Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

29 de jan de 2014

F 2ª TEMP: O ENIGMA - Capítulo 14

RACHAEL 
James e eu estamos em um restaurante. Gosto de estar aqui, é melhor do que aquele apartamento onde me sinto vigiada o tempo todo. Mas eu sei que toda essa sensação de liberdade é só uma ilusão. James está aqui, e enquanto ele estiver, eu estarei sendo vigiada.

"James"
   - Eu digo, indecisa. Ele me encara.
"Eu não sei se você sabe, mas... aquela coisa toda de hoje à noite, eu sei que vou ter que usar uma arma mais cedo ou mais tarde e..."

"Você não sabe como usar uma?"
   - Ele diz, entendendo tudo.

"É."
  - Confesso, desconfortável. James solta uma risadinha leve.

"Não precisa ficar com vergonha de me pedir ajuda. Ok, vamos fazer assim: a gente come, depois vai num lugar certo para treinos com arma de fogo, está bem?"
   - Ele diz, sorrindo. Eu sorrio de volta em aprovação e sussurro:

"Obrigada."

   Como prometido, James me leva para treinar. É um bom lugar, frequentado por pessoas normais, não como aquelas pessoas do escritório do Thomas. Eu olho para James e me esqueço por um segundo de que ele também é um Hansson. Ele sorri e solta piadas e eu gosto dele desse jeito, porque soa como se nossas diferenças, nossos sobrenomes e objetivos fossem muito menores agora. Só que quando anoitece e nós voltamos para o apartamento, eu me lembro que ele ainda é um inimigo. Me lembro também de que ele ainda está me vigiando.

"Está com medo?"
   - Ele pergunta, enquanto ajusta a pistola no coldre.

"Por que eu estaria?"
   - Respondo, com outra pergunta. O canto de sua boca se curva em um sorriso debochado e ele diz:

"Você seria uma estúpida se não estivesse."



    E então, nós permanecemos em silêncio. Eu e James temos macacões com capuz e botas, todos pretos. É como um uniforme. Eu posso ver James me olhar de soslaio de vez em quando. Nós dois somos cheios de segredos e desconfianças. Eu não sei nada sobre ele. Ele não sabe nada sobre mim. E nós somos Vaccari e Hansson. É claro que o clima não seria muito confortável.
    Já passa da meia noite quando saímos. Eu penso em pegar a mesma rota de saída que sempre usamos desde que cheguei aqui, mas, James me mostra um caminho diferente. Inúmeros corredores e escadas desertas que no final dão numa garagem subterrânea. Não posso esconder minha surpresa ao ver 5 vans pretas, idênticas e enfileiradas, certamente cheias de lacaios Hansson. Eu posso ver um braço musculoso segurando um fuzil para fora de uma van. Começo a pensar quantas vans eles poderiam ter mandado para matar os meus pais, mas, trato de afastar esses pensamentos logo. Eles morreram há muito tempo. Não vale a pena ficar pensando nisso.
 James me leva até a última van da fileira. Eu vou no banco da frente. Eu sei que há em média 4 homens do lado de trás da van, porque eu vejo James falar com eles. Então, eu bato a porta do veículo e vejo os carros saindo do estacionamento, um por um.

"Ah, eu já ia esquecendo."
   - James diz enquanto dirige. Então ele pega algo envolvido em um tecido preto e me estende. Trata-se de uma pistola USP 45; meus dedos envolvem a arma e eu olho para ele.
"Você vai conseguir. Não é tão difícil."

O que ele não sabe, é que eu já segurei numa arma uma vez.
 
      Meia hora depois James escorrega para fora da van com um fuzil na mão e eu o acompanho. Os homens da parte de trás da nossa van ainda não desceram, na verdade, os únicos que vejo fora dos carros são Sharon, Nick, James e eu. Sharon segura algo que parece uma arma de cano médio. Ela está séria, carrancuda, com toda sua atenção voltada para Nick e sua conversa no telefone. Eu observo o local. Estamos em frente a um alto muro que cerca toda a mansão. Atrás de mim, há a piso de pedra por onde os carros passaram e um jardim, com coqueiros e outras plantas bem cultivadas nos dois cantos da pista. Eu me aproximo, toco no muro; ele não é feito de concreto e sim, de algum tipo de metal.

"O muro é feito de Titânio."
    - Sharon me diz, como se estivesse lendo meus pensamentos.
"É como eu disse antes, vai ser difícil invadir isso aqui."

"Ok, Sharon, pode reunir os outros."
   - Nick diz assim que desliga o celular e Sharon dá alguns tapas em sua van, e os homens descem. Eu observo todos descerem e as vans ficarem vazias; são 16 homens, armados com fuzis e escopetas. Um deles trás duas cadelas pitbull presas com correntes. Sharon fica na frente do muro, de frente para nós. Ela é como uma segunda chefe; alguém que manda quando Thomas não está presente. Talvez ela tenha assumido esse posto depois da morte de Morgana.

"A luz será cortada daqui a 15 segundos, mas, isso não significa que os alarmes estão desativados. Atrás desse muro há vários dispositivos ultra-violeta que são sensores de calor. Não encostem neles. Se encostarem, o alarme dispara e chama a polícia. Os raios são invisíveis a olho nu, então, quem ainda não estiver, eu sugiro que coloque seu óculos imediatamente. Lembrem-se do que foi acertado e façam o que tem que ser feito."
   - Sharon diz, e ao final da palavra "feito", as luzes que ainda estavam acesas se apagaram. A luz acabou de ser cortada, mas, ninguém diz uma palavra. Nick acende uma lanterna e eu percebo que o Sharon usa não é uma arma. Ela encosta o dispositivo no muro e um material pastoso e cinza sai contornando uma abertura. A substância provavelmente é corrosiva, mas, eu não vejo nada acontecer. Então James aparece com um maçarico na mão e eu entendo. O maçarico por si só é muito fraco para o titânio, e o material corrosivo só age com o calor. O calor queima a pasta e o metal. James termina o contorno, se afasta e o bloco cai no chão.
      Só há escuridão e silêncio no lado de dentro. O homem leva as duas cadelas para dentro da mansão, sussurrando alguma coisa para as duas. Então ele solta as correntes e elas correm para dentro. Alguns latidos são ouvidos. Haviam cães de guarda aqui, e as cadelas estavam no cio. O jardim da mansão não oferece perigo agora. James olha para mim e entra na mansão. Eu entro logo atrás dele, arma em punho, Sharon vem logo depois e Nick puxa os outros. Meus olhos ficam arregalados e atentos na escuridão. Nós caminhamos, passos lentos e silenciosos até a porta da mansão. Todos nós usamos luvas, portanto, sem digitais. Há uma tela e teclas com números, o que significa que a porta tem senha. James se aproxima e começa a digitar no painel. Eu então olho para o lado esquerdo e minha boca se abre em um som:

"Se abaixem!"
 
E todos se abaixam.
Os raios ultra-violeta surgem em cor vermelha, como uma armadilha. São inúmeros, logo acima das nossas cabeças. James é o único que permanece de pé e ele não acionou nenhum alarme, mais há um raio logo atrás dele, na altura dos quadris. Um movimento para trás e o alarme dispara. James aperta quatro dígitos, a porta se abre e os raios somem.
  Quando entramos, estamos mais atentos do que antes. Alguns viram a cabeça para todos os lados, temendo que uma nova série de raios possa surgir. Subimos as escadas e Sharon sussurra:

"Ok, temos que nos dividir. James, Nick e Fred vão vir comigo. Os outros vão ficar lá embaixo, guardando o local. Só atirem se for muito necessário, não quero que chamem a atenção. E Rachael vai pegar os diamantes no cofre da biblioteca."

"Sozinha?"
   - Pergunto.

"Lógico, ou a Vaccari precisa de uma babá?"
    - Sharon diz com escárnio e todos olham para mim. Eu sei o que ela quer. Eu estou em desvantagem aqui e eles estão me testando. Ela quer que eu reaja, mas, eu não lhe dar esse gostinho. Então, engulo toda a minha vontade de socá-la, levanto as mãos e digo:

"Como quiser, Sharon."

   Então eu viro as costas e sigo para a biblioteca. Eu estou sozinha agora. Thomas está me vendo, em qualquer lugar que ele esteja. Eu tenho certeza que a ordem de me mandar para o cofre sozinha foi dele. Mas, eu respiro fundo e sigo para a biblioteca, disposta a fazer um bom trabalho. Ele acha que vai me pegar, mas, vou mostrar para ele que precisa fazer mais do que isso.
   É uma grande biblioteca, com estantes repletas de livros que se estendem até onde a vista alcança. Há uma porta no canto esquerdo que dá para uma sala vazia... e o cofre. Começo a suspeitar. O cofre está muito visível e a porta não está trancada. Ninguém deixaria um cofre assim, muito menos, se está guardando diamantes nele. James me disse que a senha do cofre era as quatro últimas letras do nome Chevalier, o que é uma senha muito fraca, para falar a verdade. Eu dou de ombros e digito 'lier' no painel. A porta se abre e então eu percebo a charada.

Há raios ultra-violetas aqui, é claro. São muito mais numerosos do que foram lá fora. Eles surgem de todas as direções e se cruzam num emaranhado de luzes vermelhas. É impossível passar por aqui. O alarme soaria na primeira tentativa.

"Rachael"
   - Uma voz masculina soa atrás de mim. James. Eu o encaro.

"O que faz aqui? Você deveria..."
   - Eu digo, mas ele me interrompe.

"Lucy já foi levada, então, eu preferi vim aqui acompanhar você."

"Onde estão os outros?"
   - Pergunto.

"Eles... já foram embora."
   - Então esse é o plano, penso. Eles sabiam que isso estava infestado de raios. Eles planejaram me deixar sozinha, para que o alarme soasse e a polícia me pegasse. Mas, James ficou. Eu o encaro por um tempo para depois mostrar a situação do cofre.

"Nossa, vai ser impossível passar por aqui."
   - Ele diz.
"Eles não podiam ter mandado você fazer isso."

"Eu suponho que não há nenhum jeito de desativar esse alarme."
    - Digo.

"Não que eu saiba."
   - James responde. Então ele se cala por uns segundos e completa:
"Se você quiser, a gente pode ir. O Thomas tem que entender que é impossível passar por aqui."

"Exceto..."
   - Sussurro, um sorriso brotando dos meus lábios. James levanta uma sobrancelha e eu digo:
"Eu aprendi uma vez que todo sistema sempre tem uma falha. Os sensores, parecem perfeitos, mas, podem falhar."

"O que você sugere?"

"Nós vamos passar pelos fios. Juntos. Temos que tomar um imenso cuidado para manter a pressão estável. Uma pessoa só não conseguiria, mas, duas podem confundir o sistema."
   - Digo. James balança a cabeça.

"Rachael, isso é perigoso."
   - Ele diz.

"Nós já estamos aqui. Um perigo a mais não faz diferença."

"Rachael."
   - Ele sussurra meu nome, como um sinal de aviso. Eu estendo a mão para ele e digo:

"Confie em mim."

    James então cede, e sua mão grande e quente envolve a minha. Eu estou gelada nas mãos e nos pés, mas, seu calor me aquece. Meu coração bate forte, porque eu sei que o que estou prestes a fazer é perigoso. Eu posso morrer, ou, no mínimo, ser presa.
       Nós caminhamos lentamente, juntos, até a boca do cofre. Há um raio vermelho que está 1 cm de distância da minha coxa. James aperta minha mão com mais força, me forçando a olha-lo. Nós nos encaramos por segundos e então eu conto de 1 até 3, sussurando. James não se desvia do meu olhar em nenhum momento e no três, nossos pés se movem em direção ao raio.
Eu fecho os olhos, aguardando pelo barulho ensurdecedor do alarme.
Silêncio.
Eu abro meus olhos e vejo que o alarme não disparou, apesar de nós dois estarmos com uma das luzes atravessando nossas pernas. Eu tenho que me controlar para não deixar que a euforia tome conta de mim. Meu plano está dando certo, por enquanto, mas, não posso arriscar. Nós contamos até 3 novamente e passamos pelo outro fio. Nada. Eu e James repetimos o mesmo ritual até chegar no final do corredor. No real cofre. Eu olho para James em questionamento e ele sussurra:

"A senha é ENIGMA."

   É uma senha fraca, porém, inteligente. O verdadeiro enigma não estava nas senhas dos cofres e sim, em como passaríamos pelo sistema de segurança. Eu digito a palavra e o cofre se abre, exibindo uma caixinha azul-marinho forrada em veludo. Eu a seguro e fecho o cofre. Então, vejo James me espiando hesitante. Ele sabe o que temos que fazer agora. Eu conto até três novamente. Então, quando eu termino, nós corremos.
O alarme grita tão alto que tenho a impressão de que vou enlouquecer. James me apressa, mas, eu me sinto desorientada com o barulho e as luzes fortes que piscam em todas as direções. Então eu percebo que a porta do cofre está se fechando e tento me focar. Se ficarmos presos aqui dentro, a polícia nos pegará como passarinhos numa gaiola. A abertura do cofre fica cada vez mais estreita e James me impulsiona a correr na sua frente. Eu sou quase empurrada por ele para fora do cofre e quando eu penso que James não conseguirá sair, ele passa pela abertura esquerda do cofre que se fecha completamente logo depois. Eu procuro os diamantes e vejo a caixa pousada no colo de James. Ele se levanta e me ajuda, me mandando correr. Eu corro e nós descemos as escadas tropeçando às escuras, até que saltamos para fora da mansão. Minhas pernas começam a queimar quando James abre a porta da van e me empurra para dentro dela. Ele sai cantando pneu e eu ouço o barulho das sirenes de longe.