Escritos - página anexa destinada a postagem de obras autorais

27 de jun de 2017

Baed - Capítulo 18

18 DE JUNHO

“É justamente a mera supressão dos sintomas que prejudica ainda mais seu quadro clínico.”
  – A voz de Gao Yifei, a médica particular de Shaofeng, me alcança assim que ponho os pés numa das várias salas da mansão presidencial.
“Proponho um tratamento alternativo, já que os antiácidos e analgésicos que tomou durante todo esse tempo não surtiram efeito, como eu presumi. Terá uma rotina nova, com novos hábitos alimentares, sessões de relaxamento e terapia. Sem remédios para a dor. Garanto que ficará bem.”

Esta é uma área restrita do prédio.
A ostensiva mansão é também um ponto turístico, como se espera de outras mansões e palácios dos “chefes de nação”. Como as entradas e saídas são diferentes, a população só vê o presidente ou qualquer membro de sua família ou de seu governo se ele próprio decidir, e a massa aleatória de turistas está numa área distante demais de onde realmente mora para que o incomodem.
Seu olhar se foca em mim quando ele ergue a cabeça.

“Céus, Ali Albandak!”
– Ele exclama, numa dramática expressão de alívio. Com alguma dificuldade, ele consegue se levantar de sua “poltrona quase cama” e caminhar em minha direção.
“Bendita seja por me salvar de Gao Yifei! Às vezes é um tanto complicado explicar que não tenho tempo para seus tratamentos alternativos.”

“Estou apenas zelando por sua saúde, senhor.”
- Ela murmura, com um claro e bem chinês constrangimento na voz.

“Sei, sei.” – Murmura. – “Por isso está comigo depois de tantos anos. É a única nesta casa que não me daria veneno no lugar de antibiótico.”

Ele diz isso em tom de brincadeira, mas há um fundo de verdade.
Gao Yifei é uma das poucas pessoas que fazem parte do círculo de confiança de Shaofeng. Não faço ideia do que ela possa ter feito para merecer tal crédito, dado que ela já estava aqui quando comecei meu contato com o presidente, mas o fato é que ele a tem como um membro de sua família.
Sua esposa está morta. Uma gravidez arriscada tornou pior sua saúde eventualmente frágil, e ela morreu por conta de uma infecção num aborto recomendado. O médico responsável pelo procedimento perdeu a licença e foi reduzido à miséria, mas deixado vivo, já que Liu Shaofeng se considera um líder democrático, apesar de ter poderes que vão além do que deveria.
Desde então, Gao tem ocupado um posto quase familiar. É mais próxima dele do que o próprio primeiro ministro.

“Senhorita Albandak.”
– Ela diz, levantando-se e fazendo uma mesura. Sempre formal.
“Estava explicando ao Presidente Liu que os analgésicos e antiácidos que toma para sua úlcera servem apenas para gerar uma sensação ilusória de melhora no quadro. A verdadeira razão para sua enfermidade está na má alimentação e nos altos níveis de estresse em que se submete. Se estas causas não forem devidamente tratadas, os antiácidos só servirão numa tentativa fracassada de equilíbrio no PH estomacal que acabará gerando o aumento na produção do suco gástrico.”

“E a ordem e equilíbrio do corpo humano precisa ser mantida etc etc etc” – Ele murmura, repetindo uma de suas falas. A nova onda de constrangimento gerada em Gao por seu desprezo despreocupado, ultrajante, segundo os moldes orientais, me faz sentir uma ponta de compaixão. Então seu olhar foca-se em mim. – “Como vão as coisas no Oriente Médio, Ali?”

“Como sempre foram.” – Respondo, indiferente.

“Ótimo.”
– Diz ele, me guiando ao conjunto de sofás no lado esquerdo.
“Fiquei surpreso ao saber que estava vindo para Pequim. Não pensei que estaria aqui tão rápido.”

“Não estou aqui pela razão que imagina.”
– E esta razão é Kapoor, obviamente. Guan não me deu notícias sobre seu caso. Um misto de surpresa e curiosidade passa por seu rosto com a minha declaração, quando já estamos acomodados.

Este é um dos sinais de que Gao é realmente um objeto da confiança de Shaofeng. Ele não a mandou sair da sala.
Entretanto, ainda que a médica seja a própria personificação da lealdade, Henrique Andrade é um assunto a ser tratado privadamente. Lanço um sutil olhar para a mesa atrás de nós, onde ela organiza seus instrumentos.

26 de mai de 2017

Baed - Capítulo 17

Quando volto para casa, já noite, Rima está retirando os pratos da mesa de jantar, em seu uniforme e sua máscara facial de empregada da casa.
Ela é cozinheira, mas ajuda as moças a levar os pratos de uma ostensiva mesa, com mais talheres, travessas sujas, taças e todo tipo de bugiganga da copa que seja além do usado no dia-a-dia. A saudita lança um olhar sobre mim, e sua indiferença é quase cômica.

“Olá, senhora.” – É o que ela diz. – “Deseja que eu prepare seu jantar imediatamente?”

Não consigo conter um sorriso.
Ameera faz parecer que nada aconteceu hoje de manhã.

“Vou querer jantar sim, Rima, mas não precisa sair correndo para preparar um prato pra mim.”
 – Murmuro.
“Apenas leve-o para o meu quarto quando estiver pronto. O que são todos esses talheres?”

“O senhor Mohammed fez um jantar para membros da empresa.” – Responde. – “Ele perguntou pela senhora.”

Praguejo internamente.
Quando Ameera diz “membros da empresa”, ela está na verdade dizendo “membros da família que trabalham na empresa”. Apesar de não gostar do nepotismo escancarado, tive que manter alguns. E esse tipo de jantar serve justamente para manter a família “unida”.
Além de minha ausência causar uma má impressão – um eufemismo –, eu disse a Mohammed que ele me veria no jantar, o que significa que ele está ainda mais frustrado e chateado comigo.
Depois que acertar 5% dos lucros de Andrade na Europa para mim, eu pensei que seria um desperdício de tempo voltar para casa. Os membros da família Albandak não podem reclamar de mim, no final das contas, já que passei o dia inteiro resolvendo questões da empresa.
Eu geralmente evito Mohammed propositalmente porque não temos o que conversar. Mas não desta vez.
Suspiro.

Baed - Capítulo 16

Como visto, ainda não estou morta.
O homem que me pôs a insípida pulseira me guia pela varanda de uma casa isolada das intensas avenidas do centro de Abu Dhabi, com aspecto externo reto e neutro, murada, com um vasto campo de poeira e pedrinhas soltas ao seu redor.
A área é extensa o suficiente para caber um shopping, mas tem um aparência de abandono, como se alguém pensasse em iniciar uma construção aqui, mas desistisse no primeiro mês. Há apenas uma ou duas árvores próximas e esta casa, com um andar erguido, é compatível com uma família simples de três filhos.
Em seu interior, tudo é tão desinteressante quanto as paredes de fora, pintadas de branco.
Sinto o suor gerado pelo calor do dia escorrer por debaixo da blusa; de um cômodo mais distante, uma silhueta avança em nossa direção, tornando suas feições mais visíveis a cada passo dado.
Quando a entidade para a minha frente, o sorriso satisfeito de Henrique Andrade detém toda a minha atenção.
Esta é uma genuína surpresa.

“Pode tirar a pulseira dela.” – Ele ordena, ainda encarando meu rosto.

O homem que esteve estático ao meu lado avança e remove o contorno de metal.

“Então não vou ser assassinada por alguma carga elétrica alta?”
  – Solto, fitando por um segundo meus pulsos livres.

“Meus planos para a presidente da ALSSU passam longe de homicídio, eu garanto.” – Declara. – “Deve imaginar que a pulseira foi apenas uma medida preventiva. Senhorita Albandak, meu nome é…”

“Henrique Andrade.”
– Completo. Ele ergue uma sobrancelha.
“Eu sei algumas coisas sobre a América Latina, afinal.”

19 de mai de 2017

Baed - Capítulo 15

Acordo com a voz reverente e tensa de Kinski, o mordomo, em meus ouvidos.
Tensa.
Assim que capto a entonação, com não muita certeza da minha precisão, ainda confusa e sonolenta, forço-me a levantar com rapidez.

O que encontro, ao erguer meus olhos para o quarto, é a imagem de quatro homens encapuzados, com seus olhos descobertos e olhar vivo, fixo em mim.

15 de mai de 2017

Baed - Capítulo 14

O barulho das correntes de ferro em atrito ecoam por todo o galpão.
A alguns metros de mim, Majed se sacode e vibra as correntes de seus pulsos e tornozelos, fazendo ranger a cadeira enferrujada; ele possui um limite, entretanto. As longas correntes estão fincadas na parede, e ele sabe que todo esforço para soltá-las é inútil, então ele apenas grita: 

“Quem são vocês?!” 

Eu me movo em minhas botas macias, gastas o suficiente para que se moldem perfeitamente em meus pés, gerando um farfalhar de som que apenas alguém muito desesperado e alerta poderia ouvir. Dizem que, quando um dos sentidos de uma pessoa é retirado, os outros se tornam mais apurados. 

“Quem está vindo??!”

Os outros, responsáveis pelo estrago no belo rosto de Majed Albandak estão encapuzados, apesar do momento não necessitar mais desse tipo de artifício. Eu não quis participar da parte suja do processo, então estou vindo para finalizar. 
Essa é uma morte onde eu preciso estar presente; uma morte onde a vítima precisa ouvir o som da minha voz. 

Então me aproximo, lenta, deslizando sobre o piso de barro, para finalmente responder sua insistente pergunta…

“Sou eu, Majed.” 

Posso sentir seu corpo gelar. 

Volto a caminhar, desta vez para a cadeira reservada a mim, à sua frente, para contemplar seu rosto confuso e ensanguentado. 
Ele volta-se freneticamente para os lados, tentando me capturar, e abre a boca novamente: 

“Ali?” – Murmura. – “Ali?! Onde você…”

“Estou aqui.” – Volto a falar, já sentada, enquanto ele volta bruscamente seu rosto para a direção do som. 

Há uma faixa de tecido branco cobrindo seus olhos, encharcada de sangue em seus globos oculares. 
Seu corpo fede, e ele soa como um animal estressado, acuado. 

“Há uma coisa nisso tudo que me admira em você.” 
– Digo, antes da enxurrada de impropérios que com certeza se seguiriam. 
“Não é o único dos Albandak que queria me ver morta, mas foi o único que teve coragem para pôr as coisas em ação, ao invés de vomitar uma falsa moral.”

Surpreendentemente, ele não diz nada. 
Eu volto a falar, entretanto. 

“É uma pena, para você, ter perdido esse jogo.” 
– Eu não gosto de vê-lo calado. Não é do feitio de Majed. Ele deveria estar xingando até a quinta geração dos meus antepassados.
“Apenas me diga, como conseguiu o Nicolas?” 

Eu guardei essa pergunta durante anos.
O dia de sua morte me soa tão rápido e confuso que passei a desejar saber o que aconteceu até aquele momento. Nicolas me prometeu uma fuga, e uma possibilidade de negócio para assinar o documento de Majed. E antes? Como eles o acharam? 

Majed não responde. 
Eu aguardo por segundos, antes que um dos encapuzados o golpeie. 
Ele nem sequer demonstra dor. 

“Não é o momento para fazer birra, Majed.” 
 – Sibilo, mas minha voz soa ridícula. 

Ele recebe outros golpes. 
Os novos filetes de sangue que se abrem em sua pele, o baque surdo dos golpes e sua total inexpressão me assustam. 
Aos poucos, eu é quem me torno muda. 

“Olhe nos meus olhos mutilados antes de me matar.” 
  – É o que ele diz, minutos depois. 

Eu me sinto petrificada, num repentino e embaraçoso medo, mas avanço. 
Talvez seja o medo, ou a necessidade de afirmar que não o sinto, o que me faz aceitar seu desafio. Com uma mão na pistola e o olhar fixo em seu rosto, faço sinal para que um dos encapuzados remova a faixa. 
Quando o nó afrouxa, e o tecido escorrega para fora, não encontro globos oculares cobertos por sangue, perfurados ou até mesmo retirados. 
Encontro olhos limpos, intactos e implacáveis. 
Encontro os olhos do meu pai. 

Acordo repentinamente, ofegando.
Fito minhas mãos geladas, com suor acumulado em suas palmas. São necessários longos segundos até que eu assimile que este é meu quarto na mansão Albandak, e o que eu vi é apenas um sonho.
A morte de Majed não me gerou remorso.
Ele nunca me pareceu uma vítima, era um porco ambicioso que não seria capaz apenas de me matar, mas destruir, da forma que lhe fosse conveniente, qualquer pessoa que o impedisse de alcançar seu objetivo. Eu sonho com vítimas. Esta sempre foi a tendência.

Baed - Capítulo 13

Minha mãe não era simpática às religiões abraâmicas¹.
O pouco que sei sobre ela gira em torno de seu casamento não validado com o meu pai, por questões religiosas, e meu polêmico nascimento, considerado por uns legítimo e por outros, a consumação de um pecado abominável.
Caminhando pela gigantesca oficina de acabamento da Alssu Albandak Company, onde profissionais em seus equipamentos de segurança, erguidos por andaimes suspensos, se concentram nos dois navios cargueiros enfileirados na pista aberta, me sinto tentada a teorizar a morte da minha mãe. E se ela foi assassinada, ao invés da história de morte natural que me contaram?
Haveria uma longa lista de suspeitos, e uma dificuldade imensa em descobrir o que aconteceu.
Sinto como se soasse um desrespeito à sua memória, mas não estou disposta a por às claras um trecho de minha vida tão fragmentado e disperso.

Minha mente então transita para Liza Vaccari, repentinamente.
Faz anos desde sua morte e de sua filha. Desde então, nenhuma notícia sequer houve sobre William Richmond. Ele soa como um rosto distante, borrado em minha memória, apesar do relativo pouco tempo.
Liza, por sua vez, aparece em minha visão com muita nitidez. Ela passou a vida inteira tentando esclarecer questões do passado, e a cada sujeira descoberta, afundava num poço de infelicidade e violência que a levou para a morte.
James também conviveu com seus monstros dentro do seio familiar. Depois de dois exemplos tão próximos, eu seria estúpida se não aprendesse.

7 de mai de 2017

Baed - Capítulo 12

Deslizo o bilhete de Shaofeng pela mesa redonda do quarto, horas depois.
Guan fita o pedaço de papel com indiferença, com sua postura e silhueta esguia, sentada num dos bancos, com o longo cabelo preto escorrido sobre o tronco.
Há quem diga que tudo é avaliado com desprezo sob o olhar inexpressivo de Guan Sun-so, a policial chinesa-coreana, membro de uma força especial que possui acesso e atuação livre nos países da trinca China-Coreia-Taiwan. Ela, assim como sua equipe, vivem em Taipei há cerca de 3 anos, fazendo monitoração de fronteiras, imigração e questões diplomáticas das embaixadas, a atividade designada para o grupo que reúne policiais, diplomatas, juízes e todo tipo de pessoa que deva estar numa suposta força independente de apoio às potências.
Guan Sun-so, ao contrário do que eu pensei por muito tempo, não é a China.
Ela está sozinha, no meio dos Hansson, por conta própria e clandestina, e eu insisti em não aceitá-la na equipe por causa de minhas desconfianças. Guan é impenetrável. Há sempre uma névoa tão densa ocultando seu interior que ela se torna um agente perigoso. Custou muito tempo e esforço para ganhar minha confiança, e ainda assim, ela não é total.

“Você tem um bônus; ele é diabético.”
– Murmuro, enquanto Guan lê as breves letras no papel.
“Salman Kapoor, 33 anos, casado, 2 filhos, é o produto daquelas reações de sociedade insatisfeita, político ultranacionalista, pavio curto, expressivo e com inclinação ao populismo. Ele tem ganho popularidade e influência na Índia, entre o povo e entre a articulação política nacional, o que o transforma numa bomba-relógio pros chineses. Além das táticas convencionais de políticos do tipo, ele avança numa amizade alarmante com o Japão, através da comunidade estrangeira no país, o que só agrava o problema. Só para se ter uma noção, a esposa dele é japonesa e refugiada. Shaofeng tem pressa. Kapoor não é tão impulsivo quanto tenta parecer ser, as alianças dele tem provado isso. Faça parecer natural, não dê falsos assassinos. É algo extremamente delicado, ele tem apoio, e se esse apoio ao menos desconfiar que ele foi assassinado, você terá aceso a dinamite. Mais alguma coisa?”

“Vai acompanhar o processo?” – Ela pergunta.

Por mais que minha identidade e meu rosto estejam protegidos, seja pela prudência, seja pelos véus da sharia ou pelo apoio de grandes lideranças, não posso participar da maioria dos serviços diretamente. Entretanto, eu me torno uma força implícita, adquirindo informações e direcionando passos, com raras e esporádicas intervenções diretas.
Quando Guan fala de acompanhar o processo, significa se eu vou ser essa força oculta desta vez.

“Não.”
– Respondo.
“Vou voltar para Abu Dhabi, tenho coisas a resolver lá. Estarei esperando por notícias.”

Nós não funcionamos como uma máfia convencional.
Eu não sou uma espécie de soberana cercada de servos para bancar meus gastos e atender às minhas conveniências. Cada pessoa que faz parte do “remanescente” dos Hansson não entrou por amor a mim ou mesmo ao clã que nos conferiu o nome; cada uma delas está aqui motivada por suas adequações pessoais. Eu sou a líder, isto é fato, mas o que me confere fidelidade não é o amor ou os laços de sangue, e sim o fato de que eu sou a melhor escolha.
Esta tem sido minha vida nesses últimos anos. Lutando para me manter sempre no pódio de melhor escolha, e meu relacionamento com Abu Dhabi é essencial para isso.
Eu dependo dos outros muito mais do que me permito externalizar, no final das contas.

Guan caminha até a porta, erguendo o bilhete sobre a chama do isqueiro, observando o fogo lamber a ponta do papel.
Penso num detalhe que provavelmente já foi notado por ela, mas sinto ser necessário salientar:

“Aproveite a imagem de impulsividade que ele criou sobre si mesmo.”
  – Digo. É muito mais plausível que um homem impulsivo, guiado pela volatilidade de suas emoções, seja descuidado com o próprio quadro clínico. Ela olha para mim diretamente pela primeira vez nesta conversa, com a expressão mortificante de quem já havia notado, mas eu completo, ainda assim…
“Esse é o caminho que te levará a um trabalho bem sucedido.”