhantes que valem uma fortuna.

"Ok. Me deem um momento à sós com Rachael."
   - Thomas diz e todos saem. Eu posso ver Sharon me lançando olhares que mais parecem dardos envenenados. Eu não me abalo com isso. James também olha para mim, mas, seu olhar tem afabilidade e um leve toque de preocupação. Eu sorrio amarelo e ele vai embora. Então meus olhos encaram Thomas.



"Sabe o quanto esse monte de pedrinhas valem?"
   - Thomas diz, examinando um pequeno diamante.

"Com certeza, uma fortuna."
   - Respondo.

"Um pouco mais de 12 milhões."
  - Ele diz, ainda absorto em seu diamante.
"É uma pena que seja apenas uma parte da fortuna dos Chevalier, mas, para seu primeiro roubo, a senhorita se saiu muito bem."

"Obrigada."
   - Respondo, seca. Ele levanta seus olhos para me encarar, mas, agora estou tão neutra como sempre.

"Certamente, há uma recompensa para você."
   - Thomas diz, fechando a caixa aveludada. Eu levanto uma sobrancelha involuntariamente e ele sorri.
"Acompanhe-me."

 Eu o acompanho até a parede direita da sala. Eu não entendo o porquê nós estamos ali, até que Thomas para e duas portas se abrem automaticamente. Parede falsa. O lugar no qual entramos é completamente diferente do ambiente futurístico que é a sala de Thomas Hansson. Este lugar é escuro e tem um forte odor de ferrugem. Uma lâmpada comum está acesa no fundo do corredor e é graças a ela que posso ver o local onde estamos. É um corredor estreito, e por onde eu olhe, a única coisa que consigo ver dos dois lados são celas. Grades de ferro, correntes e grossos cadeados. Todas as celas estão vazias, exceto uma. Hoje, o líder dos Hansson só tem um prisioneiro: Lucy Chevalier.
   Um dos guardas postos em cada lado da cela de Lucy, abre o portão para o chefe. Ambos portam submetralhadoras e mantém a postura de um verdadeiro soldado. Olho para Lucy; ela está sentada com duas algemas grossas de ferro nos pulsos. Há uma corrente que puxa tais algemas para trás, mantendo os braços da garota esticados. Lucy está com uma fita adesiva na boca, enquanto escorre um filete de sangue do seu supercílio. Ela nos encara, alerta.

"Olá, Lucy."
   - Thomas diz tranquilamente. Então ele se agacha sobre ela e inicia a conversa:
"Você deve estar pensando o quanto é terrível toda essa coisa de amor né, quando se apaixona pela pessoa errada."

Não.
Pelo que diz seu olhar, a única coisa que domina seus pensamentos é o quanto ela adoraria matar Thomas Hansson.
E ele sabe disso.

"É uma pena tudo isso que está te acontecendo, mas, não precisa se desesperar completamente."
   - Ele continua.
"É realmente um privilégio que eu permita que você tenha uma morte rápida."

Ela continua o encarando, imóvel.

"Sabe, alguns já morreram de forma trágica aqui."
   - Thomas continua, seu tom de voz remete a uma conversa entre amigos, o que, com certeza não está acontecendo.
"Houve um rapaz, jovem, saudável, que morreu nesta mesma cela. Meus homens tinham aberto uma ferida na altura do estômago dele. Eu o deixei definhar nesta cela, sem água, nem comida. A ferida começou a inchar e saía uma grande quantidade de pus nela, e no dia seguinte ele estava queimando de febre. E o que nós fizemos? Nada. A infecção acabou com ele em quase uma semana. Ele gritava de dor, e eu tenho certeza que você não gostaria de ouvir isso. Seu corpo tremia descontroladamente por causa da febre e a ferida tinha um aspecto muito feio. Ele viveu por muito tempo, apesar de tudo. Cinco dias foram o suficiente para derrubar um homem de quase dois metros de altura e bem musculoso, sem que eu desperdiçasse uma bala."

Thomas então cessa de falar por uns segundos, observando a reação de Lucy.

"Porém, eu serei clemente com você."
   - Disse.
"Vou permitir que esta moça coloque uma bala na sua cabeça. Vai ser rápido, você nem vai sentir. Deveria me agradecer por esse gesto de clemência, ao invés de me olhar dessa forma pouco amigável."

Então Thomas se levanta e olha para mim.

"Ela é toda sua, Rachael."
   - Então, quando ele se aproxima e sussurra:
"Eu sei que está ansiosíssima para fazer isso. Disparar o seu primeiro tiro depois de dez anos."

Então ele sabe que fui eu que atirei na Liza.
Thomas sabe que foi pela minha bala que Liza ficou inerte por dez anos. Então ele está me testando, para ver o que eu sinto sobre isso. O que eu sinto sobre a Liza.
Eu tiro a pistola do coldre lentamente. Lucy se debate, mas, a algema aperta o seu pulso, fazendo com que ela faça uma careta de dor.
É a primeira vez que eu penso na Liza em semanas.
E eu não posso negar que, de certa forma, me sinto culpada pelo que aconteceu com ela.
Mas eu sinto os olhos de Thomas fixados em mim. Aponto a arma para Lucy. Meu pulso acelera. Não posso falhar.
Não seja estúpida. Ela não é a Liza.

Então, no minuto seguinte, eu aperto o gatilho.

LIZA
"Elas são de nacionalidades variadas, com idade entre 14 e 24 anos."
    - Beth me diz, enquanto começa a dirigir. Eu não me mostrei chocada nem triste pelo que ela acabou de me contar, por isso ela continua.
"Todas elas nunca ficam em seu país de origem. Nós sempre mandamos para um outro lugar, por precaução, ou seja, nenhuma de nossas prostitutas que estão no Brasil são nativas daqui."

"Mas, há garotas brasileiras que trabalham para vocês, não é?"
   - Pergunto.

"Para nós."
   - Ela me corrige.
"Você também faz parte da família. E sim, nós temos garotas brasileiras. Uma boa parte trabalha na Europa."

"E como vocês fazem para pegá-las?"
   - Pergunto, ignorando a correção que acabou de me fazer. Beth me olha de soslaio e não insiste em me corrigir. Eu continuarei falando em terceira pessoa. Posso ser da família, mas, não faço parte de toda essa sujeira.

"Essa é a parte mais fácil."
   - Beth diz.
"Elas são fáceis de se seduzir. O complicado é que temos que selecionar cada uma antes. Os olheiros fixam em uma garota bonita. Eles a seguem, arrancam o máximo de informações que consegue e nós traçamos um perfil. Nós sabemos exatamente onde elas vão trabalhar quando a capturamos. Dependendo da idade e etnia, elas podem trabalhar em bordeis de luxo, ou em lugarzinhos feios como esse."

"E as virgens?"
   - Pergunto. É horrível falar sobre isso, mas, eu não posso mostrar a minha insatisfação. Tenho que saber o máximo que Beth estiver disposta a me contar.

"Oh, essas são nossas meninas de ouro."
   - Beth diz, o canto da boca curvado em sorriso. Tenho raiva só de ver ela sorrindo com uma coisa dessas.
"Você não tem ideia do quanto eles pagam por uma virgem. Elas são leiloadas e nos rendem um bom dinheiro."

"Qual foi a mais lucrativa?"
   
"Oh, é uma boa pergunta. Ouve uma virgem, francesa, tinha 15 anos. Você sabe, esses caras adoram mocinhas. Estão com tudo em cima. Ela foi comprada por um cara, eu acho que ele vinha de algum país do Oriente Médio, pagou 110 milhões por ela. Ele comprou várias outras também, todas com o preço acima de 20 milhões. Mas, por incrível que pareça, ela não foi a mais lucrativa."
  - Beth diz e eu levanto uma sobrancelha. Quem pagaria mais que 110 milhões por uma garota?
"Bom, se você olhar pelo lado financeiro, a francesa foi a mais lucrativa. Mas, por incrível que pareça, havia outra francesa, que não era virgem, mas que é muito valiosa."

"Por que?"

"Ela é muito bonita, sabe. Eu sabia que ela não era virgem, antes de capturá-la, mas, a moça era tão bonita que valia a pena. Pagariam bem por ela. O que eu não imaginava que ela seria muito mais útil do que as outras."
   - Beth diz, dá uma pausa e continua:

"E porque ela é tão especial assim? Apenas pelo fato de ser muito bonita?"
    - Pergunto, sem nem ter a audácia de imaginar a sua resposta seguinte:

"Não. Ela é útil porque se tornou nossa assassina de aluguel."